Palavras sem algemas
É comum a estas alturas– da celebração do 7 de Abril – a sociedade esgrimir argumentos para definir a mulher moçambicana. Eu não a defino.
Timidamente, descrevo-a certa dos equívocos que as diferenças culturais, do Norte ao Sul do país, produzem e confundem a opinião pública.
Se os hábitos e costumes são diferentes, o dilema está em encontrar as semelhanças que fazem a identidade nacional, que fazem das mulheres da nossa pátria mulheres moçambicanas.
Dizer que a mulher moçambicana é bonita, é batalhadora, é inteligente, é educada, é igual a dizer que a mulher no mundo é assim. Então, o que será tipicamente nosso?
No debate público, o uso da capulana é o argumento dominante. E há razões para isso. Independentemente da forma como é usada e do seu valor simbólico, ela está presente em todo o país. Não é a sua origem que faz dela nossa identidade, mas o valor que lhe atribuímos e a forma como, concomitantemente, internalizamos o seu significado e permitimos que nos represente culturalmente.
A capulana chegou e rapidamente massificou-se, ao mesmo tempo que adquiriu formas próprias de uso em várias comunidades no país.
Ela é útil e necessária em vários momentos importantes da vida da mulher. Tornou-se indispensável na conquista do respeito social de tal forma que, mesmo na luta pela sobrevivência, devido ao consumo excessivo da moda de outros países, os homens continuam, ainda que aparentemente, a dizer publicamente que o melhor para a indumentária da mulher moçambicana é a capulana.
Por causa da capulana, as inúmeras diferenças resultam em igualdade. A capulana aproxima, une e eleva o sentimento de pertença. Não se antevê, ainda, o dia em que ela poderá perder valor. Em cada geração, reinventa-se e adapta-se às necessidades dos novos utentes, conservando também o simples gesto de amarrar.
A evolução do uso testemunha- se nos calçados estampados de capulana, nos colares, brincos, anéis e pulseiras também estampadas de capulana, assim como nos novos modelitos e festas decoradas de capulana.
Se sem entrar a tesoura já era multiuso, agora ampliou-se o universo de vantagens de ter uma capulana. Aliás, uma das melhores heranças que uma mãe pode deixar a uma filha é uma mala de capulanas e o conhecimento de como fazer uso delas. Portanto, a capulana, sim, é nossa identidade.







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