Mangas Verdes com Sal

Sabor longínquo, sabor acre

da infância a canivete repartida

no largo semicírculo da amizade.

Rui Knopfli

 

Quando o descobri, fortuitamente, na minha adolescência, o seu nome não era referido nem a sua obra aludida. Vivíamos um tempo de equívocos que advinham de excessos de zelo e de exabundantes acções purgativas. Quatro décadas depois, estamos nos antípodas – na contracosta. A despeito, nunca duvidei de que estava perante um poeta moçambicano, um soberbo poeta moçambicano, aliás. A sua obra poética atestava-o. O seu excurso jornalístico e a ensaística também. Fora dos primeiros a haurir aquilo que viria a ser a poesia moçambicana. Cartografara o que considerara os primeiros “tentames da poesia de raiz marcadamente moçambicana”. Se também era português? – que problema havia nisso? T.S. Eliot, para citar apenas um poeta que lhe era próximo, era simultaneamente grande poeta americano, onde nascera, e grande poeta inglês. Há muitos casos de escritores ou poetas bi-pátridas. Eu, intuitivamente, reivindicava-o. Rui Knopfli era, indubitavelmente, poeta moçambicano. Proclamei-o nas páginas literárias da época onde me afoitava. E fazia quezília nisso. Passadas estas décadas, parece tudo pacífico. Naqueles tempos exacerbados, não o foi. Quando o li, com espanto e revelação, um manto de silêncio cobria-lhe o nome. Aqui e lá. Autor de uma obra complexa e provocatória, ninguém sabia onde ela cabia. Para mim, sempre coubera e sempre caberia na estante da literatura moçambicana.

Sou, por conseguinte, knopfliliano, como uma data de poetas moçambicanos o são. Muitos o leram, citaram-no ou glosaram-no. Outros tantos explicitamente dedicaram-lhe versos, poemas, livros. No livro O Ritmo de Presságio, o poema “Como os outros”, de Sebastião Alba, é dedicado a Rui Knopfli. De Heliodoro Baptista, “À volta das origens”, do livro A Filha de Thandi, poema dedicado a Rui Knopfli e Eugénio Lisboa, estabelece com o poeta de O Escriba Acocorado, um diálogo explícito. Leite de Vasconcelos, no poema “Receita para uma infracção”, do livro Resumos, Insumos e Dores Emergentes começa dizendo: “Toma nas mãos uma manga/ dessas que verdes o Knopfli sente”. Jorge Viegas, em O Núcleo Tenaz, dedica o poema “Circulo de Sombra”, um dos seus mais belos poemas, a Rui Knopfli. Luís Carlos Patraquim é absolutamente knopfliliano. Não só no poema “Muhípiti”, do livro Vinte e Tal Novas Formulações e Uma Elegia Carnívora, mas em toda a sua obra, onde se estabelece um diálogo intertextual subtil com o poeta da Ilha de Próspero. O título País de Mim, de Eduardo White, de 1989, é uma alusão ao País dos Outros, de 1959, de Rui Knopfli. Ou o imaginário da ilha e da viagem. Guita Jr., um dos nomes cimeiros do projecto “Xiphefo”, em Inhambane, é também declaradamente knopfliliano. “Vilankulo by night” dialoga com um poema epigramático de Mangas Verdes com Sal.

Foi através de Reino Submarino (1962) que eu cheguei à poesia de Rui Knopfli. Aquele livro iria marcar o meu destino poético. Foi ele que respondeu ou deu expressão às minhas inquietações literárias. Vivi um tumulto, difícil de descrever, que se desencadeou em mim perante aquela poesia eclética, discursiva, provocadora. Sem esta poesia, à qual devo muito, à qual devo tudo, eu não seria o pouco que sou hoje. Foram os poemas elegíacos, foram aqueles que mais me impressionaram desde logo: “A Menina do Retrato”, “Encontro”, “Monólogo”, sobretudo “A Uma Criança Longe”: “Escrevo-te estas palavras/ sabendo que as não lerás” ou ainda: “A morte é isso, é acabar/ simplesmente, não acontecer mais.” Este é um dos poemas que mais remotamente recordo aquando da minha iniciação poética de Rui Knopfli, um poema dolorosamente biográfico, dedicado à filha.

