“Mundo Grave”: a normalização da anormalidade

“Mundo Grave”: a normalização da anormalidade

Por: Maria do Rosário Amaral, Prof., docente na Universidade Pedagógica da Beira

A obra “mundo grave” é uma narrativa policial. Considerado irmão menor das letras, o romance policial não é foco de atenção da crítica, o que leva, por vezes, ao equívoco de supor improcedente a sua análise.

Exposta a observação, foquemo-nos no livro. À semelhança de qualquer outro livro do mesmo género (lembremos Agatha Christie ou Conan Doyle e os seus investigadores Hercule Poirot e Sherlock Holmes), “mundo grave”, ainda que integre aspectos tanto do romance de detective como do de polícia, surge-nos estruturado de forma modelar e com normativos de todos conhecidos: um vilão (‘um vulto invisível’, inicialmente, e mais tarde sob o nome de “Azevedo Marroquim”) altera a ordem socialmente estabelecida, pela prática “do clássico crime perfeito” ou de vários crimes –, sobrepondo-se às leis ou à justiça, num ajuste de contas com o assassino, pela morte de uma prostituta de nome ‘Shonga’, que amara com paixão profunda e desenfreada, gerando o caos; um narrador que complexifica, adensa uma trama (dividida por vários capítulos e distribuída por duas partes), fonte de mistério, e deixa cair a dúvida, a incerteza e a hesitação sobre os ou o potencial infractor.

Um leitor entretém-se, mercê da sua própria lógica, a colocar as peças num puzzle que sabe, à partida, que só um detective ou um policial arguto – “Costley Liyongo” –, de discernimento invulgar, acabará por solucionar. É o narrador que se adianta ao leitor, sem que este dê por ela!

Um complemento à narrativa é-nos apresentado entre os capítulos vinte e oito e quarenta: o desvelamento dos antecedentes que determinam a morte da família do investigador. É a história dentro da história (a chamada “narrativa moldura”), sombras a si coladas, que contraem a obrigação de procurar no irracional a razão do aparente inexplicável e que a primeira parte deixa inconclusiva.

No relato da sequência de eventos procurou Pedro Pereira Lopes provocar, em quem lê, alguma estranheza. Transgressões às regras de pontuação, a lembrar, de algum modo, entre outros, o galardoado com o prémio Camões em 1995 e Nobel da Literatura em 1998, José Saramago, com o uso de minúsculas após ponto final ou parágrafo, ou após os nomes próprios, apelidos e as siglas das instituições; as vírgulas dobradas/aspas onde classicamente encontramos os dois pontos e o travessão. Podemos, então, falar do estilo do autor. Cada criador procura dar um cunho pessoal à sua obra, digamos, deixar a sua marca.

No “mundo grave”, Pedro Pereira Lopes insere o decorrer da acção num contexto que considera as próprias coisas, emprestando à diegese uma imagem verídica – o bar da casa da cultura no alto-maé, uma suite de hotel que ruía aos bocaditos, a frente do teatro gilberto mendes, a feira popular e a marginal ou a casa do capitão em Inhambane.

A visão da realidade também nos é dada pelo carácter de um autor que se exprime sem rodeios, de maneira crua, às vezes de digestão difícil, em temas que se sobrepõem. Um deles é o da pobreza – material e imaterial – e da sua integração no ambiente familiar. Com a conivência de todos, progenitores e descendentes, “Shonga”, aprende cedo a arte de sedução, do amor comprado e vendido, para ajudar a suprir as faltas na casa.

Formas de lenocínio podem ser encontradas noutras personagens: companheiros e companheiras mais velhas de “Shonga”, mas igualmente nos que supervisionam e coordenam acções de contra aliciamento, acabando por fruir da própria inércia e incapacidade das instituições, ou a de actuar à sua margem, p.65: depois do enterro, azevedo marroquim levou as cinco mulheres às suas casas. algumas moravam em tão remotos e novos subúrbios que o asfalto não existia, em um deles, que crescia sem alguma planificação do espaço, a água canalizada e a corrente eléctrica eram um sonho longínquo. azevedo pareceu condoer-se com o infortúnio daquelas mulheres, a vida era dura para elas do mesmo modo que fora para shonga.

Outra realidade subjacente à diegese é a da liberdade, mas também a do desregramento, da vida libertina, fronteiras ténues quando falamos da dualidade África – Eros. Ligada pelo cordão umbilical à terra fértil, fecunda, a menina africana chega cedo a mulher. E desenvolve-se agindo de acordo com as leis da sua natureza, igualando-se, nas pulsões, ao elemento masculino, a lembrar um tempo anterior aos imperativos de qualquer ordem, seja o da família – mesmo a alargada –, seja o civilizacional.

