Joaquina Siquice

Joaquina Siquice - lembram-se deste nome ínclito da Companhia Nacional de Canto e Dança?  A amnésia ou a displicência são, entre nós, práticas indissimuláveis. Para não falar da memória, que é um prontuário intransitável. Está sempre ao serviço do interesse estabelecido – ou do que se infere estar estabelecido - e não do interesse comum. É usual dizer-se, não raro, que não temos referências. Como não? Não as temos ou não queremos saber delas? Temos nomes e obras decisivas e importantes para aludir. Não as praticamos. Falo do campo da cultura, onde sou propenso a quezílias. Não me refiro a outros domínios, nos quais sou inábil e incompetente e dos quais não sei discernir. Concedo, no entanto, que a chamada agenda setting (uma teoria no âmbito da comunicação que estuda a configuração da agenda noticiosa) é hoje dominada pelo diferendo político e pela espectacularização da sociedade. A cultura foi elidida do espaço público mediático. 

No campo da dança há muitos nomes que são aludíveis, mas Joaquina Siquice permanece, indubitavelmente, como o mais estimulante e espantoso de todos quantos inscreveram, nos arautos desta disciplina singular, os seus nomes. Joaquina combinava uma sedutora simplicidade a uma exímia capacidade de ser verdadeira no palco. Martha Grahan, um mito indubitável da dança, disse uma vez: “Movement never lies” (O movimento nunca mente). Era isto Joaquina Siquice no palco. O esplendor da verdade. Ela tinha uma empatia extraordinária com a plateia e dançava como quem levita no palco, com uma estética apurada e com uma modéstia absolutamente irresistível. 

Foi vasto o repertório de danças originárias de Moçambique que Joaquina praticou: Nonge, Makwaela, Wadjaba, Spe, Sope, Tufo, Xigubo, entre outras tantas, na vastidão e diversidade da nossa cultura e nacionalidade. Tenho a lembrança de um bailado marcante: As Mãos. Concitou públicos entusiasmados, aqui no país e lá fora. No Brasil, alvoroçou plateias, que se levantavam das cadeiras e dançavam com os bailarinos moçambicanos. Depois, encenaram Ntsay. A dança do amor. Quando Joaquina dançava semba - como se dança na Beira, onde ela viveu aliás -, a dança do amor, com sua beleza e sensualidade, era verdadeiramente indescritível. Para além da dança, Joaquina praticou outra arte maior: o teatro. Subiu ao palco para fazer a peça Hlomulo no mítico grupo dos CFM e Karingana ua Karingana no célebre Txova Xita Duma: “A dança”, asseverava, “tem muito de teatro. Nós só utilizamos o corpo. No teatro há a expressão corporal e a voz. Essa é a diferença. Mas gostei de fazer teatro. Foi uma boa experiência”. Por falar de voz, acrescente-se-lhe o canto. Ela cantava. 

Fui repórter - não sei se ainda se usa este belo vocábulo – e coube-me um dia ir entrevistá-la. Intentávamos naquele tempo fazer jornalismo cultural. Recordo-me daquele dia, em que fui visitá-la a casa, com uma estranha nitidez. Não tenho uma memória prodigiosa, mas o choque que experimentei ao conhecer as condições inaceitáveis em que vivia a mais importante bailarina moçambicana de então – para mim a mais importante bailarina moçambicana de sempre - foi muito grande. Joaquina vivia numa dependência. Sinto pudor em redigir esta palavra. Como era possível? Eu estava indignado. Lembro-me da elegância e da nobreza – nobre era ela e não o espaço – com que, não obstante a tristeza, vivia ali. 

