Jornalismo cultural ou artístico? A proposta de um diálogo

A ideologia não é uma religião. A ideologia é uma ideia lógica, que pode ser derrubada, quando estiver errada

José Luis Zapatero

 

Para esta semana, propus-me partilhar, neste espaço, uma leitura à obra Os crimes montanhosos, da autoria de António Cabrita e Mbate Pedro. Na verdade, até pensei em escrever um artigo em duas partes, uma dedicada a cada autor. No entanto, eis que, com muita satisfação, participo no segundo Seminário de Jornalismo Cultural, programa organizado pela Soarte Media e Associação IVERCA, e que termina esta quarta-feira, no Camões. Logo no primeiro dia do Seminário, chamou-me atenção a discussão sobre jornalismo cultural, no painel subordinado “Media e cultura: caminhos para desenvolvimento e maior cidadania”, e, sobretudo, a intervenção do meu camarada Júlio Manjate, quem defendeu que o jornalista cultural deve ir além de cobrir eventos como espectáculos ou lançamentos de livros. Para o Director do Notícias, cobrir essas cerimónias é bom, mas é preciso que se faça mais, por exemplo, desbravar hábitos e costumes ligados à tradição, como é o caso da circuncisão. Nesse momento, ocorreu-me uma pergunta, lembro-me de cor: será que o jornalismo confiado à área cultural não cumpre o seu dever na íntegra ou os termos “jornalismo cultural” é que não se adequam à nossa realidade? Manjate respondeu como pôde, de acordo com a sua longa experiência e convicções. Mas não satisfez à minha vontade de aprender, por isso, volto à carga para um diálogo mais abrangente, com ele e com todos interessados no assunto.

Sempre fui céptico em relação aos termos “jornalismo/ jornalista cultural”. De há uns anos para cá, vou-me convencendo a cada dia que falar de jornalismo cultural, no país, é uma fraude. Na minha percepção, temos, sim, um jornalismo artístico, esse que, bem ou mal, cobre eventos de arte. Bem dito, parece-me haver uma tentativa de reduzir a cultura às artes, ou seja, muitas vezes chamamos cultura às manifestações que cabem neste campo, o que me parece grave, pois, por isso, exigimos ao jornalista que faça o que, na verdade, se calhar, nem é a orientação que tem ou que se pretende.

Se assumirmos que a cultura é um conjunto de património que envolve Desporto, Sociedade ou mesmo Política – algumas editorias dos jornais –, e não apenas artes, então o jornalismo cultural é feito a vários níveis diariamente. Mas não me parece que seja este o assunto em causa. Logo, estamos a discutir o quê, afinal? O que pretendemos, quando exigimos da media um bom jornalismo cultural?

Não poucas vezes, os maiores críticos do profissional que apelidamos “jornalista cultural” são os artistas. Os argumentos que eles trazem, amiúde, têm que ver com a fraca cobertura dos eventos artísticos. De facto, isto é aborrecido para os que enlevam a cultura por via da arte. Eu entendo-lhes e aceito que há muitas batalhas por vencer até erguermos uma indústria artística forte. O que repudio é essa tentativa de se colocar toda culpa atinente à fraca divulgação/ cobertura dos assuntos artísticos aos jornalistas. Se o nosso teatro está fraco, em termos de visibilidade, por exemplo, não é responsabilidade da media. Se o nosso teatro está fraco em termos de projecção interna deve-se a alguma coisa que os actores, encenadores e etc. não conseguem fazer, que Gilberto Mendes consegue. Atenção: não estou a sugerir que todos os grupos façam um teatro à moda Gungu. Nada disso. Até seria terrível. Diria apenas que os grupos devem fazer muito mais para se imporem sem pieguices. Não digo isso porque estou consciente das dificuldades que lhes afectam, tal como estou consciente do que restringe a cobertura de eventos artísticos a um alto nível (temos de falar destes boicotes). Melhor dizendo, do mesmo jeito que os artistas que tanto criticam os jornalistas têm dificuldades (por exemplo, de lançar um livro), estes também têm. E não são poucas. Para começar, as redacções que conheço não têm jornalistas culturais, na prática, mas jornalistas, que podem cobrir escultura, cinema, literatura, futebol, basquetebol, discussões na Assembleia da República ou um acidente. Tudo depende de prioridades e penso que devemos aprender a lidar com isso sem que nos aborrece. As redacções não estão obrigadas a ter as mesmas prioridades que os artistas e nem o inverso.

Melita Matsinhe, à imagem de muitos, no painel subordinado ao tema “Conteúdos de arte na mídia: estética vs recepção”, no Seminário de Jornalismo Cultural, condenou e bem o facto de muitos jornalistas “chaparem” nos jornais tal e qual o comunicado de imprensa que recebem. Há quem chama isso de preguiça. Aliás, a quem chama ao facto de se publicar um comunicado de imprensa no jornal um acto de preguiça, ainda que o jornalista reescreva. E se eu acrescentasse: é um acto de cansaço? Pensemos num jornalista que cobriu um incêndio logo cedo, depois, à tarde, um acidente, e, no fim do dia, um briefing da polícia. Deve ser condenado se, almejando divulgar um evento, já exausto, apenas insira na sua página o comunicado de imprensa sem contactar os artistas? Se o jornalista em causa, exausto, nem publicar esse comunicado, será menos criticado por isso? O que mais vale para o artista, é o comunicado divulgado ou é o texto bonito que fica por sair?

Antes de condenarmos os jornais ou os “jornalistas culturais” devemos nos preocupar com um problema maior. Primeiro, devemos aprender a fazer este tipo de pergunta: que tipo de jornalistas artísticos (e se for cultural também podemos dizer) precisamos? Segundo, como fazemos para os ter? Temos, nas diferentes instituições de ensino, a formação de “jornalistas culturais”? É necessário ter?  Qual é a base do problema, afinal?

Como disse uma vez, antes de uns e outros atirarem-se pedras, devem aproximar-se e discutir o problema com debate sério. E o ponto de partida até pode ser com pergunta: como podemos, juntos, reverter o cenário que nos abala? O Seminário de Jornalismo Cultural é um princípio, mas não será suficiente se de lá não saírem ecos. A discussão deve continuar fora, e é preciso envolvermos escolas de jornalismo e aqueles que na Tempo, n’O País Fim-de-semana ou no Notícias conseguiram contornar todas as dificuldades e marcaram épocas. Um eterno reconhecimento a Albino Magaia, Luís Carlos Patraquim, Calane da Silva, Gulamo Khan, Mia Couto, Nelson Saúte, Marcelo Panguana e tantos outros.

Devemos envolver mais pessoas, permanentemente, nesta discussão, de peito aberto; devemos continuar a produzir arte até que o Ministério da Cultura deixe de ser apenas uma instituição política, para passar a ser o pilar das manifestações artísticas do país; devemos continuar a produzir mais pessoas cultas, amantes das artes. Se a Gazeta de Artes e Letras da Tempo foi o que foi, em grande parte, deveu-se ao facto de os artistas terem-se apropriado da revista, com mérito, talento, paixão e pujança, inclusive, como jornalistas. Nós, os artistas de hoje, estamos a fazer o mesmo? Ou confiamos a função a qualquer Remédios que nos aparece pela frente? Se eles não conseguem fazer o que gostaríamos que fizessem, então que sejamos nós próprios a fazer o que deve ser feito.


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