“Jogo de intrigas” – a mão e a palmatória

“Jogo de intrigas” – a mão e a palmatória

Confusão é uma palavra que inventamos para descrever uma ordem que não compreendemos

Henry Miller

Confusão é a palavra que, logo à partida, serve para caracterizar a família Nhaligagane, na nova peça da Companhia de Teatro Gungu: “Jogo de intrigas”, na qual se levantam vários problemas misturados relacionados com à actualidade moçambicana, como os desvios de fundo do sector público, a intolerância social, as burlas, os lobbies e a urgência em conseguir-se boa vida com pouco trabalho. Então, mais do que uma família, Nhaligagane é um país em fragmaneto, pintado a preto e branco com todas as rugas e vaidades. Eventualmente, por essa razão, mais uma vez, na peça do Gungu a corrupção não só é um tema recorrente como aparece com destaque, mostrando-se que directa ou indirectamente aquela mazela social afecta-nos a todos.

À medida que a estória do “Jogo de intrigas” ganha relevo, a peça permite que se obtenha, digamos, a personalidade de cada personagem. A partir daí, o expectador começa a relacionar as personagens com pessoas que conhece, pois as feições, as artimanhas, as necessidades e os vícios são propositadamente retratados com esse propósito. Assim, as magaivices de um Vítor (Gilberto Mendes), um gigolô que não se cansa da vida fácil de que se beneficia na casa dos sogros, onde vive, constituem modelos sociais de uma juventude carente de boladas como quem vem nisso o auge da dignidade humana. Aliás, Vítor é a personificação de um Homem egocentrista, capaz de virar as costas a tudo – à família, à moral e ao sentimento pela esposa – em troca de uma satisfação banal: a sensação de grandeza que, paradoxalmente, se confunde com fraqueza.

Cada personagem de “Jogo de intrigas” foi dada voz para com pretensão de construir uma imagem verosímil, tão perto da realidade que chega a parecer-se connosco próprios ou com quem está ao nosso lado. Sandra (Beatriz Munguambe) é um exemplo concreto, no caso, dessas mulheres que por almejarem prender o marido a todo custo não vêem constrangimentos em oferecê-lo uma viatura estatal ou em atropelar os preceitos de uma tradição machista, permitindo que ela e os pais alimentem o marido, quase trocando-lhe as cuecas. Nesse universo de “Jogo de intrigas” há ainda a destacar uma velha rabugenta e ninfomaníaca: Filomena, maravilhosamente bem encarnada por Juanet Rombe, do ponto de vista vocal, das carectas, da postura física e dos movimentos. Naquela personagem entendeu-se tudo: de que as sogras muitas vezes se esquecem de ter sido jovens algum dia e que, elas próprias, também cometeram erros típicos da idade. No entanto, ao contrário da casmurrice das sogras reais, na peça, Filomena aprende a perdoar, quando descobre que a nora, Julinha, engravidou num adultério 10 anos depois de tentar dar um filho ao marido infértil, Titos (Eduardo Gravata) – Emelda Macamo desempenha a um nível alto esse papel de nora inconsequente.

Todo este jogo é feito para configurar um sarcasmo em relação à podridão dos comportamentos que congestionam as avenidas de sujidade. Tudo de desastroso que a peça possui deve-se mais à facilidade que as personagens têm em falhar e menos à capacidade delas corrigirem os erros.  

Esta é uma peça que se centra muito no indivíduo, nas suas acções, pretensões, de modo que disso retire consequências não poucas vezes com efeitos colaterais. Fazendo de cada personagem um universo, a peça encenada por Gilberto Mendes activa em nós quase sempre as atitudes mais negativas para no fim tentar sugerir um carácter exemplar. Também por isso, “Jogo de intrigas” é uma palmatória – que nos obriga a ser mão – que castiga e educa, com responsabilização.

Título: “Jogo de intrigas”

Autor: Gungu

Teatro

Classificação: 13


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