Ler & Escrever

Marcelo Panguana
Conversas do Fim do Mundo
Alcance Editores, 2012
Os Peregrinos da Palavra
Alcance Editores, 2017

 

Ler não é necessariamente uma actividade que só nos liga ao presente. Quando leio posso recuar uns séculos, deslocar-me geograficamente, inventar novas temporalidades; enquanto exercício que irei desenvolver nesta página nem sempre as minhas escolhas serão as mais actuais. Poderei cruzar leituras de diferentes livros, optando por cismar em algum tema que me provoque ou na notação singular de obras (des)arrumadas na estante.

Há muitas maneiras de ler, aquela que nos faz meditar preguiçosamente, a que exige quase por compulsão o exercício da escrita, a que nos faz dormitar, ou aquela outra que nos envolve de sonhos, nos intriga em evasão, nos assusta ou perturba pela novidade. A experiência da leitura é similar à de um sonhador solitário, acto pouco mundano e cada vez mais raro no mundo apressado em que vivemos. Tem algo de monástico e simultaneamente de libertino, pela clandestina privacidade que exige, pelo silêncio a que obriga, pela intemporalidade que se cria nesse solilóquio interior.

É um exercício de atenção e de dádiva, de crescimento e de desprendimento, uma viagem parada, de percursos mais longos ou mais curtos. Todo o livro se converte em criatura criadora quando o abrimos, folheamos, lemos. E pode inclusive ganhar voz pela nossa voz, se a leitura ganhar som e vocalidade. Antigamente os pais liam livros para as crianças ou contavam-lhes histórias. Por vezes no espaço da aula, o professor, que eu também sou, revê-se nesse estatuto de teatralização do livro, para captar a sua audiência. A pedagogia implícita de qualquer livro reside na arte de desencadear curiosidade como processo de prazer e de desvendamento; desvendamento de intrigas narrativas, contemplação poética, vibração interior, viagem pelo desconhecido, conhecimento(s), um livro, uma biblioteca, como diria Marcelo Panguana, pode ser uma verdadeira agência de viagens.

A voz tem qualquer coisa de mágico e é um excelente meio de sedução para levar à leitura. O leitor desabituado que ensaie a voz e faça a prática da recitação, como se de um mantra religioso se tratasse. Que descubra as vozes que o livro lhe quer trazer, as conversas, os segredos, os caminhos.

Que seja um peregrino da palavra, como o Marcelo Panguana, escritor de múltiplas facetas, excelente contista e cronista, autor de romances, literatura infantil e simultaneamente aventuroso leitor de literatura, editor de páginas e de revistas literárias e culturais. Um escritor/leitor muito atento às práticas culturais do seu país. 

Marcelo é um ser quase literário, ousamos dizer, uma personagem muito singular no quadro literário moçambicano, muito discreto no seu alto e esguio vulto, com um olhar sorridente, alguém suficientemente humilde e grande para se espantar com os outros, a quem generosamente dedica a sua escrita. Escreve e pensa com os autores que lê e que leu, vai além de si, porque pensa criticamente e faz literatura, envolvendo-se com ela como se em um constante encontro amoroso, em leitura e em prática ficcional.

Lembro aqui um importante livro de Panguana, As Conversas do Fim do Mundo (2012), que exige a nossa especial atenção; é um livro que experimenta a escrita entre a leitura, a biografia, a crónica e a ficção, num exercício de criação crítica único, uma vez que reúne reflexões diversificadas sobre bibliotecas, obras, autores, conversas, episódios, fragmentos de narrativa, atravessando o autor a rua que separa a ficção da realidade num exercício quase de fantástico; somos presos nessa aventura do leitor culto, que Panguana é, ao personagem em que se transforma, e ao memorialista que resgata as novas obras literárias e as antigas, os espaços da memória. São geografias de cultura  que ele desenha pela memória fazendo travessias da época colonial para o presente, reactivando figuras tutelares da sua aprendizagem, da biblioteca que o compõe; entre leitor e autor Panguana escreve como quem se desdobra em testemunha crítico-ficcionada.

