Matéria para um BCI

As palavras só nos podem ser úteis quando o diálogo é inteligível

Ascêncio de Freitas

 

No princípio de cada ano, é anunciado o vencedor do Prémio BCI de Literatura, o qual distingue com 200 mil meticais o melhor livro publicado em Moçambique. Na última cerimónia, o autor laureado foi João Paulo Borges Coelho, com a obra Ponta Gea, atribuição que valeu acesos debates no Facebook, pois muitos leitores discordaram da opinião do júri. Seja como for, a obra de Borges Coelho, um dos melhores escritores moçambicanos da actualidade, dos nossos favoritos, foi premiada, o que até surpreende-nos muito.

Lembramo-nos do Prémio BCI de Literatura há 10 dias porque recebemos o e-mail de um membro do júri a solicitar-nos a submissão de quatro exemplares de cada título ao concurso cujo vencedor será anunciado em breve. Aí perguntamo-nos quem seria o bem-aventurado para edição deste ano, que, na verdade, propõe-se a premiar o melhor livro publicado em 2018. Fizemos um exame de memória e surgiu-nos o título Matéria para um grito, da autoria de Álvaro Taruma, poeta muito amadurecido, que o publicou bem recentemente, a 12 de Dezembro de 2018, como se, confiante, caçasse a mola do BCI.

O título de Taruma não nos veio à cabeça por acaso. A enorme qualidade poética que o livro apresenta impôs-se num ápice. Por isso, a existir imparcialidade nesta corrida aos 200 paus, ah, sem dúvida, aquela obra há-de estar, no mínimo, como uma das favoritas ao grande prémio. Na nossa percepção, concorre para o efeito o facto de as palavras usadas na concepção de Matéria para um grito conseguirem manter um equilíbrio entre o estético e o inteligível, daí as inquietudes dos sujeitos de enunciação convocar-nos a um diálogo com períodos e versos, por ali existir, quiçá, requisitos que se adivinham essenciais para a libertação da imaginação.

Nesta proposta literária, na qual, como acontece pouco em Moçambique, Álvaro Taruma vai até ao limite das suas capacidades, esgotando-se porque se entrega por inteiro à poesia, o nosso autor poetiza a tristeza, a amizade e o amor, do tipo que vem e vai: “Eu perdi my love na paragem/ Perdi-a entre vozes e visões desconcertadas”. E mais adiante: “E eu perdi my love como quem não lhe sobra argumento/ Nesse jardim humano de ilusões e arrependimento.” (p. 37).

À primeira leitura, até pode parecer que é do nosso my love que se trata, o de quatro rodas. Mas não. O poema “Cordas para um suicídio e violinos”, dos mais bem conseguidos do livro, retrata com mestria a perda de um amor humano, mas sem as lamúrias ordinárias muitas vezes a sugerirem repetições cansativas. Taruma recria as trajectórias passionais a fim de revelar as circunstâncias em que as partidas amorosas acontecem. E não se fica por aí, obviamente, que este livro também é a síntese de uma versificação alicerçada às derrotas que conduzem os sujeitos textuais a um nível altíssimo de depressão/ frustração – Quando isso acontece, logo se vê, sublinha-se o melhor de um autor que, aos 31 anos de idade, parece ter bebido da fonte cinquentenária –: “Dizem que a depressão é uma coisa patológica/ considere-se Hipócrates (460 – 379 a. C.) ou Thimoty Bright no seu Treatise of Melancholy// um cão que se aloja por dentro da cabeça” (p. 86).

Ao incorporar no livro todo um quadro preenchido por perdas, estados de alma angustiantes, na verdade, Taruma atribui à sua escrita a energia que os seus sujeitos usam para vencer a morte, para qual apenas adiciona a desilusão.

Sem dúvidas, Matéria para um grito é um livro carregado de muita humanidade, daí tocar em questões universais. É um livro que celebra a vida, transformando emoções deprimentes em vitórias poéticas contagiantes. Mesmo assim, há quem jurou que o prémio, nesta edição, seria para A reinvenção do ser e a dor da pedra, de Armando Artur. É um bom livro, é verdade, mas não a altura destas 109 páginas de Álvaro Taruma, nas quais o poeta escreve sobre a condição humana, sobre os estados da alma, de um indivíduo e mesmo de uma colectividade, com leveza e originalidade. Por isso, esta é uma boa matéria para um BCI.

 

Título: Matéria para um grito

Autor: Álvaro Taruma

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 17

 

 

 

 

 


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