Mapombwe*

Mapombwe, no sopé da Serra da Gorongosa, estava ainda insulado dos assentamentos desordenados que amiúde descaracterizavam a pitoresca vila-sede do distrito. O bairro estava reservado a um projecto público de habitação, mas enquanto a iniciativa não descolava, vingavam usos de terra mais campesinos, tirando partido do solo fértil e água abundante. Era naquele emaranhado de machambas de culturas diversas e pomares dos mais suculentos frutos tropicais que se dizia estar escondido o hipopótamo.

De rádio em punho, a tentar aferir a qualidade do sinal privado de comunicação da Reserva, Sócrates, fiscal-chefe, chegou ao local do “conflito” e dirigiu-se aos seus três colegas, já há muito posicionados no local, para finalmente obter detalhes da situação. Tinha muitas perguntas e não sabia por onde começar. Na dúvida, começou pelas que se afloravam pela atmosfera do local.

“Como vamos trabalhar com toda esta gente aqui?” Com a questão no ar a soar mais como uma pergunta retórica, tentou outra.

“E estas lareiras aqui?” Mais uma vez, desconfiou que estivesse a chover sobre o molhado e ofereceu um comentário.

“Eu não vejo “conflito” nenhum. Pelo contrário...”. Pausou. Balbuciou em seguida algumas palavras inaudíveis. “Pelo contrário...” Repetiu. Quando já parecia claro ter perdido o fio da meada, novamente murmurou “pelo contrário”. 

“Estas pessoas todas têm machambas aqui?” Levantou o tom deixando claro que agora esperava resposta.

“Não sei, chefe”. Não satisfeito com a sua cândida, mas evasiva resposta, um dos fiscais de patrulha acrescentou. “Quando chegamos, pela manhã, só estavam quatro senhoras”.

“Senhoras?! Eu aqui só vejo machos”. Sócrates desafiou-o a fornecer mais pormenores. Não havia necessidade, porém. A imagem vívida no local era suficientemente esclarecedora. Havia pelo menos três grupos com tarefas mais ou menos divididas. Uns, em número menor, empunhavam vários instrumentos contundentes, desde implementos agrícolas, até objectos intencionalmente feitos para matar. O segundo grupo estava a preparar uma lareira. Se os propósitos da fogueira, em plena tarde de inverno de montanha, poderiam dar azo a interpretações diversas, a presença de panelas e outros utensílios de cozinha sugeria um único intento. O grupo maior estava claramente afastado da acção para não se sujar, caso os eventos assumissem um pendor negativo, mas suficientemente próximo para instigar e não perder quaisquer detalhes do que viesse a suceder.

“Então se as pessoas voltarem à procedência, definitivamente não há conflito”. Sócrates não era de se gabar, pelo menos, não abertamente, mas gostava de pensar que era um homem pragmático, capaz de encontrar soluções fáceis em situações que pareciam intratáveis. Ele era a personificação do tipo de gente, como diz a sabedoria popular, que “se não sabe se sexta-feira feira se escreve com s ou com x, então escreve sábado”.

O problema do hipopótamo em Mapombwe, infelizmente para si, não dependia do seu livre arbítrio. Estava, contudo, esperançado de influenciar o comandante policial, que entrava naquele momento com a sua comitiva.

“Gwaza-Madoda!” Alguém do público assistente gritou quando o polícia-chefe desceu do carro. “Gwaza!” Fez coro o resto da multidão.

Esta era a alcunha que perseguia o comandante desde os tempos que as mãos lhe eram mais ágeis que a cabeça. Quando passou a ser temido mais pelo que a sua boca dizia ou mantinha omisso, fez questão de manter o epíteto. Sabia, como poucos, que a verdadeira força do poder estava no mito. Era-lhe atribuída a responsabilidade de extermínio de perigosos cadastrados, mesmo em zonas onde nunca tinha operado. Gwaza-Madoda não confirmava nem desmentia nada. Sempre que fosse mencionada uma das suas supostas façanhas partia um sorriso seco e trocava de assunto. Os que contavam a história sentiam-se validados e os que a ouviam pela primeira vez ganhavam um novo herói.

Perante as hosanas que se faziam em torno de si, o comandante sentiu-se compelido a retribuir o obséquio. Com a ajuda de dois dos agentes, que o acompanhavam, subiu na carroçaria da viatura policial e servindo-se de um megafone dirigiu-se ao público que, para a ocasião, se tinha fundido num único bloco. Fez o teste do alcance do som repetindo a frase “Bom dia, Gorongosa!” até que a resposta deixou de ser “bom dia!” e circunscreveu-se a expressivos aplausos.

Prosseguiu explicando a razão da presença da polícia e dos fiscais da RFB. Pediu que a população se afastasse para que o “trabalho” fosse feito em segurança.

“Nhama!” Ouviu-se da multidão, devolvendo algum ímpeto ao discurso que já desfalecia na lábia paternalista do comandante. Gwaza-Madoda reclamou a iniciativa construindo uma metáfora que, a seu ver, o recolocaria nas graças do público.

“Nós estamos aqui porque entrou mbava em Mapombwe. Do mesmo jeito que...”.

“Pega mbava... agarra ladrão!”, em uníssono reagiram as pessoas. O povo não lhe deixou terminar o raciocínio porque era bastante improvável que articulasse melhor a missão para lá do que dissera há pouco. O hipopótamo era um inimigo público e, com ou sem a intervenção das autoridades, a justiça seria feita.

 

Nota do editor:

*Primeira parte do segundo capítulo do próximo romance de Manuel Mutimucuio. O livro será publicado pela editora Fundza.


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