
Uma vez mais, o nosso governo faz ouvidos de mercador aos apelos dos mais diversos quadrantes da sociedade moçambicana, do Rovuma ao Maputo, e do Zumbo ao Índico, em relação ao nome dado à ponte sobre o rio Zambeze, que já este sábado passa a estar aberta ao trânsito.
Em todo este processo penso que há várias lições a serem tiradas, uma delas é de que devemos respeitar as opiniões contrárias, independentemente delas ferirem com o nosso orgulho ou não. Mas também nos ensinou que há determinadas decisões que o governo já não pode tomar sozinho, pois já não estámos na era de ideias centralizadas. As pessoas querem sentir-se participantes da vida política, económica e social do país, através de consultas públicas, que podem ser feitas por via das novas tecnologias de informação à disposição do governo.
Este ano, particularmente, ficou evidente que as opiniões do povo não têm influências naquilo que os órgãos de soberania decidem, não obstante, dependerem do voto popular para se perpetuarem no poder. Não duvido que a maioria das pessoas que se pronunciaram em relação ao nome atribuído à ponte sobre o rio Zambeze, não era a favor daquilo que o governo decidiu. Pior, porque o ministro das Obras Públicas e Habitação, Felício Zacarias, disse descaradamente que ele é que propôs o nome do actual chefe do Estado ao seus pares, que anuiram sem discutir e, ainda por cima, na ausência do presidente da República. Pior porque fizeram questão de desprezar o que a maioria dos moçambicanos disse em relação este assunto.
Isto assemelha-se ao que aconteceu com a Lei sobre Violência Doméstica contra a Mulher, que apesar de na auscultação pública ter vincado a opinião de que a mesma deve ser abrangente, depois de ter sido aprovada na generalidade, facto que aumentou a contestação pública, os deputados acabaram por fazer um arranjo na lei, adicionando o artigo 35.
Na minha opinião, a democracia não se esgota apenas no acto de votação. Tornarmo-nos num país democrático, devemos ser capazes de engolir a seco algumas decisões que satisfazem a maioria, infelizmente, o que não acontece no nosso país.
Estou satisfeito porque a sociedade civil está a desempenhar o seu papel e vai dando mensagens claras ao governo, que deverá ser obediente, mas o mesmo parece ainda não estar habituado a ter que abandonar as suas convicções e adoptar as que satisfazem a maioria. Um dia meus senhores, isto poderá ter resultados desastrosos nas urnas, porque os moçambicanos estão a acordar.
Isto não quer dizer que o governo deve andar à reboque do povo, todavia, deve ser um governo razoável, que consegue ouvir o que os outros dizem e pensam, porque nós não podemos construir um país que depende de cada governo.
Digo isto porque muitos não se identificam com o nome atribuído à Ponte Armando Guebuza, o que quer dizer que se um outro governo subir ao poder, corremos o risco de ver aquela ponte ter outro nome, dado o facto de nas condições em que foi atribuído não satisfazer a maioria. Se tivesse havido uma auscultação pública que legitimasse a decisão do governo, acredito que todos estaríamos mais a vontade. Não que se aplique para o caso em concreto, mas acho que é altura de o governo convocar em algumas situações referendos, previstos na Constituição da República, como, por exemplo, na despenalização do aborto.
Bem haja a ponte Armando Emílio Guebuza!







Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.






