Ntxembane queria, porque queria, dirigir o regulado de Manguze após a renúncia do régulo Dimbaza, por conta da sua idade avançada.
Passavam 18 anos que Ntxambane esperava ansiosamente pela oportunidade, mas Dimbaza foi a escolha dos madodas porque tinha perfil para conduzir o complicado processo de pacificação e entendimento com o imperador de Gaza, Ngungunhana, que usava o regulado de Mafanguene para desestabilizar Manguze.
Dimbaza conseguiu pacificar o regulado, reabilita-lo, mas quando sentiu o peso da idade chamou os ‘‘madodas e disse que era hora de entregar o poder a novas lideranças. Tinha chegado a vez de Ntxambane que moveu “mundos e fundos” para conseguir o tão almejado cargo. E conseguiu. Apesar de alguém dentro do regulado ter alertado que não era a pessoa certa’, porque estragava em tudo o que metesse lá sua mão.
Prometeu tornar o regulado mais forte e próspero. Mas os seus actos contrariavam suas palavras. Tentou subjugar militarmente Mafanguene, por o considerar incómodo, o que provocou confrontos entre as partes.
O regulado entrou em desespero. Os camponeses fugiram das suas machambas e deixaram de produzir. Os comerciantes “baneanes” que iam comprar castanha de caju, milho e feijões no regulado deixaram de lá ir e passou a faltar dinheiro. Para tentar salvar o barco e no sonho de se tornar o melhor de sempre, clarividente e melhor filho da terra dos machopes, Ntxambane foi ao régulo Mpfumo, o mais rico da região, emprestar muito dinheiro para financiar construção de estradas, pontecas, palhotas para curandeiros, pagar suas viagens e construir palácios para ele e outros chefes.
Todo mundo viu que Ntxambane estava mesmo a destruir o regulado e exigiu-se que saísse. Tentou recusar, mas a “ferro e fogo” acabou cedendo.
Foi indicado Tinhoxi para o substituir. Um jovem cheio de energias e sonhos. Porém, poucos acreditavam nele. Mas aos poucos foi conquistando os incrédulos e se firmando como um potencial líder. Mas teve primeiro que enfrentar ameaças de invasão de Mafanguene que continuava enfurecido com as provocações de Ntxambane.
Para piorar a sua situação, Tinhoxi encontrou os cofres do regulado vazios, muitas dívidas com o régulo Mpfumo. Os agricultores e comerciantes “baneanes” que tinham prometido ir instalar grandes machambas e lojas no regulado mudaram de ideias e preferiram esperar para ver se a situação no regulado melhorava, até porque os preços de alguns produtos produzidos localmente estavam a baixar de preços nos mercados da região. E o dinheiro usado no regulado começou a perder o seu valor a cada dia e Tinhoxi ficava sem muitas margens para governar.
Mas mesmo assim, a Empresa Manguzense de Arroz (EMARROZ) criada por Ntxambane com recurso a avultada dívida, grande parte da qual usou para comprar espingardas e mandar fazer azagaias alegadamente para caçar pardais que comiam arroz e se proteger de Mafanguene, complicava a vida a Tinhoxi, porque o pouco dinheiro que encontrou nos cofres tinha que pagar as primeiras prestações da dívida aos agiotas.
No regulado, as dúvidas também aumentavam a cada dia. Ninguém sabia dizer o que iria acontecer. E todos perguntavam o que fará Tinhoxi para evitar o colapso da economia do regulado e salvar Manguze das investidas de Mafanguene, que ameaça invadir parte do regulado e governar a força alguns quarteirões.
Porém, todos concordavam que a culpa era do teimoso Ntxambane e que devia ser penalizado por isso, mas outros acham que Tinhoxi devia convencer os madodas a deixa-lo fazer reformas nas regras que regem o regulado de Manguze e permitir que os chefes de quarteirões fossem também eleitos, tal como se fazia com os membros do Conselho do Quarteirão e que tais reformas entrassem em vigor nas eleições dos anos seguintes, mesmo para acalmar os ânimos de Mafanguene que acreditava que poderia conseguir fazer eleger alguns chefes de quarteirão leais a ele em Manguze.
Uma decisão dessas não seria inédita no regulado, Dimbaza tinha feito quase a mesma coisa quando decidiu alterar as regras de sucessão por linhagem e sim submeter a indicação do régulo através de votação dos “madodas’’, assim como a indicação dos membros do Conselho do Regulado também através de voto e foi discutir o fim das hostilidades com Mafanguene com a principal preocupação daquele resolvida. E a ousadia de Dimbaza levou Manguze a viver sem confrontos durante mais de 20 anos.
Pelo que, se esperava de Tinhoxi a mesma ousadia. Até porque não tem outra escolha senão entender-se com Mafanguene, porque essa é a condição primária para resolver todos os problemas que o regulado de Manguze enfrentava. Caso contrário, a situação do regulado haveria de se deteriorar cada vez mais, o que colocaria em risco o seu poder e legitimidade.
Thwoo Nkanrigana
NB: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.







Esta ligação irá abrir o SAPO Fotos.






