A Associação dos Estudantes da Universidade Eduardo Mondlane (AEU-UEM) anunciou, em comunicado, esta semana, que “após uma conversa com a direcção da Universidade, decidiu-se que a renovação das matrículas, inicialmente marcada para o dia 28 de Novembro, fica cancelada e que os estudantes não vão pagar os 660 Mt.” Informou, ainda, que “O dia e as condições para a renovação das matrículas serão anunciados com antecedência e explicadas detalhadamente aos estudantes.” Na verdade, o que aconteceu, segundo me disseram, é que a direcção da UEM havia subido a taxa de renovação de matrícula de 80 Mt para 660 Mt. E na sequência disso, os estudantes já estavam a preparar uma greve. É preocupante que as decisões da direcção da UEM estejam reféns da vontade dos estudantes. Não restam dúvidas que os estudantes devem ser tidos em conta em todos os processos que os possam afectar, mas há decisões que, em função das análises internas, devem ser tomadas e vinculadas, independentemente da objecção dos estudantes.Não quero acreditar que a direcção da maior e mais importante universidade do país tenha recuado na decisão de cobrar 660 Mt da taxa de renovação da matrícula para o próximo ano em virtude da contestação dos estudantes, que pretendem que se mantenham os miseráveis 80 Mt. Se não é, no mínimo, ridículo é, no máximo, arrepiante. É que não se justifica, embora seja pública, que a UEM continue a cobrar 80 ou 100 ou 300 Mt de taxa de renovação de matrículas num contexto de crise financeira. Este ano, por exemplo, a UEM decidiu efectuar cortes de linhas telefónicas. Muitos projectos que, em princípio, deviam ter sido implementados este ano foram adiados. O argumento é de que não há dinheiro para isso.
Ora, se o governo decidiu alocar apenas 40% do orçamento global que a UEM havia previsto para o ano em curso, estava a transmitir a ideia de que esta universidade devia procurar soluções internas para dar continuidade aos seus projectos. E as soluções internas passam, mesmo, por chamar, também, o estudante à responsabilidade. Quer dizer, o estudante deve passar, também, a sentir que aquela universidade é dele, não podendo alhear-se aos problemas, como se não lhe dissessem respeito. E se também esses problemas são dele, deverá ser parte da solução dos mesmos, dando um contributo, ainda que simbólico.
O estudante não deve apenas exigir a qualidade dos serviços que a universidade presta sem que dê um contributo para que haja condições financeiras para essa qualidade. O que acho é que a UEM não só devia manter os 660 Mt de renovação da matrícula, como também o rever para valores um pouco superiores. Ademais, acho que a UEM devia, como contributo para a qualidade dos serviços, sobretudo, na área de docência, introduzir uma contribuição mensal simbólica de 500 a 1 000 Mt por mês, para fazer face aos problemas que não só afectam a ela, como também aos estudantes. Tenho impressão de que as universidades públicas moçambicanas são as únicas em que o estudante cursa a custo zero. Na maioria dos países, o ingresso numa universidade representa um investimento avultado para os pais. Mesmo aqui, na vizinha África do Sul. Em Angola, segundo me disse um jornalista amigo, um estudante paga cerca de 100 dólares mensais na Universidade Agostinho Neto, a maior daquele país.
A AEU tem de perceber que defender “causa do estudante” não é inviabilizar decisões que o iriam ajudar através da melhoria dos serviços, mas aconselhá-lo a contribuir para o bem da universidade. Defender que o estudante não pode pagar 660 Mt não só é erro de perspectiva da AEU, como também é negar que esse estudante estude em salas ou anfiteatros climatizados, em condições mínimas. É igualmente negar que esse mesmo estudante contribua para o desenvolvimento e qualidade do ensino na Universidade. Uma associação de estudantes não pode patrocinar alheamento dos seus membros em assuntos que contribuem para o desenvolvimento de uma academia. Ademais, uma associação estudantil tem de ter iniciativas visando o desenvolvimento do ensino. Há muito que a AEU já devia ter estudado a possibilidade da introdução de um fundo de apoio à investigação científica dos estudantes, a partir, por exemplo, do 3o ano, evitando que estes apenas tenham uma investigação ao cabo de quatro ou cinco anos de formação – a monografia do fim do curso. Ou mesmo que não produzam sequer uma investigação, caso dos que fazem Exame de Estado.
Em face desta situação, julgo haver condições para se reformar o pensamento das organizações juvenis, sobretudo a sua missão, visão e os valores que as norteiam.







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