Fiquei relaxado, mas lembrei-me logo que a história de frutas já tinha mergulhado Pinto da Costa em batalhas jurídicas no famosíssimo processo “Apito Dourado”. Pinto da Costa oferecia fruta aos árbitros para que, em troca disso, favorecessem ao FC Porto. Frutas era uma mensagem codificada que se referia a prostitutas.
Collin havia descido ao rés-do-chão, concretamente à recepção, para conversar com os recepcionistas – uma senhora mista e um jovem com uma estampa física semelhante a de Patrick Mboma, de nome Camara Djaló. Desci também à recepção e perguntei onde se encontrava o restaurante. Passavam pouco mais das 20h00 locais, mais duas em Moçambique. Tínhamos de jantar. A senhora disse que devia seguir o corredor e desviar à direita. Sairia no espaço vazio, próximo à piscina. O edifício que visse era o restaurante.
Segui a explicação. Na altura, Collin perguntou a Djaló se podia ter um menu guineense. Djaló disse que não havia problemas. “Vá jantar. No seu regresso encontrará tudo pronto”.
Enforcado de curiosidade, decidi quebrar o silêncio e perguntei ao meu amigo inglês, um jovem bastante conversador e extrovertido, que menu guineense pretendia? Para a minha infelicidade, a minha questão não teve uma resposta satisfatória. “Verá logo que regressarmos ao hotel. Confesso que vai gostar. É uma surpresa agradável”, garantiu-me.
Empolguei-me pela garantia de “surpresa agradável”. Mas também me tinha preparado psicologicamente para um cenário contrário. De Collin, que o conheci há pouco tempo, esperava tudo. No meio do jantar aparece Djaló e diz a Collin que o menu já estava pronto para o inglês ver e o moçambicano deliciar-se.
“Ok. Estamos a vir. São bonitas?”, perguntou Collin a Djaló. O guineense engasgou-se, mas finalmente respondeu: “vão gostar”. Fiquei preocupado. O teor da conversa não me deixar tranquilo. O cenário pior que imaginava parecia que estava à beira de se concretizar. “Que bonitas, Collin? A que se refere? Ah, não me mergulhe em situações imorais, disse a Collin, que imediatamente me tranquilizou: “são duas frutas meu amigo”.
Fiquei relaxado, mas lembrei-me logo que a história de frutas já tinha mergulhado Pinto da Costa em batalhas jurídicas no famosíssimo processo “Apito Dourado”. Pinto da Costa oferecia frutas aos árbitros para que, em troca disso, favorecessem ao FC Porto. Frutas era uma mensagem codificada que se referia a prostitutas.
“Collin, não estou sossegado. A que frutas se refere? Conheço muitas histórias de frutas. Meu..., adianto-te que não vou consumir essas frutas. Não as quero”, disse num tom de ameaça.
O inglês fartou-se de rir. Riu-me e depois disse: “nunca conheci uma pessoa que não gostasse de frutas. Não me envergonhe. Vamos ao hotel”. “Mas diga que frutas”, insistiu. Collin não queria abrir o jogo.
De regresso ao hotel, no meio da caminhada, aprecio a paisagem no pátio do hotel. Estava uma maravilha. A piscina é que estava algo desagradável. Imunda. Água esverdeada e mal cheirosa. No corredor, Collin intensifica a conversa para me distrair e fê-lo com mestria, porque, de facto, conseguiu ludibriar-me.
À entrada da recepção, lanço um olhar para a sala. Estava confirmado o que esperava. Não há frutas nenhumas, propriamente ditas. Havia frutas a Pinto da Costa. Duas miúdas aparentemente dos seus 20 a 22 anos estavam sentadas e ambas de pernas direitas sobrepostas às esquerdas. Eram jovens escurinhas e magras. O peito da mais magra contrastava com o resto do corpo. Perdera estética. Não mexi nenhuma palha. Não tossi. Mantive-me calado.
Djaló aproximou-se de nós e disse-nos: “Estão aí à vossa espera”. Fiquei murcho. Collin tinha-me pregado uma surpresa (des)agradável. “O que fazer”, perguntei-me silenciosamente. Tinha de encontrar uma saída à semelhança do que havia feito com a guineense que encontrara no aeroporto de Dakar.
