Morreu Zena Bacar: a muthiyana que se entregou a uma causa

Morreu Zena Bacar: a muthiyana que se entregou a uma causa

Faltavam apenas algumas horas para o Natal, uma eternidade para quem, durante três meses, esteve internada na Enfermaria de Cirurgia Ortopédica do Hospital Central de Maputo (HCM). Ninguém resiste à morte quando decide visitar o corpo, com mero propósito de ali retirar o que de mais valioso existe: o milagre da vida. Zena, por mais Bacar Ali que fosse, lutadora, corajosa, determinada, senhora da sua voz e com um forte sentido de humor mesmo diante de situações adversas, cedeu de olhos fechados, débil, sem sequer pode voltar a ter um socorro clínico.

Na verdade, depois de ter ficado 91 dias internada no HCM, Zena Bacar até chegou a melhorar. Por isso, os médicos deram-na alta no dia 30 de Novembro, embora a situação fosse ainda frágil. Aparentemente, nessa altura, estava tudo controlado, e a irmã da cantora chegou a acreditar que tudo iria acabar bem. Amina Salimo esteve sempre por perto nos últimos dias de Zena Bacar. Bem dito, foi com ela que a cantora dos Eyuphuro viajou da capital para a terra natal, Nampula, de avião, graças a ajuda do Ministério da Saúde, mesmo porque de carro era quase impossível, não fosse Zena precisar de uma maca ou de carrinha de rodas.

De Maputo para Nampula, de tão fraca que estava, Zena Bacar nem sequer abriu os olhos. Talvez não tivesse forças para o efeito, ao travar, quiçá, a maior luta da sua vida.

Algumas semanas depois de ter deixado a capital para trás, de volta à terra onde aprendeu a cantar aos seis anos de idade, sem que ninguém se apercebesse disso, Zena foi-se despendido de tudo, das vitórias eternas e efémeras, das dores, das falsidades, do cansaço das células e das incompreensões dos que tantas vezes chamaram-na maluca, desacreditando-ma quando mais necessitava de apoio. Nenhuma mãe está preparada para perder um filho, ainda por cima numa altura de tanta felicidade como aquela em que o seu unigénito viajou a Portugal em lua-de-mel. Foi lua-de-fel. De lá, a descendência de Zena Bacar não voltou. Morreu, de acordo com a cantora, numa entrevista ao Xigubo, em Junho do ano passado, envenenado. A partir daquele episódio, o juízo da artista virou ao avesso, causando-ma sérios problemas mentais que aprendeu a controlar e a vencer, buscando na música e na sua fé mil razões para existência. “Nessa altura, nós tentamos reintegrar a Zena no mercado, mas, infelizmente, as pessoas já haviam interiorizado que ela era uma doente. Chegavam a dizer que era maluca. E assim ela ficou sem poder reviver seus momentos de glória”, disse Maria Cossa, amiga de Zena Bacar, da instituição que a agenciava, RAM Multimédia. Maria Cossa cuidou de Zena Bacar nos momentos mais difíceis.

Zena foi devota. Nasceu muçulmana, mas tornou-se cristã, preservando a indumentária macua e o seu estilo de vida. De tanto ser devota, doou os bens conquistados nos momentos áureos do seu grupo Eyuphuro à sua igreja. Isso aconteceu porque a cantora experimentou uma estabilidade social e financeira por via da música. Sempre a música. “Zena doou os seus bens à Igreja Universal do Reino de Deus. No princípio deste ano, ela pediu que a Igreja lhe devolvesse a casa. Ela não falou pessoalmente com a Igreja. Eu cuidei disso. E, pela boa-fé que a Igreja teve, devolveu a casa semana passada. Mas ela não teve tempo de voltar para a sua própria casa”, explicou Maria Cossa, acrescentando que a cantora esteve, muitas vezes, rodeada de pessoas de má-fé, como empresários que se aproveitaram não apenas dela, mas de toda a banda Eyuphuro. “Por exemplo, há à venda discos da banda Eyuphuro um pouco por todo o mundo, mas não sabemos para onde é canalizado o dinheiro. Nenhum membro da banda tem informação de nada”.

Depois de viajar por África, Europa e América, Zena Bacar passou por muitas dificuldades financeiras. Sobreviveu em condições precárias, em Maputo, mas não perdia o riso e esse sentido de mulher embondeiro, com os pés bem firmes na terra que se prepara para levar o seu corpo ao abismo.

Zena Bacar cedeu à morte, na madrugada de domingo, 24 de Dezembro, depois de ter passado mal por volta das 2h. Quando a irmã com poucas posses apercebeu-se do seu estado crítico, ligou para alguns familiares, que a ajudaram a encontrar um carro que a levou ao Hospital Central de Nampula. Já não dava para mais. Zena morreu pelo caminho.

A trilogia de uma carreira acentuada

Zena Bacar Ali é a figura de vanguarda dos Eyuphuro, uma banda formada em 1981, com vários êxitos que conquistaram os amantes da música nacional. Na verdade, ao lado de Omar Issa, Gimo Remane, a cantora levou a banda, que lançou seu primeiro álbum em 1990, intitulado Mama Mosambiki, aos ouvidos do mundo, com composições que oscilam entre o universo emakuwa e uma visão abrangente sobre a vida.
11 anos depois, em 2001,  Eyuphuro voltou à carga para lançar seu segundo álbum, intitulado Yellela, produzido por Roland Hohberg, nos estúdios da Mozambique Recording. A banda teve ainda o terceiro disco, 25 Anos, incluindo gravações realizadas nos estúdios da BBC.
Zena Bacar Ali nasceu a 25 de Agosto de 1949, em Nampula, local onde a morte a escolheu para se despedir deste mundo que não a soube manter em terra por mais tempo.

 

 


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