Mussa (2)

Era, ainda assim, demasiado tempo para matar e caminhou à procura de uma cantina jeitosa. Estava garantido que se pedisse qualquer coisa sujeita a passar à transformação do fogo, teria de esperar um tempão. Naquele instante, isso era uma vantagem.

 “Desculpe-me, meu senhor, hoje não temos tosta mista”. Castigou-se por ter tido a ousadia de pedir iguaria tão sofisticada naquele vilarejo. Estava mesmo preparado para se retratar, mas a tostadeira no fundo do quiosque consolou-o. Para não ser condescendente, todavia, coibiu-se de perguntar se a maquineta funcionava. Decidiu-se por algo mais simples, desde que cumprisse a básica função de lhe restituir a reserva energética para um dia que estava repleto de incertezas.

“Acho que hoje não é seu dia, meu senhor, porque também não temos sandes de queijo”.  Irritou-se e sentiu a camisa colar-lhe as axilas. Para se acalmar, respirou fundo, apelou para o que ainda lhe sobrava de boa educação e fez mais um pedido. Desta feita, encorajado pela frigideira que aparentava estar pronta para labutar.

“Os ovos também acabaram”.

“Dê-me, então, uma sandes de manteiga”. Disse sem conseguir evitar que o tom acompanhasse a cólera que borbulhava no seu âmago. Se a paragem tinha sido somente uma astúcia para compensar pelo seu pé pesado no acelerador, a tragicómica situação estava a sair-lhe melhor do que a encomenda.

“Desculpe, meu senhor, mas não temos pão”.

Apeteceu-lhe esmurrar a servente, mas sentiu-se desarmado. Desconfiava que o facto de o ter tratado por “senhor” lhe tivesse descerrado os punhos, pois há muito que esta cortesia desaparecera do léxico coloquial da sua cidade, onde desconhecidos se tuteavam como se uma simples partilha de frustrações na bicha da ATM gerasse intimidade. Podia-lhe também ter freado a ira o entendimento de que a única culpa da empregada era ser a porta-voz da incompetência de gestão de algum patrão invisível.

“O senhor está com o Chefe João?”

“Quem?!” A pergunta era uma mescla de incredulidade e ameaça. Tinha sentido que no léxico da servente “Chefe”, era claramente superior a “Senhor”. O filho da puta do João tinha aí umas propriedades sobrenaturais! Parece que estava destinado a fazer-lhe sombra mesmo na irrelevância da morte.

“O Chefe João. O dono daquele carro castanho”.

Tinha muitas coisas por esclarecer. Respirou fundo e começou pela parte que pareceu mais fácil.

“Não, o João não está comigo”. Fez questão de colocar acento tónico no “Jo” para subentender que não era precedido de qualquer prefixo.

“O carro castanho hoje está comigo. Amanhã pode estar com o nosso chefe - o meu e o do João, ou qualquer outra pessoa da empresa. É carro do serviço”.

“Desculpe, não era para o senhor se zangar”.

Oh! Era mesmo pena que a juventude não lhe permitia desenhar as rugas de raiva para a empregada ver. Era inconcebível que, depois de ter estabelecido paridade hierárquica com o “chefe” João, a pobre senhorita insistisse em tratá-lo simplesmente por “senhor” - uma incógnita que se outorga a qualquer macho.

“Precisava, simplesmente, de confirmar que vem em nome do Chefe João”. Sem lhe dar as costas, a servente deu dois passos para trás, abriu a porta e expôs um mundo de vidas largas.

“Se ainda estiver com fome, é ali atrás onde o Chefe João, e alguns notáveis cá da zona, passam as suas refeições.”

Sentou-se à espera de ver a ementa do escondidinho do “notável chefe” João, mas ali não havia lugar para papéis. As únicas opções disponíveis chegavam à mesa sem qualquer comando prévio. Um guisado de uma carne estranha e uma bebida fresca sem o benefício de um rótulo servida num copo gigantesco de alumínio.

Desamparado e sem a mínima noção do funcionamento daquele lugar, serviu-se dos sentidos para determinar se aquilo que graçava a sua mesa era mesmo comestível. Não conseguiu estabelecer um paralelo para a bebida - qualquer coisa entre sumo e vinho, mas com cara de cerveja. Provou mais um bocadinho e quando pousou o copo, o empregado de mesa enigmático deixou ficar mais uma caneca, aparentemente sobra de uma vaga de vários copos que ficaram com outros fregueses.

O servente não lhe deu tempo para esclarecer qualquer dúvida. No mesmo rompante que chegou, evaporou. Reapareceu para servir mais canecões noutras mesas.

De esguelha, tentou ver se estava a ser observado. Sem surpresa, estavam todos de olhos postos nele. A única pessoa, cuja atenção era importante, continuava automatizada no seu figurino, carregando  pratos que, se a imaginação  serve de algo, eram do mesmo guisado que ele não tinha tido ainda a coragem de provar.

Com medo da desaprovação da audiência e, quiçá, da servente que o admitiu naquele círculo, certamente, restrito, deu uma valente trinca na carne e não foi em vão.  Era rija e se a não tivesse mordido com determinação, os dentes teriam, indubitavelmente, escorregado para a língua. Só de imaginar a sensação, dava calafrios. Não foi capaz de desfazer os músculos, mas deu para sugar o molho que se deixou espremer. Se a bebida era uma incógnita, da carne só faltava estabelecer a espécie. Era carne de caça 100%. Só rezava que não fosse porco do mato ou qualquer outra espécie da família suidae, pois, sem mesmo ser um muçulmano praticante, mantinha a crença da insalubridade física e espiritual dos suínos. E tudo quanto podia evitar naquela viagem de alto risco era a ira de um Deus não levado a sério nos seus mandamentos, os 10 e os esotéricos. Mas, na vida há momentos para salamaleques e há situações em que pela vida somos capazes de tudo. Sem saber dizer porquê, aquela ocasião subia ao pedestal do seríssimo.

 


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