Lázaro Ramos e Sérgio Raimundo consideram a literatura vital na compreensão do mundo

Lázaro Ramos e Sérgio Raimundo consideram a literatura vital na compreensão do mundo

O actor e escritor brasileiro, Lázaro Ramos, debateu, hoje, com o escritor moçambicano Sérgio Raimundo. Numa das sessões da terceira edição do MOZEFO Young Leaders da FUNDASO, os artistas defenderam que a literatura, além de arte, é essencial e permite que os leitores se posicionem em relação aos eventos do mundo

 

Lázaro Ramos é um dos actores brasileiros consagrados mais conhecidos em Moçambique. Além da arte de representar em telenovelas da Globo ou em diversos filmes, Ramos é escritor de livros infanto-juvenis. Essa paixão, o artista descobriu na infância. Ele sempre escreveu, entretanto, como era um menino tímido, o receio de partilhar os seus manuscritos o impediram (por algum) de partilhar os textos com os mais entendidos nas letras. “Não tinha coragem de mostrar às pessoas. Achava que não iriam gostar. Eu via uma coisa que me fazia sonhar, anotava”. E de anotação em anotação, já na juventude, o escritor revelou-se e hoje tem, no seu repertório literário, o livro Na minha pele, que promete um dia apresenta-lo em Moçambique.

Na qualidade de escritor, principalmente, Lázaro Ramos participou, esta terça-feira, numa conversa sobre o tema “Juventude, literatura e vida”, com o poeta e escritor moçambicano Sérgio Raimundo. A contar para a terceira edição do MOZEFO Young Leaders, iniciativa da Fundação SOICO (FUNDASO), a cavaqueira com 50 minutos de duração permitiu ao brasileiro contar e explicar por que acredita na literatura.

Segundo afirmou Lázaro Ramos, a arte literária é um pretexto para narrar as suas e as histórias do mundo ao seu redor. Isto é, para o escritor, a escrita é uma maneira de captar e de partilhar com o seu semelhante aquilo que tem de mais forte: o conhecimento e a humanidade que isso encerra. Por isso mesmo, em sua casa, ele a esposa, a actriz Taís Araújo, igualmente muito querida em Moçambique, contribuem para que os seus dois filhos, hoje, gostem de livros. O mais velho, inclusive, já lê os seus. “Pelo menos uma vez por mês, nós sempre dizemos: filhos, podem tirar tudo da gente, mas o conhecimento é uma coisa que nunca vão tirar. Nós somos famosos, temos uma casa, mas aquilo que a gente conhece é o que vai ficar com a gente para sempre. Então eles valorizam muito o conhecimento e são essas ideias que vamos plantando nos nossos filhos. Aqui em casa, graças a Deus, e não estou querendo me exibir, a leitura é como se fosse refeição para os nossos filhos também. Ler um livro é como tomar o café da manhã”. Matabicho, entenda-se.  

Duas das grandes motivações para Lázaro Ramos escrever são os seus dois filhos. Advém daí a sua inspiração, e, como escritor, o brasileiro interessa-se no valor das pessoas e da vida, o que passa por contar histórias de superação.

Ainda no debate desta terça, Lázaro Ramos comentou sobre o estereótipo de que os jovens não lêem. “Às vezes, não damos os livros certos às pessoas. Antes de recomendar um livro, temos de saber que assuntos interessam às pessoas, para que se sintam donas dos livros”.

Na conversa, Sérgio Raimundo, que chega à literatura por influência do pai, também realçou que a sua escrita parte de uma necessidade de partilha com o outro. “A literatura, além de arte, nos permite posicionamento”. Para Raimundo, um dos problemas dos jovens é almejarem transformar o mundo sem sequer o conhecerem. “A nossa juventude é muito apegada ao materialismo. Antes da transformação social, temos de conhecer o meio, o que passa pela leitura”.

Sérgio Raimundo toma a literatura como ofício de engajamento, de revolta social. “Para mim, a palavra é acção e a escrita é um conjunto de acções, de mostrar o que somos. A escrita tem este papel”.

 

O cinema e o orgulho de Lázaro Ramos

Na conversa com Sérgio Raimundo, moderada por Anabela Adrianopoulos, o actor e escritor brasileiro partilhou sonhos e uma das coisas que o tornam homem privilegiado. “Um dos grandes orgulhos que tenho na vida é fazer parte da família do cinema brasileiro. Eu já fiz mais de 30 filmes, todos eles sobre estilos e classes sociais diferentes, de conteúdo nacional, mas que falam para todo o mundo, porque falam com paixão sobre o seu lugar. Um dos meus sonhos é que nós consigamos fazer com que esses filmes e os que são produzidos nos países de língua portuguesa circulem. Eu vivi uma experiência que foi muito bonita no filme O grande kilapy, com actores moçambicanos, angolanos, cabo-verdianos e brasileiros, com diferentes sotaques. Foi uma iniciativa linda, um caminho de aproximação. Acho que seria importantíssimo pensarmos nisso, inclusive. Fazer com que os filmes circulem para a gente se conhecer mais e encontrar novos formatos da nossa relação através da cultura e, ao mesmo tempo, criar projectos que englobem esses talentos todos que temos nos países de língua portuguesa”.

Outra experiência cinematográfica que deixou muito feliz a Lázaro Ramos, nessa vertente aproximação cultural, foi com o filme O vendedor de passados, adaptado do romance do angolano José Eduardo Agualusa.

Já mais para o fim do debate, o brasileiro deixou uma recomendação: “O grande desafio que a gente tem no mundo é o de convivermos com as nossas vozes, termos a capacidade de nos escutarmos”.

 

 


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