Makilomba, o Mwakilompa*

Tributo a  Ali Juma Issufo


Abrimos alas para os homens de fato preto e de semblantes carregados. Uma canção descia dos céus enquanto um grupo de seis homens de braços firmes e unidos movem-se num olhar ausente entre a multidão, arrastando-se solenemente. Cumpria-se o acto derradeiro. O meu silêncio ilustrava-se no breve arrastar dos lábios para ajeitar a mímica celestial. Um vulcão de canções em erupção nesta homenagem ao meu amigo das habituais conversas no TPM das 19horas. 

O pastor percorria a parte final do evangelho quando, num repente pisei a Teasse sem querer, empurrado por Quito, magoando-a.  Por sorte daquele momento infeliz talvez os presentes terão pensado que o choro abafado de Teasse fosse em memória do finado. Outras senhoras à volta afastaram-se, temendo uma segunda vaga de pisadelas. 

O sol escaldante de fevereiro toldava-nos os rostos. Suores marejantes sulcavam-nos o corpo em cascata. Os casacos de ocasião tornavam-se insuportáveis. 

A viúva mal se via. Para além das vestes negras, um batalhão da tropa das comadres guarnecia-lhe por todos os lados. O espaço contíguo onde decorria o velório estava impossível. O choro incontido de algumas vizinhas contrastava com a contínua e descompassada gritaria da viúva, em desespero temendo o traço curvado do futuro que somente a Deus ainda pertence.

Nesta noite, debruçado sobre a varanda de casa, ponho-me a meditar. Povoam-me lembranças do militar que, sem o conhecer, bastas vezes vimo-nos em frente à base N`Tchinga onde vivi com o tio Benedito, há décadas. Ele na guarita e eu ali, do lado oposto, junto ao murro, contemplando os carros que por ali passavam, Niva, Lada,  Madjedje, Kamaz, Tatra,  a abelha da wolkswagen, etc.

Voltamos a cruzarmo-nos com regularidade anos mais tardel. Foi quando o meu tio esteve de visita à casa dos meus pais, acompanhado por um numeroso grupo de colegas, todos fardados. Um deles chamava-se.  Ali Juma. Estava fora das minhas cogitações pensar que era aquela a última vez que o via nas fileiras das forças armadas.

Não me recordo bem do mês nem do dia em que escutámos uma proclamação tão demorada, plena de fazer concorrência àquela mítica noite de 25 de Junho inaugural da República Popular.

- Estão ma ouvir bem? Estão ouvirê? Eu Ali Juma Issufo, o próprio Mwakilompa amanhã esse huora, Nampula. Estão a ma ouvir bem, nampula. – E continuou.

- Amanhã esse huora nampula axinêni, minha terra. Vocês vão me lembrar. Vou amanhã mesmo. O bilhete de avião está aqui estão a ver bem. – Exibindo-o para a plateia de ocasião composta por uma fila de gente do bairro que já estava desejosa do brinde de despedida.

- Eu, o próprio Mwakilompa vou-me embora. Já acabou guerra. Já fui desmobilizato. Vou ver minha terra, meus amigos. Já lutei. Agora estou desmobilizdo. Não vou demorar muito muito chegar na casa. Minha casa é ali quando sai do aeroporto de Nampula, estão a ouvir bem? 
E continuou naquela declaração efusiva– Esse huora Nampula axinene, nu vali pena. Esse huora Nampula, sim senhora, heheheh. E exultou – Ungawihihihihiii. Uungaaawihiiii –completamente eufórico.

Durante o brinde de despedida surgiu o inesperado. O filho mais-velho da esposa de Mwakilomba pôs-se a discurtir desajeitamente. A voz num tom bastante alto, completamente sem respeito nenhum pela progenitora. Mwakilompa levantou-se para serenar os ânimos, separando o rapaz que já se preparava para desferir um golpe à mãe. Na segunda tentativa o Madiskobe acertou de forma contundente no braço esquerdo de Mwakilompa que pairava no ar segurando uma garrafa de um refrigerante qualquer, em defesa da esposa. 

Seis meses depois daquele noite de proclamação da viagem adiada Mwakilompa foi promovido a estivador-chefe, num dos armazéns da baixa. 

Era frequente ver Ali Juma aos domingos, metido num fato preto, a regressar da igreja doze apóstolo. Mas nem por isso deixava de fazer parte das celebrações islâmicas como o Ide-Ul-Fitre e outras mais, trajado a rigor entre irmãos muçulumanos. 

Anos mais tarde, no mesmo TPM voltamos a cruzarmo-nos. O homem de Nampula apresentava um semblante frágil. Os músculos outrora fortes estavam vencidos por uma doença que ele me não sabia explicar em palavras. Fiquei a saber que já trabalhava no escritório, cuidando de algum expediente. 

- Estou a trabalhar mas nô estou a trabalhar aquele serviço de carga. Já nô pode carregar mais carga, sabe. Esse meus braços não aguenta mais. Minha vida está mal, cada vez mais, amigo.  Senti um desalento acelerado naquela fala morna do Mwakilompa. Um gigante doutros tempos. Um gigante entre Khambu e Nadjimbu, dois colossos do bairro, de músculos arredondados. 

- Agora só vou no banco depositar cheque. Depois voltar, entregar talão patrão. Meu serviço é receber carta e entregar patrão.

 Desta vez Ali Juma, falou transpirando um ar desolado. Não reconheci o próprio Mwakilompa, macua de Nampula, de olhos vidrados de emoção. Pairava no ar  uma ave qualquer anunciando, talvez, que estava para breve a chegada dos homens de semblantes carregados.
 

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*Do emakhuwa, louvado, adorado


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