INSÓN(H)IA

São duas horas, a madrugada ainda é incógnita, e eu ainda estou acordado, pese embora sinta um cansaço descomunal nas minhas entranhas, as mãos invisíveis do sono não me alcançam, nem o seu imperceptível olhar me observa, por isso, continuo aberto em espasmos acres opondo-me ao sono. E tenho uma vaga sensação que algures dentro de mim acontece uma revolta militar, sinto como se todo o exército moçambicano estivesse no âmago de mim mesmo e a manifestar-se em repúdio à banalização que se faz da vida em Cabo Delgado. Tento esquecer-me de tudo isso, até de mim mesmo, estender-me por dentro, fechar os olhos e sonhar, mas nada disso me é possível, continuo de olhos postos ao vão, engasgado no interior dessa noite longínqua.

Insisto, todavia, e chego a fechar os olhos, porém, sempre que isso acontece surge um zumbindo, lá no fundo, no epicentro do meu ser e vai-se realizando em mim, um hediondo silêncio que estrondosamente me assalta o imo, dispara contra a minha tranquilidade e vai decepando em partes insignificantes as minhas vontades de sonhar. Oiço que nem cães latem na rua a frente à minha casa. Tento levar os meus pensamentos a um esconderijo, um recanto que esteja mais longe dessa insónia, como quem quer escapulir-se da guerra, fugir de uma realidade fatal, mas sem para onde ir, imobilizo-me dentro de mim.   

Saio da cama e vou à casa de banho, como se tivesse alguma coisa importante para lá fazer, apenas levo o meu atordoado rosto ao espelho, vejo essa imagem que me aborrece, um rosto que se fecha ao sono. Vou à sala de estar, vejo a tevê desligada, como sempre está este inutensílio. Abro as pálpebras da janela, essa cortina branca, tenho acesso à rua. O silêncio é vasto e fulminante, não vislumbro absolutamente nada além do monstruoso vazio, nem os marginais nem mesmos bêbados que em tempos não tão distantes eram tão abundantes e juntos desmontávamos o silêncio da minha rua a essa hora do dia.

Sinto-me cansado dessa lucidez obrigatória e vejo que não há bêbados nesses dias de tédio a embriagarem a cidade toda, apenas um mahindra que de vez em vez cruza os trilhos, que até rola na minha rua, com homens uniformizados e enfeitados à pólvora, como se nessas ruas acontecesse a verdadeira guerra, a que mata e está a matar continuamente o futuro desse país. Ponho-me a pensar onde se meteram os cães, os marginas, os bêbados, todos os vadios, que faziam da minha rua um abrigo, nessa pandémica altura em que as casas foram transformadas em refúgios. “Julgo que um dia teremos de descolonizar o mahindra, como outrora disse Albino Magaia ao Land Rover.”

De volta ao quarto, fixo meu olhar nas paredes dessa construção colonial, abro o telemóvel, mas as redes sociais já me aborrecem de antemão o que dizer delas nessa hora tão aborrecida, desligo-o. Tento reflectir sobre a essência da vida, mas que essência tem a vida nesse severo enclaustramento que a própria vida se encontra?, eu quero apenas fechar os olhos, estender-me dentro de mim e sonhar.

Entretanto, há uma enorme vontade que me enche de futuros, ansioso procuro nesse porvir a solução para o presente dessa noite, “que noite, oh meu Deus”. Eu que sempre pensei saber dos mistérios da noite, surpreendo-me ao ouvir dizer que o tempo, esse professor que me ensinara com mestria, afinal o certificado que tanto exibia era falso e falsificado, que fazer então com este diploma de insónias que trago na âmago da esperança? E quantos professores existem, nessa vastidão de desenrascados, com certificados falsos? Por isso, eu quero apenas fechar os olhos, estender-me dentro de mim e sonhar.

Enfim, sinto-me a síntese da insonolência do mundo. Sinto mais isso a olhar à Lolita, inanimada, mais para lá que aqui, mergulhada dentro dela, sonolenta, com um aspecto de fazer inveja aos deuses. E eu continuo vegetativo adejando essa vontade que vejo ser abundante nela, e se o sono fosse um vírus altamente contagioso, um desse vírus com raízes orientais, talvez estaria eu, a essas horas do dia, estendido dentro de mim, a respirar por meio de ventiladores, mas não, apenas assisto a Loly dormindo unilateralmente como uma pedra com origem nos montes Namúli, sem sentimentos e aflições de alma, e nem do dia que provavelmente amanhã retorna. 

Volto a mim, e agora Japone? Retiro do travesseiro um livro, o do Fernando esse Pessoa que muito adoro ler, tento curar a minha insónia com esse desassossego que ele me propõe. Leio, releio e volto a ler. Entretenho-me nessa leitura animada e cheia de mim, é como se o Fernando escrevesse sobre minha pessoa. Por algum momento pestanejo, oiço o cântico do galo da zona, essa ave mantida em cativeiro no terraço da vizinha, essa mulher gorda que não aceita uma vida urbanamente vazia. Mas como disse, eu quero apenas fechar os olhos, estender-me dentro de mim e sonhar.

“Já são seis horas, não vais ao serviço?” Diz-me a Loly. Acordo ainda cheio de sono, e quase que me ia-me esquecendo que certos chefes mandaram fuder o Estado de Emergência, e eu trabalho normalmente sem a bendita rotatividade prevista pelo decreto, como certas repartições do Estado que ainda pensam em festas e outros espalhafatosos convívios. É hora de sair de casa, por mais que eu queira apenas fechar os olhos, estender-me dentro de mim e sonhar, tenho de ir ao serviço, talvez seja a falta de pão o motivo pelo qual não me faz apanhar sono. Ora bolas.


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