Há algo de borgiano na forma como é construído e como se pode ler As Conversas do Fim do Mundo; a literatura e seus autores ganham vida e invadem o palco da existência, numa prática quase coloquial;  repare-se em alguns dos títulos das crónicas críticas que ligam a vida à literatura: ”No dia em que se destruiu a Torre de Babel”,” A Cidade dos Escritores”, ”Agora Ninguém Escreve Cartas”, “O autógrafo”, “ A história de Um Escritor que nunca deixou de Existir”. Cada estória/crónica/ leitura é a forma como o autor lê e reflecte sobre as obras publicadas em Moçambique, desde autores mais velhos como Aníbal Aleluia, Albino Magaia a autores mais novos como Adelino Timóteo ou  Andes Chivangue, apenas para dar alguns exemplos, exercendo um importante contributo crítico no quadro histórico-literário do país.

O entrelaçamento entre a leitura e escrita, a forma como Panguana escreve, julgo que corresponde àquilo que podemos chamar de “ensaio”; ele ensaia uma escrita crítica, personalizada tanto nos seus afectos literários de leitor, quanto nas suas evocações de vida e de memória, convocando às obras as figurações de personalidades entretanto desaparecidas, como em “Mil e Tantas Palavras ao José Pastor”, “A Voz,“A Segunda Morte do Escritor”.

Marcelo Panguana nos diz que o país está presente em cada página do seu livro - “o amor povoa todas as palavras”- e que a cultura é sua preocupação permanente nessa vontade de pensar “a história, as interrogações, as dúvidas existenciais, as conquistas, as percas, a nossa utopia individual e colectiva, (que) são o substracto comum deste livro que se inspira, sobretudo no chão da nossa terra.”

A escrita crítica que Marcelo Panguana convoca com As Conversas do Fim do Mundo, estreia uma página nova no género “ensaio”, que combina a crónica com a leitura, intertextualizando-a. Um contributo indispensável para uma história literária moçambicana.

Este gosto pelo que os seus conterrâneos escrevem, pela história literária e cultural do país, é reinventada no livro Os Peregrinos da Palavra (2017), onde reúne quinze entrevistas a diversos escritores e uma cineasta. Começa com uma mulher emblemática, Paulina Chiziane, a quem questiona, entre muitos tópicos, a existência de uma escrita feminina; termina com outra figura das letras femininas moçambicanas, a “filha de Muhipiti”, Lília Momplé, e no meio surge uma longa e reveladora entrevista com Isabel de Noronha, figura incontornável do cinema moçambicano, realizadora do docuficção biográfico sobre Malangatana Valente, entre outras obras de relevo.

Marcelo Panguana foi recolhendo depoimentos, conversas, que têm cronologias diferentes, mas permitem trazer da sombra, testemunhos sobre Charrua, Diálogo, Xiphefo, sobre o nascimento do cinema moçambicano, entre vários outros significantes acontecimentos na vida literária, enquadrada nos acontecimentos da história do país. Entrevista jornalistas, professores, escritores, poetas, e assim falamos com Filimone Meigos, Suleimane Cassamo, Ungulani Ba Ka Khosa, Nataniel Ngomane, Juvenal Bucuane, Calane da Silva, Eduardo White, Aníbal Aleluia.... falamos/ ouvimos alguns que já desapareceram da cena literária, mas não dos livros, nem da memória, que é necessário ordenar, registar, reactualizando, como neste livro se faz. Os percursos biográficos de cada um destes autores, agora quase personagens também, ganham vida e levam-nos a uma relação de proximidade maior entre a escrita e a existência humana, entre a vida e a literatura.

Estas entrevistas organizam-se com uma introdução personalizada sobre cada autor e no final exibem um fragmento da sua obra; são conduzidas pela curiosidade do entrevistador, que entretece pela sabedoria da pergunta alguns dos trilhos das respostas.

Os títulos que encabeçam as entrevistas notificam uma vez mais a presença de Panguana como escritor. Umas entrevistas são mais curtas que outras, mas sempre nelas se nota a pertinência do testemunho concedido sobre a prática de escrita, a época histórica, alguns segredos trazidos da sombra. Entre as várias vozes que tive o prazer de ler em Os Peregrinos da Palavra, saliento a longa entrevista de Simeão Cachamba, narrador que “abre as páginas do tempo”, à maneira de um contador de histórias, como bem aponta Marcelo na sua apresentação. Ou a de Isabel de Noronha, ou a de Calane da Silva...

Mas não vou alongar-me, pois não quero tirar ao leitor a curiosidade da descoberta de cada uma destas personagens/autores, trazidas à cena, em roteiro de memórias, pela mão atenta de um destacado leitor da literatura e cultura moçambicanas: o escritor Marcelo Panguana, que comemora este ano os seus trinta anos de vida literária, mas certamente mais de uma eternidade de anos como leitor.

 


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