Que saída? Envolver-me na conversa e na negociação para, de seguida, inventar uma fuga com um “até já”. Fi-lo com sucesso. Collin pensou que eu já estivesse animado e preparado para as frutas. De repente, enquanto negociava com elas, eu inventei uma necessidade biológica que me obrigava a sair imediatamente para o quatro a fim de me livrar dela. E disse a Collin que sentia uma necessidade biológica e que tinha de me deslocar ao quarto. Voltava dentro de cinco minutos. Concordou comigo.
O hotel não tem elevador. Subi as escadas até ao primeiro andar. O meu quarto era 105, o anterior (104) era de Collin. Entrei no quarto e suspirei: “uff, que ele cuide delas. Eu estou fora”.
Para evitar chamadas, levantei o auscultador do telefone do quarto para que sempre que tentassem ligar desse sinal de “ocupado”. Desliguei o meu telemóvel, televisor e as lâmpadas e dormi.
Afinal, Collin não se entendeu com as suas frutas e acabou inventando uma fuga como que viesse me chamar. Bateu na porta do meu quatro sem sucesso. Não o respondi e acabou indo deitar-se no seu quarto. Não tinha entendido o que havia acontecido. Na verdade, a divergência era nos preços.
Uma hora depois, sou acordado por um violento estrondo na porta do meu quarto. Fiquei em pânico. Até porque estava na Guiné-Bissau. “O que está acontecer”, questionei-me. Comecei a imaginar a forma como os guineenses esquartejaram o seu anterior presidente, Nino Vieira e o respectivo Comandante do Exército, Tagma na Waie. Comecei a temer o pior. Antes de me refazer do susto, um outro estrondo volta a fazer sentir-se no mesmo local. Eram elas a bater na minha porta. Pareciam polícias perante uma casa em que sabem ou suspeitam que esteja escondido um criminoso.
Poucos segundos depois, voltam a violentar na minha porta e soltaram um grito: “alô, somos nós que nos deixaram na recepção”. Uff, afinal não eram militares. Eram simplesmente frutas de Collin. Para evitar o incómodo, levantei-me e fui abrir a porta. Uma delas, a do peito maior, queria introduzir-se no quatro, eu travei-a com joelho. “O que está a acontecer”, perguntei, ao que me respondeu que apenas queria “apreciar
o quarto”.
“Tens que pedir licença, primeiro, porque nós não nos conhecemos. Não é isso?”, perguntei-a com violência.
Apercebendo-se da pouca intimidade que lhes mostrava, a outra perguntou-me: “Boite noite, primeiro! Onde está o teu amigo?”. Eu respondi prontamente: “não sei. Ele estava convosco na recepção”. Eis que me contam que ele havia-as dito que me vinha chamar para irmos partilhar as frutas. Eu respondi-lhes que não era verdade, porque nem sequer sabia desse programa com elas”. “Não gosto de me meter com pessoas que pouco conheço”, disse a elas, mostrando-as o quarto de Collin.
Deixaram o meu quarto e foram acordar Collin, sem sucesso. Ele não acordava. Do quarto ouvia-se alguns desabafos em crioulo. Não entendia, mas fiquei com a ideia que de que diziam que “eles desprogramaram-nos. Vamos falar com Djaló que nos chamou. Ele deve encontrar uma solução”. Foram-se em embora.
De manhã, Collin conta-me que estava preparado para ficar com as duas, mas duas razões o levaram a desistir da ideia: exigiam-lhe 100 dólares cada, 50 mil francos CFA. Ou seja, tinha de pagar cerca de 100 mil francos, cerca de 200 dólares pelas duas. Segundo, elas não eram bonitas.
Repreendi Collin pelos prejuízos morais que me causou. Eu já o tinha avisado que não estava para esse tipo de brincadeiras. Mais uma vez riu-se de mim, julgando que eu era “parado”.
Jurei que nunca mais me voltava a meter com Collin. Esta foi, sem dúvida, uma viagem que não quero voltar a repetir







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