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ÁGUA: As restrições vão continuar por meses

“No pior cenário, daqui a um ano não temos água nenhuma”

Manuel Alvarinho é um homem das águas com formação, experiência e conhecimento do sector em Moçambique. Só para se ter uma ideia, esteve à frente da criação das empresas estatais de água, desenvolveu os primeiros projectos de expansão aos bairros periféricos, ajudou a criar o FIPAG, assim como participou na elaboração da legislação que hoje sustenta o abastecimento de água. Actualmente, é PCA do Conselho de Regulação de Água, uma voz autorizada para falar da crise que o Grande Maputo enfrenta. Em entrevista ao O País, diz que há soluções de curto e longo prazos e alerta para o risco de restrições mais graves. Lamenta que o crescimento urbano não seja pensado estrategicamente, destacando que o subúrbio não pode ser visto como transitório. Siga a entrevista:

 

A barragem dos Pequenos Libombos opera há cerca de 30 anos e, agora, regista a pior baixa do caudal. Por estas alturas, devia estar a cerca de 80% do encaixe, mas está a menos de 15%. No pior cenário, sem registo de chuva e com esta percentagem de água, por quanto tempo se pode abastecer Maputo?

Essa é uma pergunta delicada. Não sei se compete a mim falar taxativamente sobre esse aspecto. Mas o que lhe posso dizer é que se não começar a chover na próxima época de chuva, logo muito cedo, temos um problema grave. Se a situação actual prevalecer, estamos a caminhar para o fim da época da chuva, se não houver uma modificação radical da situação durante o mês de Fevereiro ou Março, então, nós vamos estar muito ansiosos que comece a chover em Outubro. Por isso, o Conselho de Ministros já apreciou os vários cenários de restrições. Eu diria que a situação de hoje, o nível de restrições em Maputo, vai continuar por meses e pode agravar.

 

Tendo em conta que a barragem dos Pequenos Libombos reduziu de 4.5 para 3 metros cúbicos de descarga por segundo e atendendo que a capacidade de encaixe da barragem já está a níveis alarmantes, neste caso abaixo de 15%, caso não chova, qual deve ser o melhor mecanismo de gestão da água até à próxima época chuvosa?

Esse é um assunto que as autoridades estão a estudar.

 

Será que daqui a um mês ou dois aliviamos as restrições? Qual é o pior cenário?

Se o cenário prevalecer, nós vamos ficar na situação em que estamos por mais um ano. No pior cenário, daqui a um ano não temos água nenhuma. Não vou dizer que é no dia um de Janeiro, depende, por exemplo, se começarmos a poupar água (...) Depende de medidas de criação de mais furos neste período, que vão evitar que as pessoas estejam só dependentes da água do Umbeluzi. Depende, em última análise, se se consegue viabilizar uma central de dessalinização. Então, há várias medidas que o Governo está a estudar, mas também depende, por exemplo, se Corrumana recebe água, se conseguimos acelerar a obra da Corrumana. Então, todos os cenários estão a ser estudados. Nós temos um ano em Maputo difícil pela frente, por isso, temos que tentar nos aguentar com a pouca água que temos. Mas pode, de repente, a situação mudar. Eu gostaria de dar um pequeno dado. Em 1983, Umbeluzi ficou com menos água do que a barragem deixa passar. Não tínhamos barragem e houve um período muito tenso com a Suazilândia. Será que a Suazilândia está a travar a água? Este é um assunto que não me compete. Esta é uma área dos rios internacionais. É uma área muito sensível e eu diria que, em Outubro de 83, tivemos uma restrição de muita falta de água e o sistema era bem mais pequeno que hoje, passava um metro cúbico por segundo, mil litros por segundo, parece muito, mas não é. Se não passarem três, temos falta de água. Mas, em Janeiro de 1984, passou uma onda de sete mil metros cúbicos por segundo, passou de um para sete mil. Embora o ciclone também faça danos, se por acaso vem algum evento extremo e nos enche aquela barragem, então nós não ficamos tristes.

 

Referiu-se à Suazilândia no período crítico e levantou-se a hipótese do país estar a travar a água. Olhando para o actual contexto, o que estará por detrás desta crise de água?

Eu julgo que o Governo tem que analisar este aspecto. É muito delicado este assunto. Não podemos assim levianamente acusar a Suazilândia. Mas é um assunto claro para Moçambique que os nossos vizinhos têm muitas barragens. Suazilândia e África do Sul desenvolveram muitas barragens. Como é que Moçambique monitora o curso das águas a montante, tendo em conta que existe um protocolo, um acordo de partilha de águas a nível da região.

 

Este acordo é respeitado?

Ele é respeitado na medida em que nós estejamos atentos e consigamos monitorar.

 

E temos capacidade de monitorar?

Eu diria que temos que reforçar essa capacidade. Esse é um assunto que envolve não só o sector de águas, envolve transversalmente outros sectores, negócios estrangeiros, segurança. A questão de rios partilhados, felizmente, o enquadramento da SADC, os protocolos, as comissões conjuntas, os acordos de partilha, tudo isso vai numa direcção positiva. Mas nós temos que estar atentos, porque, senão, os nossos irmãos vizinhos não deixam passar água só porque nós somos simpáticos. Nós temos que ir à luta. Entre países, há sempre acordos de troca de informação sobre quanto é que está a passar de água numa determinada estação hidrometeorológica na Suazilândia ou na África do Sul. Esta é uma área que, de facto, tem que ter uma capacidade muito forte. Já se esteve pior, imagina termos que reforçar. Mas é bom não esquecer que toda a África Austral, em particular a parte mais a sul, está com uma grande seca e há grandes restrições de água por todo o lado. África do Sul, Suazilândia, Namíbia, etc.