Rui Knopfli: “Nada me auxiliam as lágrimas/ que me salgam a face/ e o muito que tenho blasfemado/ de borco, rente ao teu silêncio gelado. / Esta a lógica prosaica dos factos: / Continuamos a viver, dolorida/ a consciência/ da tua cada vez maior ausência. / E teu pequeno corpo moreno, / que nem todo o meu amor aquece, / é um palmo de ternura/ que apodrece.”

Este livro dedicado à memória da filha é atravessado por esse tom pungente de versos elegíacos. O poema “Pequena Elegia” termina com estes versos que nunca me esqueci: “Inteira, a tua morte/ viaja dentro de mim.”. O livro tem outras elegias, como aquela dedicada ao poeta Reinaldo Ferreira, que morreu em 1959: “O que na vida repartiu seu poema/ por alados guardanapos de papel, / o criador de sonhos logo perdidos/ na berma dos caminhos, / o mago que pressentia o segredo/ da beleza perene”. Deste livro destaco ainda o poema “Adeus Xico”, uma dolorida memória da juventude, poema que eu declamei inúmeras vezes. O poema é uma longa homenagem a um companheiro de juventude morto aos trinta anos. Ainda hoje quando recordo este texto, oiço os acordes da Patética, a famosa sinfonia de Tchaikovsky que o poeta cita profusamente no texto. Seria, porém, “Winds of change” e “Velho Colono”, dois dos mais reveladores poemas deste livro, que me acompanhariam, mais frequentemente, ao longo destas décadas de convívio apertado e quase quotidiano com a poesia de Rui Knopfli.

Rui Knopfli: “Sentado no banco cinzento/ entre as alamedas sombreadas do parque. / Ali sentado só, àquela hora da tardinha, / ele e o tempo. O passado certamente, / que o futuro causa arrepios de inquietação. / Pois se tem o ar de ser e o passado, / os dois ali sentados no banco de cimento. // Há pássaros chilreando no arvoredo, / certamente. E, nas sombras mais densas/ e frescas, namorados que se beijam/ e se acariciam febrilmente. E crianças/ rolando na relva e rindo tontamente. // Em redor há todo o mundo e a vida. / Ali, está ele, ele e o passado, / sentados os dois no banco de frio cimento. / Ele, a sombra e a névoa do olhar. / Ele, a bronquite e o latejar cansado/ das artérias. Em volta os beijos húmidos, / as frescas gargalhadas, tintas de outono/ próximo na folhagem e o tempo. // O tempo que cada qual, a seu modo, / vai aproveitando.”

Citei o poema na íntegra. Aqui está já o grande poeta que se iria revelar, na plenitude, no livro Mangas Verdes com Sal (1969), antes de Máquina de Areia (1964) e, muito antes,  do iniciativo e provocatório País dos Outros (1959). Apetecia-me citar na íntegra também o “Winds of change”. “Passam. Passam/ e tornam a passar. / Ninguém se apercebe de nada.” Li-o até à exaustão. Poema actualíssimo. Mas há outros poemas extraordinários neste livro. Como “Fim de tarde no café”. Como tantos outros.

A segunda obra de Rui Knopfli que eu li foi esse inigualável Mangas Verdes com Sal, o livro da plenitude, provavelmente o seu mais belo livro. Recordo-me de poemas e versos que me ficaram para sempre na memória. Do poema “Não obstante”: “nunca escrevi versos que não fossem de amor”. Ou “o meu Paris é Joanesburgo”, do poema “À Paris”. Ou o poema aforístico “Progresso”: “Estamos nus como os gregos na Acrópole/ e o sol que nos mira também os fitou. / Mas fazemos amor de relógio no pulso.”

Durante anos impressionou-me o poema “Aparição”, li e reli “Hackensack”, que cito no frontispício do Maputo Blues e, como o título revela, é uma referência a Thelonious Monk, um dos mitos do jazz. Seria, aliás, Rui Knopfli quem haveria de me iniciar nos segredos e nos prodígios do jazz, em Londres, numa ocasião inesquecível, onde fomos ouvir uma banda que tocava Duke Ellington, nas margens do Rio Tamisa. Citei  afanosamente o poema “Velasquez”, diante de “Las Meninas”, no Prado”, lembrei-me dos versos: “Só de perto te apercebemos: é de baixo/ que os gigantes te miram”. Li e reli “A Descoberta da Rosa”, declamei “Mangas Verdes com Sal”, glosei “Lembranças do futuro”: “só os poetas têm lembranças do futuro”, comovi-me com “Praça Sete de Março”, exultei com “Disparates seus no Índico”, pilhei versos como em “Contrição” ou consignei ao futuro a minha escolha da melhor poesia moçambicana do século XX o título “Nunca Mais é Sábado”.

