Mussa

“Vais ter de ir dirigir as nossas operações na Gorongosa”. Pausou para deixar tempo suficiente para a informação decantar.

“Perdemos contacto com o nosso homem. É possível que esteja preso ou...”. Ambos sabiam qual era a alternativa, mas era um bocado irresponsável dizê-la, não fossem as palavras capazes de dar vida a meros medos e desejos.

“Ficas responsável pelo Bucuta e Maurício. Eles não se podem governar”.

A oportunidade de trabalhar no teatro de operações era uma ambição longa de carreira. Apesar de ter sido preparado num curso de instrução militar, nunca tinha usado uma arma no mundo real e a noção de risco fascinava-lhe bastante. Assumindo que um bom soldado em circunstâncias similares seria estóico, esforçou-se por reprimir qualquer demonstração de emoção. Ainda assim, se lhe estava a ser confiada uma responsabilidade de liderança, pareceu-lhe adequado começar a comportar-se como tal e procurou obter detalhes sobre a missão.

“E o João?” Sem qualquer resposta, ofereceu uma sugestão.

“Está preso, não é?” Era inconcebível que João estivesse em liberdade e não tivesse sido ele o escolhido. Não era segredo para ninguém que João era o preferido do chefe para limpar borradas. 

“E quando ele sair, como ficará distribuída a tarefa entre mim e ele?”

“Não te preocupes. Ele não vai sair. Está morto”.

De um só trago, atravessaram-lhe duas emoções diametralmente opostas. Nunca tinha gostado de João. A informação da sua morte, porém, punha em perspectiva a missão que lhe era agora confiada. De alguma forma, ficou contente por saber que nunca mais uma oportunidade nessa vida lhe seria roubada por João. Fingindo matar um mosquito, ainda conseguiu vencer o impulso de um sorriso que se começava a desenhar no seu rosto. Os olhos, que têm a fama de não guardar a honra dos vícios da alma, começaram a reluzir, preparando-se para trair algumas gotas de honestidade. Levantou ligeiramente a cabeça e fixou os indisciplinados olhos no horizonte até que se sentiu suficientemente confiante para retomar o estoicismo que julgava ser a postura mais adequada para aquela embaraçosa situação em que a sua glória vinha anunciada sobre a desgraça de outros.

Recebeu o resto das instruções e, com sede de aprendiz, foi ao carro que, há pouco, lhe fora alocado. Era importante preparar o automóvel para a viagem que iniciaria no segredo da madrugada do dia seguinte. Já sozinho, na longa caminhada entre o contentor pré-fabricado que servia de escritório para o chefe e o estaleiro abandonado ? agora improvisado como terminal do espólio que dava corpo ao negócio que o empregava ? aligeirou o semblante ora adoptado na reunião e deixou-se consumir, sem reservas, pela alegria da promoção. Quando viu o dito carro entrou no sétimo céu. Era exactamente a Toyota Hilux que João usava para cima e para baixo, de segunda a domingo.

O carro cheirava a lavado. Desconfiado do aparente estado imaculado da viatura, inspeccionou-lhe o exterior, passando a mão sobre a chaparia, na tentativa de encontrar vícios imputáveis ao sonso do João. Jurou para a sua própria consciência que não era de propósito, mas odiava-o cada vez mais. O tipo era tão narcisista ao ponto de tomar o carro do serviço como propriedade individual: uma volta, água e sabão; um buraco, 10km/h. Cuspiu, o mais próximo possível do carro, a cólera que lhe atravessava os intestinos e sentou-se ao volante, decidido a mostrar como se usa coisa de dono. O que havia de se seguir era mensagem clara e inequívoca para o cabrão do João, ainda que só por meio do Espírito Santo chegasse ao destinatário.

O itinerário recebido do chefe sugeria três horas de viagem sem paragens. Entretanto, sem dó nem piedade da D4D, nem tão pouco dos seus rins, comandava o pé pesado no acelerador. Quando deu por si, já estava à vista a chapa azul de sinalização indicando aproximação à localidade de Púnguè. Recordava-se que fora informado que aquele local era o limite entre a civilização e a mítica selva da Gorongosa. Era ali que devia dar o ponto de situação da viagem. Fazer a chamada tão precocemente denunciaria, todavia, condução imprudente. Decidiu, então, parar e fazer tempo.

 

Nota do editor

Mussa é a primeira parte do próximo romance do escritor Manuel Mutimucuio. Uma vez por semana, concretamente às terças-feiras, o leitor vai poder ler, neste jornal, episódios inéditos de um livro que será lançado pela editora Fundza. Manuel Mutimucuio é autor de Visão e de Moçambique com z de zarolho.

 


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