Uma das personagens do “mundo grave”, situa-a Pedro Pereira Lopes, sob o signo não da procriação, mas no da criação. Livre demonstra ser “Shonga”, quando recusa o papel (profusamente instituído em qualquer sociedade) de mulher e mãe, rejeitando qualquer dominação; ou quando, já não precisando do dinheiro para ajudar a família, mantém, por gosto, a prática da troca de favores. É a vida fascinante, temulenta, que suspende a eficácia das normas, que se acena ao leitor. É o puro prazer dos sentidos, é o dionisíaco e não o apolíneo, componente presente em todas as latitudes e em todas as épocas, aliás, tão velha quanto o tempo.

A vingança, por força do subgénero em que se inclui, é peça primordial de um jogo de que o leitor já participa desde que iniciou a apreensão do sentido do texto. Duas leituras se entrecruzam: uma, a das imagens primordiais, dos resíduos primitivos, da relação contingente entre o masculino e o feminino, que continuam a agir no seio da civilização; outra, paradoxalmente contrária, a do restabelecimento da ordem numa situação de desordem e que carrega consigo um dos elementos simbólicos que constituem o equilíbrio da convivência social, o do sentido de justiça. A inexistência de uma explicação, a ausência do nome de um culpado, mesmo que sem culpa, apenas presumível, é directamente proporcional à ineficácia da aplicação da lei. Um crime não pode ficar sem castigo.Com o objectivo de reduzir a impunidade desacreditando na polícia de investigação criminal, uma outra personagem vai eliminando, um por um, todos os que lhe parecem ser culpados, sem questionar, uma só vez, já não a legalidade, mas a legitimidade da sua actuação.

A par do plausível, crível, surge a temática canónica, do domínio do realismo mágico, que Pedro Pereira Lopes plasma ao longo de toda a intriga – a da crença, a do mundo da magia africana.

Uma forma primitiva de pensamento conduz o leitor pelo mundo do fantástico, pelas determinações eleitas por obra de um espírito que superintende, que guia as acções dos seres humanos e que exige obediência:

Pp. 61-62: “esta é a casa dos mortos!” (…) “deves procurar ajuda”, disse o velho.

azevedo marroquim assustou-se, estava sobre uma sepultura, o homem estava do outro lado …. “vai-te daqui enquanto tens tempo”

Pp. 222-223 [costley liyongo] telefonou ao curandeiro […] que perdeu ainda alguns minutos dissertando sobre os mortos [….] temos um problema … o amazimu ainda está entre nós e não vai parar enquanto não se sentir vingado.

P. 224-226: […] o livro de magia …

Totalidade dos capítulos 38 e 39:

P. 247: no mesmo instante, o curandeiro surgiu, […] e começou a dizer umas palavras sem sentido.

Não há pensamento crítico, não há lugar à capacidade reflexiva nem à discussão. Apenas um mediador, que interpreta o agir humano. A redenção, – algo que pertence ao foro do fenomenológico e não ao do ontológico –, a libertação do espírito que ficou cativo entre os vivos por uma morte fora do tempo próprio, é necessária, para a devolução da paz. O mediador, peça importante do xadrez, apenas sabe, intui e aconselha. A ordem tem de substituir o caos e assim se volta ao início da narrativa, devolvendo à terra-mãe, a materialidade, o corpo, e ao mundo dos mortos a imaterialidade.

Toda esta aparente insensatez nos é dada por Pedro Pereira Lopes, de forma criativa e bem-humorada:

Pp.193 e 194: o investigador meditava sobre a fonte daquela informação, afinal, ele mesmo tinha colocado um nome falso nos depoimentos, para fechar o número de clientes que shonga recebera horas antes da sua morte. logo que regressara de inhambane-céu, liyongo buscara pelos serviços de uma prostituta, e lhe calhara, ironia do narrador, a shonga, o resto é parte da história que lhes tenho estado a contar.

P. 203: [O director-geral da pic]: então o meu relatório! estou ansioso! Liyongo passou-lhe o relatório. [O director da pic] com um sorriso de felicidade, pensava que desta vez não lhe escaparia um alto cargo no topo do ministério do interior…era só por isso que pedira ao investigador, na noite anterior, o desfecho do caso na sua mesa.

Esta construção ou organização discursiva gera, em quem lê, uma espécie de serenidade ou aparente distanciamento, que não é, de todo, nem pacificador nem irreflectido. A ambiguidade humorística aqui patente não livra o leitor de um certo sentimento de inquietação, de um desassossego, pois aquém do riso há um incómodo que perturba e subsiste.

Transformar o pensamento em frases é uma arte e esta depende do talento de quem as sabe unir e dar-lhes sentido. Pedro Pereira Lopes está, indubitavelmente, entre os que o sabem fazer.


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