Manuel Mutimucuio, o homem que não tapa o sol com a peneira!

Manuel Mutimucuio nasceu em Maputo, em 1985, mas teve os seus anos formativos na Beira. É doutorando em Governação e profissional de desenvolvimento. A sua apresentação ao panorama bibliográfico-literário deu-se através do «Visão» (2017) e avantajou-se com «Moçambique com Z de Zarolho» (2018).

A escrita deste autor enquadra-se no que o teórico moçambicano Mallinda (2001) chama questionamento do «status quo». A verdade é que a partir da degustação do duo literário de Mutimucuio, alcançamos um diferencial que parece espremer incisivamente os calos nos pés da pérola do índico. «Visão», embora livro de estreia disseca com brio sobre as amarras que estão, também, na base de muitos dos questionamentos que assolam a mente e o sedentarismo epistemológico dos moçambicanos. A obra apresenta-nos verdades obscuras e fala-nos sobre o lixo que está por baixo de diversas alcatifas sociais. Faz-se pertinente lançar um olhar especial à forma como este autor narra e satiriza problemas como a infidelidade, o lambibotismo, a ganância, o egoísmo exacerbado, entre outros.

Já com «Moçambique com Z de Zarolho», o autor inquieta-se mais com a situação da língua como elemento diferenciador de classes individuais e grupais, esta mesma língua é-nos ainda apresentada como condição suficiente de ascensão social e financeira. Apresenta-nos uma sociedade moçambicana moderna, um factor um tanto quanto ineditista, que a passos galopantes desvincula-se da herança linguística do colono e em que as diferenças sociais estão em GARRAFAIS. Como dissemos no início, é uma escrita profundamente acasalada com o questionamento do «status quo» moçambicano, repleto de elementos novos da modernidade que mesmo assim não se desvinculam das cosmogonias africanas e de símbolos e espaços característicos da nossa literatura, tais são os casos do «sonho», «monólogos dialogantes», «oralidade» e não diríamos racismo, em «Visão», mas uma perpetuação de uma colonização ideológica que faz sinonimizar a pele branca a benefícios e superioridade existencial. Por outro lado, preste-se atenção ao profuso recurso à descrição de que o autor se serve nas duas obras, fazendo recordar o célebre «Nós matámos o Cão-Tinhoso» (1964), de Luís Bernardo Honwana, no conto «Inventário de imóveis e jacentes». Por estas e outras razões que as nossas limitações epistemológicas não lograram alcançar, consideramos que a escrita de Mutimucuio é revestida de muitas verdades prementes e reveladora de tantos escombros que nos parece que se trata de um homem cuja mão não tapa o sol com a peneira.
 
Bibliografia
MALLINDA, Daniel Augusto. Cartografias da Nação Literária Moçambicana: Contos e Lendas, de Carneiro Gonçalves. Maputo, PROMédia, 2001.


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