Palavras sem algemas
Este foi o título que o jornal “O País” deu à capa sobre a morte do professor Gilles Cistac. Um título que descreve perfeitamente os factos. Ele morreue o medo espalhou-se pelo território nacional, porque a mensagem foi descodificada.
Foi mesmo assim: sacrificar um para dar exemplo a milhões. O seu corpo recebeu balas, mas o fogo delas ardeu no corpo dos sobreviventes.
Quando um homem como o Dr. Cistac é crivado de balasà luz do dia, em hora degrande circulação, é sinal de que o medo, que devia impor disciplina nos malfeitores, não existe; é sinal de que os criminosos estão mais fortes do que as forças policiais – ou, pelos menos, aparentam.
Este medir de forças é que faz emergir o juízo de que o bem e o mal coabitam o mesmo espaço, confundindo a opinião pública sobre quando é que se está protegido ou na toca do lobo.
O constitucionalista Gilles Cistac foi muito criticado, nos últimos dias, por defender que a Constituição pode acomodar a pretensão da Renamo de governar nas províncias onde ganhou, desde que a designação não fosse “Regiões Autónomas”, e sim “Províncias”.
Conhecido pela sua frontalidade no debate académico,quando este assunto eclodiu, veio em contra-mão às rejeições emocionais e, com a bússola da Ciência, interpretou o número 4 do artigo 273 da Constituição. Repugnou a muitos, mas o que fez foi apenas interpretar o nosso maior documento legislativo: a Constituição. Nesta matéria, o Dr. Cistac não emitiu a sua vontade, não fez julgamentos do que poderia ser melhor para o país – apenas tornou a Lei-Mãe inteligível.
Aliás, em matéria de assuntos constitucionais, nunca deixou feridas abertas. Sempre que identificava problemas, esclarecia-os.
Se esta for a razão da morte brutal de que foi vítima, definitivamente, este país não se quer desenvolver. O debate de ideias com suporte científico é vital neste processo. E é o que Moçambique mais precisa para dar o salto. Com tantas riquezas que possui, só com debate aberto e franco poderá tirar o melhor proveito.
O Dr. Cistac não foi o primeiro intelectual a ser morto depois de exibir conhecimento, mas que seja o último. Que haja coragem para encarar verdades desagradáveis, que se aprenda a respeitar a diferença e, principalmente, que se aprenda a esgrimir argumentos até à exaustão para defender uma ideia e não silenciar as vozes discordantes com balas. Isso é cobardia.
Em 10 anos, conquistámos a Independência; em 16 anos, reconquistámos a Paz. Mas, para perder tudo, não precisamos de sacrifícios nem de longos anos: basta deixar a intolerância reinar... Disto, Moçambique não precisa. Nem merece.







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