Redigi então esta prosa juvenil e apaixonada: ‘’À entrada, divisava-se uma ampla vivenda, o portão abria-se para um imenso quintal. Um cão vigiava-me enquanto ela me conduzia com aquele belo e melancólico sorriso. Ela não vivia na imensa e hierática casa, mas sim na sua dependência. Estivera naquele dia a fazer crochet e arrumou os seus artefactos. Em redor do espaço precário e minúsculo, jornais, revistas, fotografias, cartazes, sofás adornados, um fogão aceso. Tudo isto num compartimento onde a sala e a cozinha conviviam num espaço minúsculo, mas harmonioso. Um lugar, não obstante, tratado com esmero e beleza. Aquela bela bailarina vivia, apesar da sua condição social, com estética. Com ética. Com dignidade. Observei-a antes de iniciarmos a conversa, enquanto ela se movia naquele espaço exíguo. Ela, uma mulher bela e encantadora, com o olhar triste e profundo, sorria. Lá fora, as crianças brincavam alvoroçadas no final daquele dia.”  

Falámos mansamente naquele dia. Iniciámos a conversa pela infância. Eu queria cartografar o fascínio da dança na vida de Joaquina. Quando perguntei se a infância teria sido determinante para o futuro como bailarina, ela escudou-se naquela sua proverbial modéstia: “Não sei”, começou por dizer-me, sorrindo, com um belo sorriso desprendendo-se dos seus lábios. Mas assentiu de certo modo: “Sempre gostei de dançar, porém, nunca pensei que mais tarde seria a minha profissão”. Falámos dos pais. Da mãe tinha desde sempre o incondicional apoio. O pai tergiversara no início. Acabou como incondicional. Tinham orgulho da filha. Falámos do breve casamento e da passagem pela Beira, onde fundara um grupo de dança. Não falámos de Inhambane, de onde era oriunda, e de onde viera em 1978 para estudar com o intuito de lá regressar, o que não haveria de suceder. 

“Joaquina, como é que a sociedade olha para si?” –  quis saber. Não escondeu o desapontamento pelo facto de a cultura não ocupar o lugar e o prestígio devidos na nossa sociedade e vituperou, por assim dizer, e sem estardalhaço, os ignorantes e incultos que desprezavam o seu trabalho e ela própria. Mas sublinhou que havia aqueles que sabiam o valor da dança e que a respeitavam como tal. E a condição social do artista? “É muito delicado.” Com as mãos fez um gesto irrefutável: “É só ver as condições em que estou e não esquecer que sou a primeira bailarina de Moçambique. Mas ainda eu tenho sorte, tenho colegas que...” A frase cortou-se no gume do silêncio. Os olhos marejados. Um sorriso disfarçando o embaraço. E eu que não saberia o que replicar, sorri também, aquiescendo. “Compreendo que há sectores que precisam de mais apoio do que a cultura. Mas é preciso valorizar o nosso trabalho!” – afirmou. 

Passado um ano daquele encontro, em Agosto de 1990, fui entrevistar o Ministro da Cultura, o escritor Luís Bernardo Honwana, para um projecto intitulado Os Habitantes da Memória. Uma das questões que eu tinha para lhe pôr: a questão da situação social dos fazedores da cultura: “Falemos da situação social dos que fazem cultura. Fany Mpfumo, o símbolo da nossa música, teve o destino trágico de uma morte miserável; a primeira bailarina deste país – Joaquina Siquice – vive numa barraca; não se reconhecem os valores que nós temos, por exemplo, o poeta José Craveirinha. Como é que explica esta situação o Ministro da Cultura? Por que é que não são valorizados os artistas moçambicanos?”

Luís Bernardo Honwana deu-me uma longa, inteligente e prudente resposta. Estávamos no meio de uma conversa politicamente sensível. Um território movediço. Cito a última parte da sua resposta: “Mas, insisto, o valor social destes artistas não pode ser unicamente decretado pelas benesses que a sociedade cria, pelo seu conforto ou desafogo material. Talvez tenhamos de chamar aqui outras bitolas e, efectivamente, Moçambique valoriza os seus artistas, aí eu tenho a certeza e penso que alguma coisa se há-de ter feito para que, efectivamente, seja assim.”

