Irmão Mbalua – O "desculupado" de Lugela

Há muito que se discute sobre a qualidade da música moçambicana, mas não há memória de uma, em particular, que tenha levantado tamanha poeira crítica, extravasando a barreira artística, indo desaguar nas entrelinhas da Política, Educação e Cultura (no sentido de vivências de um povo). Quis o destino que o Irmão Mbalua, até então um ilustre desconhecido, fosse a testa de ferro dessa inusitada experiência.

O debate em torno do "Culupado" assenta-se, essencialmente, sobre quatro (4) pilares, a saber: (i) o nível linguístico do autor, (ii) a qualidade do videoclipe, (iii) a mensagem, e (iv) a proposta de regravação. Onde residem os pontos de força e de fraqueza do jovem Mbalua, e em que medida os mesmos definem o sucesso ou o insucesso da sua música? Quais os critérios de definição do belo e do estético de uma obra artística, e a quem compete a avaliação dessa padronização?

Vamos aos pontos de cada "i". Uma ligeira pausa para olharmos para o palco geográfico da singular inspiração. O pé sobre a areia dá-nos a certeza de que estamos na terra onde Judas perdeu as botas. No Moçambique real, em cada província, encontramos muitos lugares assim, mais distantes da cidade capital do que esta dista da Europa, das Américas e da Ásia de luxo. Assim é Lugela, um pacato distrito, na central província da Zambézia. É tão humilde esse lugar, que até ao censo populacional de 1997 não tinha uma única casa com corrente eléctrica ou água canalizada, e 81% da sua população era analfabeta. Mas essas são contas doutro rosário. O melhor mesmo que temos a fazer é mergulhar as mãos nas labaredas do debate.

(i) A expressividade linguística patente no "Culupado" caracteriza, ao pé da letra, o sotaque típico do povo daquela parcela do país. Com mais escola, ou menos, a intensidade da pronúncia pode flutuar por alguns picos, todavia sempre equilibrada sobre a linha da identidade, que, de resto, existe em cada canto do vasto país, não havendo uma sequer que seja melhor ou pior que qualquer outra. É este mosaico cultural que nos faz unidos na diversidade, e nos enriquece. Neste prisma, o grau de escolaridade do jovem Mbalua não vem ao caso. E não é de esperar que Lugela tenha uma escola secundária em cada esquina, e que todo o encarregado esteja suficientemente orientado a pôr o filho a estudar, em vez de pô-lo a caçar ou pescar.

(ii) Da qualidade dos videoclipes ressaltam, indubitavelmente, as maiores desigualdades entre os autores, músicos, queira-se entender. Nada digno de suscitar a classificação do ser artista, pois trata-se de uma particularidade à margem do talento deste.

Em “Culupado” vemos uma malta simples, uma modelo que não precisou de nudez ou roupa cara, e tampouco entregou sua face ao berbequim da maquiagem. A rua é aquela, daquele jeito original. É uma passarela que bem podia ser diferente, além de continuamente velha. O povo por aqui passa descontraído, apesar de curvado sobre o peso de promessas que periodicamente chovem. Por que teriam que esconder aquela realidade? Por que diabos se devia levar ao mundo uma mentira de desenvolvimento social? A arte genuína está cumprida, tanto no cenário, quanto na qualidade da película, que não podia ser outra, se falamos de Lugela, se falamos de uma produção independente, de jovens apenas movidos pela ousadia.

(iii) O pano de fundo do "Culupado" é uma questão muito além de musical. É um fenómeno alicerçado nas entranhas de todo um povo, de toda uma África. É certo que graças à globalização, e sob sua janela, o multiculturalismo, uma corrente, agora não tão nova assim, vem-se fortalecendo no seio da sociedade moçambicana, arrastando consigo alguns entendidos, e também uma legião de fanáticos, agitando uma ordem social milenar: o feminismo. Não constitui, o estudo do tal movimento, propósito deste artigo, pelo que não ensaiaremos qualquer perdição nessa perigosa floresta. O ponto aqui é a responsabilidade instituída na nossa sociedade, que define o ser homem de uma mulher e o ser mulher de um homem. Desse apanágio, isso está mais transparente que o vento, o homem é o garante, para sua mulher e sua família, de tudo aquilo que o dinheiro possa comprar. Nesse particular, imbuído do valor que a verdadeira arte confere, fotografar e apresentar o cenário tal como é, em "Culupado", o Irmão Mbalua cumpre tão bem o seu papel.

Mas a música fala de um homem namorado e não marido – talvez sobressaia essa inquietação. Uma vez mais, estamos falando de uma comunidade campestre, onde os conceitos podem ganhar latitudes diferentes, em relação a outros círculos populacionais, no caso, as grandes cidades. Pode-se estar a falar de uma relação conjugal que ultrapasse a dimensão de um namoro simples, assumindo, o parceiro, o papel de responsável e provedor da sua parcela. E fecho esse ponto sem a mínima necessidade de trazer à colação a infinidade de músicas nacionais alinhadas na mensagem do “Culupado”, mas que, e pelo mesmo povo, foram e são tratadas como bichos de pelúcia, tão fofas e tão macias.

(iv) Tanta tinta sobre os "is", desafortunada, quanto indecorosa, só podia desaguar no mar de um desejo artisticamente doente. Por que regravar uma música que já é um sucesso? Diz-se que um gabinetista assim pensou. O importante mesmo a se fazer é traçar uma política cultural credível e funcional, que vá ao encontro dos milhares de jovens pacatos e anónimos, que noite e dia não param de "phandar" por um estúdio, até que se borram nas calças, com rascunhos das suas letras, das suas telas, das suas peças... Era urgente para ontem, uma simples casa de cultura em cada sede distrital, com condições básicas para o desenvolvimento das artes. Afinal, existem noventa e nove fracassos e desilusões para cada Irmão Mbalua, que, milagrosamente, pula da vala comum artística e rema no vento até Maputo.

Uma música que "bate" é como uma equipa que ganha: nelas não se mexe... não se devia mexer, pelo menos, enquanto durar a febre. Tudo está certo na canção que faz a alma vibrar: o sotaque, o ritmo, a palidez social do autor,..., até mesmo a poeira sonora trazida pelo vento da gravação. A espontaneidade, a naturalidade e, sobretudo, o incomum, que perfazem o menu do "Culupado", são a chave do belo que a arte representa.

Pode o debate continuar! Está doce, apesar de tendencioso. Não irei chamar as tendências pelos seus nomes, livre-me Deus desse pleonasmo. Está despido o véu, e não pode ver somente quem não queira. No fim de tudo isso, que sobreviva a nossa arte. E que mais heróis, de sonhos e determinação em punho, consigam nadar contra a maré da moda, e se façam à costa da fama e, quiçá, do sucesso. Venham eles de qualquer Lugela do vasto país. De qualquer canto perdido no mapa, pode-se vencer.

Mais não disse!


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