Mussa (3)

Contrariamente ao que o seu juízo estava a sinalizar, começava a gostar daquele lugar. Do cheiro nauseabundo que o recebeu não havia memória. Já estava no segundo copo da bebida que preferia chamar “vinho da terra”. A carne continuava rija, mas, servindo-se do exemplo dos outros que pareciam cada vez mais próximos de si, mastigava e cuspia o bagaço no chão de areia. Não havia outra explicação lógica para o servente, incessantemente, continuar a distribuir pratos por todos os cantos da casa.

“Podemo-nos sentar juntos?”

“Estou tramado”! Cogitou em silêncio. Ao tentar manter-se calmo e encontrar a resposta adequada para o homem fardado, uma porção da refeição regurgitou pelas narinas. “Só pode ter sido aquela tipa que me armou esta cilada!” Como, de outra forma, explicaria a presença daquele agente da polícia em uniforme de pingo de chuva naquele local hedónico. E para adicionar insulto à mágoa, querendo sentar-se exactamente ao lado de si.

“Polícia aqui”. O agente estendeu a mão. Era terrível, no seio de uma refeição, ter de apertar a mão a quem quer que fosse, quanto mais a um desconhecido do qual se ignora os hábitos de higiene. Porém, o mais assustador era ter de revelar o nome ao mesmo estranho, o qual fazia questão de lhe recordar que o estava a ver era mesmo real. Ele era um agente da Lei. Convencido de que o agente já lhe conhecesse a identidade, rejeitou a ideia tentadora de inventar um nome, como tinha sido a recomendação do chefe na preparação da missão. Se havia de ser preso na mesma, preferia poder terminar a refeição em paz.

“Mussa aqui, Chefe. É uma honra ter a sua companhia. Na verdade, estava como um cabrito num novo curral.” Estava a repetir uma expressão cujo  significado ignorava, mas parecia auto-depreciativo o suficiente para gerar empatia.

O agente que já retirara a mão sem que tivesse permitido o aperto, talvez com as mesmas reservas que as do Mussa, sentou-se e, imediatamente, ocupou-se do beberete. A cada duas dentadas, levantava a cabeça, e sorvia a bebida, que parecia conhecer bem produzindo um som irritante de palhinha em copo vazio. Enquanto a pobre “cabanga” lhe fervilhava entre os dentes, os olhos inertes fixados no Mussa davam a sensação de gritar “do que estás à espera? Já foste apanhado. Desembucha!”.

Decidido a não voltar a morder a isca, Mussa curvou-se no seu prato e fingiu deleitar-se com uma refeição que já tinha proporcionado momentos mais agradáveis. Contra a vontade de ambos, porém, as tréguas foram de pouca dura.

“Camarada Comandante Distrital, importa-se”.

“Dr. Cubula, faz favor. Este lugar estava mesmo reservado ao nosso ilustre Procurador”. O chefe de polícia fez questão de afastar a terceira, de quatro cadeiras, da mesa, para o obséquio do recém-chegado. Deve, no entanto, ter sido excesso de zelo entre amigos, pois o procurador era muito baixo e franzino. O pouco volume capaz de exigir mais espaço entre a mesa e a cadeira era o fato caricaturalmente grande que trajava.

Mussa, ainda supostamente embalado na seriedade da comida, ouviu, com a precisão de soletração, cada palavra do diálogo dos homens da lei. Somou dois e dois e concluiu o óbvio. Só faltava o juiz para a consumação do julgamento. Com aquela maré de azar não podia haver santo que lhe valesse. “O cabrão do polícia não é um cizentinho qualquer que bebe com a imperícia de uma criança. É nada mais e nada menos que o chefe de todos os polícias. E o filho da mãe do Cabula, Cubala, o caraças! Sem dó nem piedade quer atirar-me o código penal aqui mesmo na barraca! Eu sei que (ainda) não fiz nada. A porcaria do João deve ter deixado muita merda antes de passar para outra! Não há outra explicação para reunirem toda a musculatura do Estado para o seu substituto”. Ainda cabisbaixo, Mussa buscou catarse em impropérios.

O procurador, já cômodo, adoptou o pacto do silêncio que encontrara e pôs mãos à obra. Do bolso da camisa, tirou um copo e colocou-o no cantinho superior esquerdo do espaço que lhe cabia na mesa. Do bolso esquerdo, tirou três telemóveis e colocou-os sobrepostos noutra extremidade.  Um embrulho em lencinho branco saiu do bolso direito. Com a destreza de quem já repetira o acto vezes sem conta, desfez o arranjo e de lá retirou talheres – uma faca de mesa, um garfo e uma colher. O servente enigmático parecia também estar familiarizado com o figurino. Da cozinha, trouxe um jarro e uma tigela. O doutor serviu-se, deu o gosto à língua e recordou-se de que o comandante não estava sozinho.

“Então camarada, não apresenta o seu amigo?”

“Se o julgamento já começou, é melhor eu confessar. Pode ser um atenuante”. Mussa pensou rapidamente e o polícia só lhe antecipou no discurso porque ainda estava a decidir-se pela melhor arrumação da história.

“Nada disso, pah. Quando entrei, olhei para os quatro cantos da casa e disse ‘aquele jovem bonito da cidade não me vai arrancar a arma se eu ficar grosso’”. Riu como um tresloucado com a sua própria piada. “Ou não era piada?!”

 


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