
No “Debate da Nação” desta semana ficou claro o quanto a nossa juventude está perdida. No lugar de debater ideias que podem ajudar a construir o nosso belo Moçambique, a maioria dos jovens que participou daquele, limitou-se a trocar acusações entre si, preocupou-se em usar as camaras da televisão para mostrar que uns são melhores que os outros.
Todos nós sabemos quem é MC Roger, quem é Venâncio Mondlane, quem é Galiza Matos, quem é... sei lá... Daí que não era necessário usar aquele nobre espaço para se gabar e humilharem-se uns aos outros. Fiquei tão indignado ao perceber que a minha geração está tão perdida que não consegue olhar na história deste país e dela buscar referências riquíssimas para levar a bom porto a nossa “Pérola do Índico”.
Quando se diz que uma juventude deve ser rebelde, não se está a dizer que a mesma deve sair a rua e combater o governo do dia, senão nós os jovens seríamos a razão da instabilidade política, social e económica do nosso país. A rebelião que os jovens devem ter é inconformarem-se quando se juntam para um debate, e duas horas depois descobrirem que não lançaram ideias brilhantes para resolver os seus problemas.
Ser um jovem rebelde implica não conformar-se em estar formado e esperar que o governo lhe dê emprego, carro, casa e tudo o que necessita, mas sim entender que é necessário ir para o distrito, ou regressar para a sua zona de origem depois da formação académica para promover o desenvolvimento do local onde nasceu.
Ser rebelde é ver nos 7 milhões de meticais uma oportunidade para criar seu próprio emprego, empregar seus irmãos e até produzir comida para gente da sua terra. Ser rebelde é bater-se duro com o governo para desenhar uma política da juventude que espelhe os anseios da juventude.
Ser rebelde é a juventude olhar para todas as organizações juvenis e sentir a obrigação de torná-las uma voz de todo o jovem moçambicano, ou ser alguém que não aceita deixar o Conselho Nacional da Juventude ser um órgão fantoche.
Nós os jovens não podemos nos contentar em esperar que sejam os outros a definirem o nosso destino. Tenho a sorte de trabalhar num grupo onde só há jovens, ou seja, mais de 90% da massa laboral é jovem, mas é confrengedor a falta de garra, de irreverência que vejo na maior parte dos jovens meus colegas e amigos. É perturbador a falta de pertença e olhar para um projecto para o qual trabalha como algo que vai definir a sua personalidade, o seu futuro e sobretudo a forma como os outros olham para si e para o que faz.
Nós como jovens temos que nos apropriar do que fazemos, temos a missão de inculcar o nosso nome em alguma coisa que tenha uma dimensão nacional, não podemos ser vistos como mais alguma coisa que não acrescenta valor algum na vida económica e social deste país.
Arrisco-me a dizer que a juventude de hoje não é capaz de fazer esforços semelhantes aos da geração que 25 de Setembro de 1964. Nós os jovens não conseguimos olhar para a vida e obra de Eduardo Mondlane e isso nos inspirar a unirmo-nos e rebelarmo-nos contra os males que são comuns para todos os jovens deste país, falo do desemprego, falta de habitação, acesso ao ensino secundário e superior, entre outras preocupações.
A minha geração está tão dividida quanto estavam os moçambicanos antes de 25 de Junho de 1962. É claro que o regime contribuiu para isso, incutiu o espírito de submissão, vassalagem aos jovens e estes mesmos com instrução não conseguem lutar por si próprios para melhorar a situação.
Nós os jovens dormimos num sono tão profundo que não conseguimos perceber, como alguém um dia disse que, temos estado a ser mal formados e instrumentalizados quando os filhos dos que nos dirigem estudam fora deste país, e um dia voltarão para continuar a nos dirigir como os seus país o fazem. E enquanto continuarmos a dormir, os netos deles vão também continuar a dirigir os nossos netos. É hora de abrirmos o olho e vermos para onde o nosso país está a caminhar, onde queremos que ele vá, porque senão iremos acordar enquanto já é tarde.
Os actuais líderes do país viram que não era seu destino serem colonizados, os jovens portugueses perceberam que não era correcto manter subjugados outros povos, e acabaram por protagonizar o que ninguém esperava, um golpe de Estado em Portugal, o que mudou radicalmente as acções do governo português. Hoje não precisámos de golpes de estados, não precisámos de pegar em armas para mudar o rumo das coisas.
Nós os jovens estámos instruídos e temos meios de comunicação social entre outras formas que nos podem ajudar a recusar sermos usados.
Sou optimista e não gosto de me auto-flagelar, mas a minha experiência associativa me permitiu escrever o que está nesta coluna. Já fiz parte de muitas associações, inclusive do CNJ, na sua representação mais baixa, o Conselho Distrital da Juventude. Em todas organizações por que passei encontrei mesma coisa, falta de união e tolerância entre os jovens.
Na maior parte das organizações são poucos os jovens que assumem as responsabilidades, a maior parte vive se furtando e deixando que sejam os outros a fazer as coisas, e ficam no muro a assobiar e a maldizer os que põem a mão na massa. Se calhar é por isso que o Conselho Nacional da Juventude nunca funcionou.
Mas reitero que é necessário sermos rebeldes e não nos contentar em ter organizações juvenis que não produzem o que se propuseram a fazer.
Aproveito esta oportunidade para saudar todos os jovens que nunca esperaram pelo governo para realizar os seus sonhos. Saúdo os jovens que têm a coragem de abandonar as cidades e vão aos distritos ajudar a desenvolver este país, que precisa de ser desbravado.
Encorajo também aos jovens que conseguem sacrificar-se, deixando os maus vícios de lado para conseguir construir suas próprias habitações sem depender de um apoio, necessário, do governo ou financiamento dos bancos. Temos que aceitar que estámos num país pobre economicamente, mas também que temos muita gente que é pobre de espírito, e que precisamos de ter coragem para enfrentar os problemas que nos aparecem de frente com força e irreverência que caracterizou os jovens dos meados do século passado que conduziram as independências africanas.
Que Deus abençõe a juventude Moçambicana!







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