O mito da ilha como tema central da poesia moçambicana devemo-lo a Rui Knopfli e ao seu roteiro belíssimo sobre a A Ilha de Próspero, uma edição inicial de 1972, que li emprestada, só obtendo, mais tarde, a partir de uma ulterior edição, esta obra que também tem influência, não só no meu labor poético como no entendimento de um eixo imprescindível da lírica moçambicana, a que dedicaria o livro A Ilha de Moçambique pela Voz dos Poetas, incumbência de Luís Bernardo Honwana, que eu e o António Sopa concretizámos no âmbito da nossa participação na Expo de Sevilha, em 1992, onde aliás eu iria estar com Rui Knopfli, Rui Nogar e José Craveirinha.

Rui Knopfli: “Ilha, velha ilha, metal remanchado, / minha paixão adolescente, / que doloridas lembranças do tempo/ em que, do alto do minarete, / Alá – o grande saca! – sorria/ aos tímidos versos bem comportados/ que eu te fazia”. Este livro é notável, uma alquimia perfeita entre texto e imagem, com fotografias belíssimas do poeta. Eu diria que o livro tem uma origem remota, no poema “Ilha Dourada”, que vem no seu livro de estreia O País dos Outros:  “A fortaleza mergulha no mar/ os cansados flancos/ e sonha com impossíveis/ naves moiras. /Tudo mais são ruas prisioneiras/ e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz/ uma vontade antiga de lágrimas/ e um riquexó de sono/ desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro/ vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos/ de sal e esquecimento”.

Rui Knopfli: “Servidor incorruptível da verdade e da memória, / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis/ de ignomínia e acusação” – começa assim o poema “Proposição”, que termina: “A História que há-de ler-se é por mim escrita. / Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não.” O poema seguinte chama-se “Pátria” e foi glosado por outros tantos poetas, entre os quais Heliodoro Baptista ou Luís Carlos Patraquim. “As árvores chamavam-se casuarina, / eucalipto, chanfuta. Plácidos os rios também/ tinham nomes por que era costume designá-los”. O poema que mais me impressionou neste livro O Escriba Acocorado foi “As Imagens Quebradas”. “Uma última vez percorro a cidade no dia/ em que começa a minha morte. Reconheço/ estes lugares apesar da mudança e a sua / esquiva familiaridade roça-me as tolhidas/ asas da memória. Aqui escrevi. Naquela // sombra imaginei. Entre uma e outra coisa, / vivi. (...) // Caminho// pelos lugares queridos, sem tristeza, nem mágoa, / altas, condoídas árvores, lagos serenos escorrendo/ de meus olhos, hálito azul da tarde que, por cair, / de sombras vai tranquilizando o horizonte. Só, / meu coração, bate contra a pedra e o silêncio.” Duas décadas depois, no derradeiro O Monhé das Cobras, de 1997, ao ler o poema “Aeroporto” recordar-me-ia das “imagens quebradas” que se tinha impregnada em mim de uma forma indelével. Publicara antes, em 1984, o livro O Corpo de Atena (1984) no qual recupera um belíssimo poema – “Notas para a regulamentação do discurso próprio”, inicialmente dado a conhecer nos cadernos Caliban, que promoveu com o poeta João Pedro Grabato Dias. Caliban, que reeditei com a sua anuência e o entusiasmo do saudoso José Capela, que assegurou a empreitada, foi uma revista eclética e reveladora.

Ultrapassado o engano dos anos do silêncio, lemo-lo, cultivamo-lo e amamo-lo. Citamo-lo e glosamos a sua obra. Há hoje teses universitárias, há livros evocativos, os poemas circularam, na medida do possível. Tive o privilégio da sua amizade. Visitei-o em Londres e em Lisboa, acompanhei-o em Maputo. Tenho dele lembranças inesquecíveis e, sobretudo, cultivo a sua poesia com desvelo desde a adolescência. No seu derradeiro e belíssimo Monhé das Cobras, Rui Knopfli haveria de prever o fim num texto derradeiro e premonitório. “O Cair do Pano”: “É Dezembro/ a encurtar o tempo, o pouco tempo que nos sobra”. Nascido em Inhambane, a 10 de Agosto de 1932, morreria em Lisboa a 25 de Dezembro 1997, aos 65 anos, passam agora 20 anos.

 


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