A esta distância, penso que, sim, de facto, estamos muito longe de uma sociedade que se reveja nos seus artistas. Isso, por um lado. Por outro lado, não há escala nem estrutura industrial capaz de produzir retorno que crie sustentabilidade aos artistas. Aliado a isso, uma incapacidade de pensar e estruturar políticas públicas na área da cultura que possam mitigar este estágio e permitir o real desenvolvimento do campo cultural. A cultura não faz parte do pensamento estruturante do país – admitindo que este existe. Estou de acordo com os que dizem que não compete ao Estado distribuir benesses aos artistas. Não é isso que está em causa quando se fala da valorização da cultura e dos criadores. Compete, sim, ao Estado criar condições de possibilidade para que os criadores tenham uma existência que não seja a repetição sistemática ou a reprodução de uma condição social precária e desprestigiante, indigna e ignóbil. O Estado tem um papel do qual não se pode eximir. Parte do qual está na educação. Só um país educado pode querer amar os seus artistas, adquirindo as suas obras, fruindo da sua arte, reconhecendo-se na sua singularidade e projectando-se na sua inventiva. Ao Estado também se impõe um papel na defesa e promoção do património cultural, entre outras funções que lhe são indeclináveis. A sociedade civil também tem um papel importante a cumprir. Tal como o jornalismo tem as suas obrigações. Um jornalismo esclarecido - o jornalismo cultural, o jornalismo não capturado pelo imediatismo e a espectacularidade da política e da sociedade – são indispensáveis para a criação de uma massa crítica consumidora da cultura e da arte, essencial à sua existência e prosperidade. O campo da recensão e da crítica, o domínio de reflexão académica ou de outra natureza, essenciais para a contextualização e formação de um público educado, exigente e comprometido. 

Retorno à Joaquina. Falámos, depois, da indignidade a que estavam votados muitos dos reputados artistas moçambicanos. Indignados com o infortúnio de muitos deles, de quase todos. Depois, ambos, ficámos em silêncio. Observei-a naquele instante e divisei nos seus olhos, vermelhos, profundamente melancólicos, a beleza incrível da mulher que me recebia naquela tarde, uma exímia e alegre bailarina no palco, que se transfigurava verdadeiramente, mas ali, parecia acanhada, entristecida, abalada. A conversa estava praticamente vencida pelo desânimo. Disse-lhe eu então: “Os artistas, Joaquina, em todo o mundo, continuam a comer na cozinha do Rei”. Uma metáfora, evidentemente. E ela: “É isso!” E rimo-nos, penso eu, à distância destes larguíssimos anos, para não chorarmos no ombro um do outro. Repetiu-me ela: “É muito delicado falar sobre este assunto”. 

Um ano depois daquele encontro parti para estudar fora, esgotado com a falta de futuro – não obstante a esperança que Roma representava e que iria desaguar em 92 no acordo de paz – e expectante em viver outras experiências e aventuras intelectuais. Não soube mais dela. Anos mais tarde, teria notícias de que emigrara para a Alemanha, onde prosseguiu a arte de cantar. Tem um CD Karingana e há notícias que se encontram facilmente no Google sobre ela. Não a vejo seguramente há mais de duas décadas, mas recordo a sua elegância, a sua destreza, o seu hieratismo, a sua invulgar competência e a inventiva no palco. Recordo-me dela sempre bela e tímida no contacto pessoal, mas exuberante e fascinante quando representava e se transfigurava verdadeiramente nas personagens que interpretava. Disse-o e aqui repito: ela é a mais importante bailarina que este país alguma vez conheceu. Um nome esquecido, ignorado, tergiversado. Como tantos outros. Recordo-a aqui com emoção e faço-lhe este modesto reconhecimento. Nunca deixei de amar aquela exímia, esplendorosa e espantosa bailarina, que me encantou sem remissão possível ao longo de muitos dos anos em que a vi dançar – Joaquina Siquice. 


 


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