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Quinta-feira
24 de Agosto
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Início Política Política “Uma guerra de guerrilha não sobrevive sem o apoio popular”

“Uma guerra de guerrilha não sobrevive sem o apoio popular”

Francisca Dhlakama não tem dúvidas.

Francisca Dhlakama entrou para a vida política na adolescência e muito cedo assumiu destacadas funções na Frente de Libertação de Moçambique. O treino político-militar em Agosto de 1971, em Nachingwea, foi o trampolim. Especializou-se e foi instrutora político-militar e mais tarde comandante de operações militares, assim como comandou o destacamento feminino em algumas missões.

Como é que uma jovem decide entrar para um movimento de libertação, ou melhor, como é que essa paixão surge em si?

Na verdade, a decisão não foi minha. Eu fiz parte de um pacote familiar. Isto é, a decisão foi dos meus pais. O meu pai já estava a sofrer perseguição pela PIDE/DGS e já havia um mandado de busca e captura. Então, ele foi alertado, antecipadamente, por pessoas amigas que tomaram conhecimento e que viram o documento que apontava que ele seria preso, exactamente, numa segunda-feira. Mas eles (os meus pais) já se vinham se preparando, porque tinham sido alertados, e, entretanto, foi com base nisso que foram ajudados, também, para sair com toda a família.

O que fazia o seu pai a ponto de a PIDE/DGS estar interessada nele?

Porque ele já era militante da Frelimo na clandestinidade. Na verdade, foi um dos fundadores da Frelimo na clandestinidade e que convivia com militantes, com elementos que já trabalhavam para a Frelimo, que levavam pessoas para o outro lado e recebiam correspondências de uma malta amiga, que já se encontrava em Dar-es-Salaam. Ademais, em 1961, ele foi um dos homens que se avistou com o falecido presidente Eduardo Mondlane cá em Lourenço Marques.

Trata-se de um período em que a PIDE apertava muito a circulação de moçambicanos. Como é que o seu pai conseguia fazer esse trabalho nessa altura? Como é que entrava em contacto com esse grupo da Frelimo?

Havia sempre uma forma de entrar em contacto. Não sei com exactidão, na altura era muito miúda, tinha seis, sete, ou oito anos, de modo que não posso precisar. Mas sei que ele tinha contactos com a malta que já estava do outro lado e que, também, após termos regressado à Beira, porque ele tinha sido transferido para Lourenço Marques, juntamente com a minha mãe e algumas outras pessoas, ajudaram estudantes, em particular ex-seminaristas, a saírem de Moçambique, que desejavam continuar com os seus estudos e partiram para Europa, Estados Unidos.

Quando é que Francisca Dhlakama ganha consciência de entrar para esse movimento, para além de ser filha de um combatente, Samuel Dhlakama?

Na verdade, tornei-me membro do destacamento feminino aos 15 anos de idade. Então, tinha estado na escola, naturalmente quando fui para lá tive de continuar os meus estudos. Completei a 4ª classe em Tunduro. Fui uma das pioneiras quando a Frelimo decidiu estabelecer a Escola Primária de Tunduro. Saí de Moçambique com 3ª classe feita. Fui fazer a 4ª classe lá e depois fui para o Instituto Moçambicano, onde permaneci até 1968, aquando do encerramento do mesmo. Parei durante um ano e pouco sem poder prosseguir com os estudos, porque não tinha onde prosseguir. Mas depois fez-se um arranjo e continuei numa escola privada em Mbeya, que era escola de freiras holandesas. Foi lá onde prossegui com os estudos até aos 15 anos de idade. E aos 15 anos de idade, naturalmente, tinha que passar para um outro nível e depois foi quando o representante da Frelimo em Mbeya transmitiu-me, portanto, a decisão do movimento, de que me devia juntar ao destacamento feminino.

E entra para o destacamento feminino como uma das principais referências em termos militares. Como é que era o destacamento feminino? Qual era o vosso papel?

... Como todo o mundo, tanto elementos do destacamento feminino como do sector masculino, primeiro tínhamos de ser treinados, ser submetido a treinos básicos, de modo que não havia excepção para ninguém.

Não havia essa diferença entre homens e mulheres?

De uma maneira geral sim, porque o destacamento feminino tinha (basicamente o treino era o mesmo, mas nós tínhamos tarefas específicas, enquanto a tarefa do homem era, exactamente, combater, nós exercíamos as nossas actividades mais na retaguarda nas zonas libertadas) que aprender a defender as zonas libertadas; tínhamos que acolher crianças órfãs ou filhos de combatentes a desempenhar outras funções; tínhamos que cuidar deles e, depois, outros eram encaminhados para fazerem o curso de enfermagem, professorado nas zonas de guerra e, para tudo isso, era preciso que elas estivessem militarmente, para além de politicamente, preparadas, porque a qualquer momento havia ataques e isso sempre aconteceu (...). Tínhamos que defender as zonas, as pessoas e a nós mesmas. Para além disso, tínhamos que transportar o material de guerra, porque não tínhamos carros, cavalos nem tão pouco burros. Eram cabeças humanas que transportavam, desde a fronteira com a Tanzania até ao primeiro e segundo sectores, em muitos casos. Então, era o destacamento feminino que fazia isso. Tínhamos que desenvolver a agricultura para abastecermos aos soldados e alimentarmos as zonas libertadas. A tarefa principal do destacamento feminino era mobilizar o povo para se juntar à Frelimo e desenvolver a guerra.