 

MODELO URBANO ERRADO

Até que ponto o Governo acautelou o “boom” demográfico e como é que planeou o futuro para saber lidar com estas situações de hoje?

Na minha opinião, nós não pusemos ainda em marcha nenhuma política ou uma estrutura para tratar do fenómeno da urbanização. É claro que temos outras dificuldades no país, temos pobreza, temos problemas de desenvolvimento. A urbanização, nós sabemos que há em toda a África uma tendência clara de crescimento da população urbana em desfavor da população rural. Fazendo crescer as periferias, pouco crescem as zonas urbanizadas. Por isso, eu tenho esta opinião e há mais gente no mundo que tem, que nós estamos a pensar num modelo de desenvolvimento urbano errado, do lindo passeio, da linda rua asfaltada, muros bonitos, mas não é assim. Nós temos que ver se entramos nos subúrbios. Nas condições que estão ali, nos próximos 30, 50 anos, eu lamento muito dizer isto, mas a realidade é que vai agravar a situação dos subúrbios. Estamos a ver isso na América Latina, estamos a ver isso na Ásia. Por isso, este assunto tem que ser pensado. Um dia, vamos conseguir reduzir a pobreza, vamos melhorar a economia do país e vamos conseguir dar uma nova dinâmica ao desenvolvimento das cidades. mas, até lá, o que fazemos? Temos que modificar a nossa maneira de ver. O planeamento urbano tem que ser centrado no subúrbio. Repare que a rua não tem nome, a casa não tem nome, o chefe da família daquele agregado se calhar não tem BI, aquela casa eles não têm documentos legais de posse de terra, não tem DUAT. Todo este ambiente, em certos países, leva a dizer que não vamos dar água, porque é assentamento informal e ilegal. Mas nós não dizemos isso, nunca dissemos, desde a independência estamos a pôr água lá. Então, temos que adaptar os sistemas e a tecnologia pode ajudar-nos - agora temos as novas tecnologias, o celular, o GPS, a fotografia - cadastrar o consumidor. Então, nós precisamos de deixar de pensar que o subúrbio é transitório. É transitório numa escala de 100 anos? Sim, é transitório. Mas numa escala de 30 anos é transitório? Não é transitório.

 

E como é que o Governo estimula o empresariado nacional para ganhar interesse neste sector e trazer soluções que possam complementar o trabalho que estão a desenvolver?

Está a levantar um ponto muito interessante. É que, de facto, as soluções para prestar serviços nestes ambientes de assentamentos informais parte muito do princípio de envolver os empreendedores locais.

 

Que trabalho é que se faz com as universidades para estimular a criação de soluções tecnológicas?

Eu acho que está a tocar noutro ponto importante que é: como é que tratamos a investigação, como é que construímos a ponte entre os que fazem coisas, assim como eu. eu não sou académico, como no passado, hoje sou presidente do Conselho de Regulação de Água. Mas os académicos que estão ali no seu ambiente a dar aulas, não temos muita prática de juntar forças, de utilizar a capacidade da academia junto dos profissionais. E uma das soluções, por exemplo, estamos a fazer agora, é com as associações profissionais. A associação Aquacher, de que sou presidente, fundei com outros colegas há cinco ou seis anos, está a começar a pôr os profissionais juntos, sem estarem no ambiente profissional das suas instituições. Por isso, a área de investigação aplicada, de investigação orientada para a solução dos problemas práticos, é um assunto a que devemos encontrar uma solução.

 

Referiu-se à barragem de Corrumana como uma alternativa para o abastecimento de água na cidade de Maputo. Para quando?

A barragem de Corrumana é um projecto que envolve a colocação de comportas, que é para podermos guardar mais água. Faz-se a descarga, envolve fazer-se uma grande adutora, desde Corrumana até Maputo, passando pela Estação de Tratamento de Água, nova estação de tratamento de água. O que estava previsto era que, em finas de 2018, este projecto pudesse estar activo. Eu não sou responsável pela execução do projecto, não sei se está a andar bem ou há atraso, não tenho esse ponto de situação. Mas, em princípio, seria em finais de 2018 que poderíamos começar a ver esta obra a começar a funcionar; talvez princípios de 2019. Eu diria que temos dois anos pela frente para começarmos a ter o alívio do sistema da Corrumana.

 

E olhando para o desafio de manutenção e em termos de gestão das infra-estruturas antigas e recentes, o que é que continua a ser um calcanhar de Aquiles?

Há um assunto que nos preocupa muito. Nós aumentámos muito a rede de distribuição, mas as redes antigas, na maioria, não foram substituídas, porque é um investimento muito caro, que praticamente não produz impacto adicional, ou seja, poupa água, reduzimos perdas. Nós temos dois tipos de perdas de água, uma porque a rede antiga está em mau estado e vai perdendo água no terreno, às vezes não se nota, mas está a perder-se água. Mas também há muita água que não é contabilizada, o roubo de água, os chamados consumos não autorizados.

 

"Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo.

Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências."

 

Adelino Timóteo


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