MARRRIA

– Marrria. Me chamo-me Marrria.

Pronunciou assim mesmo. Com a língua tremelicar no céu da boca, pondo os muitos erres da descontração tsonga no sotaque. Tinha a cabeça timidamente inclinada até ao ombro. As longas mechas descaíam e cobriam o espetáculo da beleza à meio rosto, como cortinas de um teatro que se intrometessem à meio da sessão. Ele olhou para ela. Pronunciou qualquer coisa que a deixou descontraída. Ela sorriu. Estendeu o braço e fechou a porta do carro, por dentro. O veículo arrancou, entremeou-se a outros e desapareceu como uma formiga no meio do  tráfego de um formigueiro intenso.

Foi de manhã. Antes do Sol espreguiçar. À hora da classe operária. O semáforo, ainda sonolento, bocejou e autorizou, com a luz verde, os veículos que rosnavam ansiosos. À beira da estrada, improvisando uma paragem de transporte público informal, um enxame de gente subjugada aos livros de ponto aglomerava-se ao jeito operário de insectos trabalhadores. Alguns veículos abrandavam. As pessoas corriam desesperadas por uma boleia. As viaturas tentavam, com alguns  fretes, conseguir algum que compensasse o custo insípido do combustível.

Foi aí que um sedan, importado do Japão, abrandou, hesitou, por fim parou,  quando viu a Maria lampejando no meio da multidão. As pessoas correram como sardinhas desesperadas por um lugar na boleia de um enlatado. O homem ao volante baixou o vidro de elevador automático e abanou o dedo  indicador a dizer "não". Acto contínuo, apontou com o mesmo dedo para Maria, parada no meio da multidão, deixando claro que  o  frete não seria para todos mas sim para ela. Maria desviou o olhar, recolheu-se à timidez.

– Menina! Estão a chamar ali – gritavam alguns, procurando, com a simpatia, conseguir um lugar naquela boleia.

Maria fingia não ouvir. Num soslaio fortuito percebeu, sob os reflexos do vidro do carro, os dedos da mão do homem ao volante a dobrarem-se num claro "anda cá'. Ignorou, orientada pelo bom senso que recomenda as mulheres mais novas a não ceder ao chamado de estranhos. O homem esperou, ao jeito paciente dos predadores. Um toque  na buzina. Maria olhou sem olhar. Imaginou-o a fazer " anda cá" com os dedos.

– Vai, menina! – Incentivavam os caçadores de boleia.

Os chapas não vinham. Na paragem, a enchente crescia. O tempo corria. Maria pensou nos transtornos  do atraso e cedeu. Olhou de soslaio para o carro. Baixou o olhar. Arrastou o olhar caído e deu um passo para o lado como um caranguejo envergonhado. Deu outro. Devagar, como quem não vai a lado nenhum. A consciência pesava-lhe as pernas.

Na traseira do veículo, as luzes de retaguarda acenderam. O carro recuou, facilitando a distância, as coisas. Ela parou. Esperou, cabisbaixa,  como  se tivesse  perdido  os olhos no  chão.

Viu-se, da paragem, a silhueta do homem a inclinar-se no carro para falar à menina. Maria dobrou o corpo, realçando o arsenal e aproximou-se da janela. As mechas penderam. Ele disse algo açucarado  (percebeu-se no sorriso dela) e abriu a porta. Maria recolheu o olhar caído, ainda com a consciência a pesar-lhe os gestos, e entrou para o carro. Foi ali que, em curta conversa ele perguntou algo e os lábios dela pronunciaram "Marrria, me chamo Marrria", com a cabeça reclinada e as mechas a cobrirem meio rosto. O homem pronunciou algo que a deixou descontraída. Ela olhou para ele, desviou o olhar, sorriu, fechou a porta do carro por dentro, o carro desapareceu no meio do tráfego deixando espencados os fulanos que tentavam lugar na boleia.

Nos dias seguintes Maria dobrou, na saia, alguns centímetros da bainha, deixando exposto o espetáculo dos joelhos roliços. Com as celulites à mostra já não havia crise de transportes para a Maria. Percebeu que se a saia, já sem pano para bainha, subisse mais um pouquinho, prosperaria também as finanças.  Hoje, com a saia do tamanho da economia nacional, faz sucesso nas paragens, desde cedo, até à hora em que os mosquitos e os pássaros nocturnos lhe escoltam o corpo.

 


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