Como é que se toma a decisão de transformá-la numa militar? Nessa altura, se formos a ver a sua história, aparece como a única mulher com treinamento para comandante político-militar. Como é que toma essa decisão?

Olha, nós não decidíamos. Não éramos nós que escolhíamos aquilo que queríamos fazer (...), a decisão era nos transmitida.  Como militar, não podia decidir nada, de modo que eram os meus superiores que ao nível do campo de treinamento político-militar de Nachingwea seleccionavam. Primeiro, após o treino básico, seleccionaram-me para um curso de especialização, que era para nos tornarmos instrutores político-militares e foi o primeiro curso a ser realizado em Nachingwea. Aí houve mistura tanto de elementos do destacamento feminino como do masculino. O primeiro integrou duas jovens, ou duas mulheres, ambas da mesma idade.

Ainda se recorda dessa sua companheira?

Sim, Boldina Cristóvão, que agora está na província de Sofala e, mais tarde, tirou o curso de enfermagem. Alguns já eram monitores, não eram instrutores, isto é, eram instrutores sem formação, de modo que na realidade eram monitores político-militares. Alguns já haviam sido comandantes em zonas de guerra, em Cabo Delgado. Uns haviam participado inclusive  contra a ofensiva “Nó Górdio”. Tivemos dois quadros que vieram de Cabo Delgado, ambos já não existem, morreram. Foi o caso do Mugido; o caso do Lindolondolo, grandes músicos que a luta de libertação nacional produziu. A nível do Niassa Oriental, salvo o erro, veio o Erasto Mulémbwè. Outros foram seleccionados do centro de preparação político-militar de Nachingwea. Após essa formação, tivemos que desenvolver as nossas tarefas: formar quadros. Uma das grandes missões que nos foi incumbida, a primeira até, foi treinar a terceira companhia do décimo primeiro batalhão, salvo o erro. Foi a companhia que abriu a frente de Manica e parte da mesma avançou para abrir a frente de Sofala...

Francisca fez parte desse grupo que preparou esses combatentes?

Sim, fiz parte desse grupo de instrutores e, mais tarde, foi quando voltámos, após termos exercido as nossas tarefas durante algum tempo, para um outro curso de especialização, para nos tornarmos comandantes de operação militar. E ali eu era a única mulher, porque a Boldina já havia seguido para tirar o curso de enfermagem em Mtwara.

Havia muita preocupação de formar militares dentro da Frelimo. Gostava de saber qual era o interesse da Frelimo ao formar esses quadros?

Houve sempre esse interesse. Logo após a fundação da Frelimo, os primeiros quadros militares que abriram frentes de combates e tudo foram treinados fora do país, como todos nós sabemos. Foram treinados na Argélia, China, União Soviética e cada um deles voltava com uma estratégia, táctica, totalmente diferente e tinha que se criar uma plataforma comum de actuação. Por outro lado, não podíamos ficar, eternamente, dependentes. Foi quando se decidiu por que não nós, mesmo antes de termos esse curso de especialização em termos de instrutores político-militares, a nível de Nachingwea, já tínhamos instrutores capazes, competentes com muita boa experiência, que nos treinavam.

Fale-nos um pouco desse centro de treinos de Nachingwea. O que era exactamente? O que é que aprendiam? E quais eram as principais figuras desse centro de Nachingwea?

Olha, o centro de preparação político-militar de Nachingwea era o coração da Frelimo. Representava a nação moçambicana, porque pessoas vindas de todas as províncias de Moçambique acabavam convergindo e agrupando-se em Nachingwea. Era lá onde todos recebíamos a preparação político-militar, que nos facilitaria e facultaria no desempenho nas nossas tarefas quotidianas. E essa base era muito importante. A tarefa primordial da Frelimo e dos quadros e militantes era combater para libertar o país. Uma vez que havia nos sido negado um diálogo com o colonialismo português, e a Frelimo havia tomado a decisão de que só por meio de armas é que libertaríamos o país, tínhamos que preparar as pessoas devidamente bem para levarmos a cabo essa tarefa.

O que é que fazia com que vocês se unissem mesmo sendo de diferentes províncias?

Todos nós havíamos sido colonizados, do Rovuma ao Maputo, e o colonizador era o mesmo, de modo que tínhamos essa base comum. Todos queríamos essa liberdade, ninguém queria continuar a viver colonizado. Esse era o factor principal que nos unia. Unirmos, trabalharmos, lutarmos, prepararmo-nos devidamente para a libertação, não só para libertar o homem como o país. Por outro lado, exortou-se sempre para que houvesse a unidade, uma vez que éramos todos irmãos do Rovuma ao Maputo e que, obviamente, havíamos sido divididos. Conforme todos sabemos, divide para melhor reinar, essa foi a estratégia usada por todo o colonizador em África e era preciso combatermos o divisionismo e, realmente, pensarmos de uma forma moçambicana, não de uma forma tribal.

Leia mais na edição impressa do "suplemento especial-50 anos- Frelimo"do «Jornal O País»
 

"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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