Manu Dibango: Partiu o “leão” que gostava de Fórmula 1

Manu Dibango:  Partiu o “leão” que gostava de Fórmula 1

Saxofonista camaronês morreu esta terça-feira, vítima de Coronavírus, depois de ter ficado internado por três semanas num hospital em Paris, onde morava.

Em 1948/49, um rapaz camaronês deixou o seu país numa viagem de barco que durou três semanas. Destino? França, onde chegou aos 15 anos de idade para estudar. Com ele levava cerca de três quilos de café, que, depois de os vender numa altura de escassez daquele produto no país europeu, o permitiram adquirir dinheiro usado para pagar uma pensão. Sem que ninguém se desse conta disso, o Porto de Marselha foi a porta de entrada para o sucesso de Emmanuel N'Djoké Dibango, natural de Douala, Camarões, onde nasceu às 23 horas do dia 12 de Dezembro de 1933.

A música não lhe surgiu ao acaso. Na família haviam pessoas que a praticavam: a mãe, que conduzia um coral na igreja, e um tio paterno, que tocava um órgão. Entretanto, quando o seu pai decidiu enviá-lo para França, não estava a pensar em formar um músico, musicólogo ou algo parecido. Longe disso, Michel Manfred N'Djoké Dibango, na altura funcionário público, queria que o filho se tornasse um médico ou engenheiro. Mas Manu Dibando estava predestinado para voos mais altos. Com pouco tempo em França, inicia-se nos teclados. Descobriu o sax mais tarde, e, enquanto vibrava com a música, o desempenho escolar fracassa, o que aborrece o pai. Consequência disso? O rapaz fica sem “mesada”.

Foi mais ou menos a essa altura que Dibango partiu para Bélgica, onde, escreve a NSC Total, começa tudo de baixo, tocando em cabarés e bailes. Segundo aquele órgão, Dibango conheceu na Bélgica a mulher que veio a tornar-se sua esposa: Marie-Josée.

Depois de ter regressado ao seu país, foi convidado, em, 1972, a gravar o hino do Campeonato Africano das Nações (CAN), mas é com a música Soul Makhosa (makhosa, numa das língua de Camarões, significa dança) que inicia o sucesso. DJ dos Estados Unidos entusiasmam-se pelo som de Dibango e, mais tarde, o camaronês acusa Michael Jackson de ter feito um plágio à música num dos temas do CD Thriller – o assunto ficou resolvido com um acordo entre os dois astros. 

Manu Dibando é descrito como um homem humilde, de riso fácil, um amigo e pai para vários artistas. Desde cedo, preocupou-se em ampliar a perspectiva de que África faz parte da vida global e que não vive apenas de guerras e fome.

Numa das vezes que esteve em Moçambique, o Leão de África, como também é tratado, cedeu uma entrevista exclusiva ao canal televisivo Stv. Na mesma, falando de si, o saxofonista disse que se tornou músico sem saber. Depois disso, argumentou por que o apoio às artes é fundamental: “É bom apoiarmos as artes porque as artes podem nos dar uma razão de viver”. Além disso, o Leão de África disse qual gostaria que fosse o seu legado: “O meu legado é o trabalho. Nós não somos líderes. Lembrem-se sempre disso, nós vamos sempre atrás da música, e nunca à frente. Estamos sempre a correr atrás de um bom som, um bom instrumento e de boa maneira de tocar. Tudo isso está à nossa frente, e não atrás. É preciso trabalhar com muito esforço, muito esforço para poder conquistar alguma coisa”.

Ainda em Moçambique, Manu Dibango foi homenageado pela Universidade Eduardo Mondlane e renovou uma colaboração musical que o aproximou ainda mais a Moreira Chonguiça. Juntos lançaram um disco, intitulado M&M, uma homenagem aos autores que marcaram os percursos dos dois saxofonistas.

Além da música, Dibango era um grande adepto de desporto e de motores. Não dispensava um BMW 330 e nem as corridas de Fórmula 1. Vibrava com as corridas de carro de tal ordem que, às vezes, interrompia as gravações de estúdio para acompanhar pela televisão. Também gostava de ténis e de plantio. Na sua casa, em Paris, não faltavam rosas ou morangos no quintal.

Ao fim de 48 anos de carreira, depois de ter ficado três semanas internado num hospital em Paris, Manu Dibango morreu, deixando para trás discos como O boso, Afro-Soul Machine, Lion of Africa, Afrijazy e a seguinte frase: “nós nascemos e morremos nus”.

 

 

 

 

 

 

 

 


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