Na semana passada tive a felicidade de integrar a delegação que acompanhou a esposa do Presidente da República à Coreia do Sul, um dos países mais industrializados do mundo. Aliás, basta desembarcar para sentir a grande diferença entre aquele país e o nosso. E daí salta uma pergunta: será que chegaremos lá um dia? A razão da minha questão reside no facto de a Coreia do Sul ter sido um país pobre, isso há exactamente 50 anos. E nós também não estamos longe de atingir 50 anos como um país.
Até à década 60, aquele país asiático era pobre, dependia de importações, não tinha quase nenhuma indústria. Mas a partir dessa década, inicia uma pequena indústria têxtil que transformou a Coreia do Sul num país de indústria pesada: construção naval, automóvel, alta tecnologia, entre tantas outras. A maior parte dos seus cidadãos tem ensino superior, com destaque para as engenharias. E é um país sem recursos naturais, diferentemente do nosso.
Diante de tudo isto, durante os seis dias em que fiquei em Seul, mais e mais perguntas tomaram de assalto a minha mente. Será que estamos a preparar-nos para dar um golpe final à nossa pobreza e passarmos de um país importador e de exportação de matéria-prima para um país de indústria de transformação dos nossos recursos e de exportação de produtos acabados? Um país de engenheiros e técnicos profissionais que transformam as nossas riquezas naturais em produtos acabados? Confesso que passei quase todas as noites em claro a pensar nisso e a ter pesadelos só de perceber que, ao que tudo indica, corremos o risco de ser como os outros países africanos.
É que se a Coreia do Sul conferiu aos bancos um poder estatal para garantir o financiamento das indústrias a taxas de juro acessíveis, no meu país, vejo bancos que aplicam taxas de juro quase insuportáveis para quem quiser aventurar-se num crédito.
Se o governo coreano concedeu incentivos fiscais à indústria, incluindo na importação de equipamentos que auxiliem a produção, no meu país, vejo empresários a reclamarem do sufoco dos impostos, para além de alguns que não conseguem importar equipamentos, devido às altíssimas imposições aduaneiras.
Na década 70, o governo de Seul viu o seu endividamento crescer substancialmente, com um único objectivo: criar o Fundo Nacional de Investimento, que, através dos recursos financeiros captados nos bancos, garantia taxa de juro muito baixas aos industriais.
No meu país, entretanto, tenho visto o crescimento substancial do endividamento público para construção de infra-estruturas que não acrescentam grande valor à economia nem ajudam a catapultar a produção nacional: será que os mais de um bilião de dólares que, através de endividamento público, estão a ser investidos para a construção da ponte Maputo-Katembe e estrada para Ponta d’Ouro, remodelação do Centro de Conferências Joaquim Chissano e reconstrução da Presidência da República, se tivessem sido direccionados, por exemplo, a toda a cadeia produtiva na agricultura não aumentariam as áreas de cultivo, o processamento e a respectiva distribuição, e assim acabarmos com a fome no país? E o excedente poderia ser vendido no exterior.
E cheguei à conclusão de que talvez não tenhamos clareza do que queremos ser como país daqui a cinco ou dez anos. Cada um vive como pode, ganha a vida como lhe convém e alguns vão ficando cada vez mais ricos e outros cada vez mais pobres…
E assim vamos nós como um país.
Bem haja Coreia do Sul e Deus abençoe Moçambique!







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