Línguas bantu em Moçambique

Moçambique é um país privilegiado do ponto de vista linguístico, pois, ao longo do território nacional, são faladas cerca de 20 idiomas. A província com maior número de línguas locais é a de Tete, com cinco, designadamente: cinyungwe, cinyanja, cisena, cishona e cisenga. E, contrariamente, a que tem menos é a de Nampula, apenas emakhuwa, a que tem mais falantes em todo o país. Concorre para o efeito o facto de emakhuwa ser falada em toda a região Norte e na Zambézia, possuindo, por isso, imensas variantes.

Com a excepção de Nampula, todas as outras províncias têm na sua alçada pelo menos duas línguas bantu: Este repertório etnolinguístico é um factor de riqueza, afinal a cultura engrandece-se na diversidade linguística enquanto veículo de apreensão de saberes, transmissão de conhecimentos e preservação de imaginários.

Considerando que a língua traduz em palavras o quotidiano das pessoas, retratando como elas raciocinam, agem e apreendem a realidade, num contexto como o nosso, existem pelo menos 20 maneiras de transmitir ao outro as experiências vividas. Logo, o facto de o país ter muitas línguas bantu constitui uma vantagem porque em cada grupo etnolinguístico estão salvaguardados a forma como os integrantes interpretam a própria vida e o mundo. No entanto, casos existem em que as nossas línguas são relegadas ao último plano, desvalorizadas e marginalizadas. Primeiro, porque não são línguas de mercado, ou seja, não oferecem oportunidades na mesma ordem que as europeias. De facto, há uma verdade nisto: as grandes instituições de ensino pouco se interessam pelo changana ou pelo echwabo, pois não têm dimensão supranacional, como o Inglês ou o Francês, por exemplo. Entretanto, têm uma dimensão comunitária e regional muito forte.

Se, em muitos casos, um indivíduo precisa exprimir-se na língua inglesa ou portuguesa para ser considerado “cidadão do mundo”, noutros bem específicos é exigido a comunicar-se na sua língua local para manter viva a herança dos seus antepassados, o que em Moçambique e em África em geral é muito importante. A ligação com os antigos depende do uso das línguas bantu, as mesmas que são responsáveis por integrar o cidadão ao grupo linguístico a que faz parte ou com o qual pretende interagir. Falar kiswahili, cicopi ou ciyao constitui uma forma de mantermos vivos os elementos identitários que nos caracterizam como moçambicanos. Isto é, somos o que somos porque pertencemos a um contexto. Negar os nossos idiomas é recusar a nossa origem, o património que os nossos ancestrais nos legaram e é recusar às novas gerações o direito? de poderem ser filhos de África.

É tempo de começarmos a mudar o cenário das coisas, de prestarmos melhor atenção à nossa identidade cultural e de reinvestir no património que, felizmente, o colonialismo não conseguiu aniquilar. Não existe povo sem cultura. Do mesmo modo, não existe povo que não tenha formas particulares de expressar o que cabe dentro do seu universo. O futuro da nossa moçambicanidade depende muito da capacidade de reaprendermos as nossas línguas bantu.

Esta coluna que hoje estreamos é o princípio do que, nos próximos tempos, pretendemos partilhar com o caro leitor, no que concerne às línguas bantu.


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