Mussa (4)

“Olá filha, tudo bem minha bebé?”. Era a terceira chamada telefónica que o chefe da polícia manejava entre a trituração da carne que há pouco fora desvendada como inhacoso. Mussa, como sempre, aproveitava o espectáculo gratuito das conversas em microfone aberto para melhor conhecer o dono da lei em Gorongosa. Confrontado, todavia, com um erotismo altamente progressivo, por boa educação ou talvez inveja, optou por desligar a sua antena figurativa e conceder privacidade à “filha”, mesmo que o “pai” indicasse não fazer questão.

“Bravo tango!” De boca cheia e com o vigor de quem falava com um velho colega de escola, o polícia embarcou para mais uma chamada. Mussa reactivou as suas antenas, mas de nada lhe serviram porque, depois do alfabeto militar, seguiram-se palavras, se bem que correntes, ininteligíveis a comuns mortais. A avaliar pelo semblante desinteressado do procurador, era, certamente, um código restrito aos homens da farda.

De telefonema em telefonema, o comandante estava feito operador de PBX. Dos três telefones do procurador expostos na mesa, porém, nem sequer um luzir discreto de uma notificação de mensagem. Embaraçado, a cada nova chamada do polícia, Dr. Cubula bulia com todos os seus três fúteis aparelhos. Mussa, que há pouco estava estarrecido com o poder da instituição que o magistrado representava, esforçou-se por dissimular a comiseração que agora sentia pelo homem cheio de nada.

Trim, trim, trim, o som era inconfundível, mas o tom marcadamente mais circunspecto. O chefe da polícia era chamado a opinar sobre o destino a se dar a um hipopótamo que “aterrorizava” as populações de Mapombwe, um bairro periférico da Vila da Gorongosa. A conversa em altifalante não deixava dúvidas sobre qual era a preferência do interlocutor do outro lado da linha, que parecia falar em nome da Reserva de Fauna Bravia (RFB), uma área de protecção natural adjacente à vila.

“A lei é clara. Se estiver em causa a integridade física das pessoas, o bicho será abatido sem contemplações”. Explicou o representante da Reserva.

“Que lei?! Lei das florestas? Lei da fauna bravia? Lei das reservas?” O comandante abanou a cabeça e cuspiu a sua cólera misturada com bagaço de inhacoso. Sem dar espaço à resposta que, certamente, não estava a caminho, prosseguiu. “Cá entre nós, sabemos que se o hipopótamo estivesse sob jurisdição dessas leis de animais, não teria ligado para mim. Estamos a ter esta conversa porque a sua autoridade acabou e na Vila da Gorongosa funciona a lei dos homens, cuja vida está em perigo”. Já em tom jocoso, sentenciou. “Quando esse hipopótamo dele atravessou os limites da RFB será que não sabia que precisava de passaporte?”.

“Às ordens, Sr. Comandante Distrital! Vamos abater o animal”. O conservacionista, relutantemente, traduziu o que julgava ser a essência do paleio do chefe da polícia. Ainda assim, decidido a eliminar as putativas motivações ulteriores do polícia, antecipou o desfecho da operação. “Como mandam as boas práticas, distribuiremos o despojo pelos aldeões”.

“Primeiro deve-se fazer uma autópsia”.

“Deixe-me ver se percebi bem? Autópsia para apurar as causas da morte?” Retrucou o naturalista.

“Sim, claro. Houve uma morte de um animal protegido por lei em espaço público. Não quero controvérsias no meu distrito. Gorongosa é fértil em matéria para jornalistas polémicos. Comigo nem pensar. Eu trato de tudo com a transparência das águas do Nhandar”. O polícia invocou o nome de uma das nascentes da Serra da Gorongosa para metaforizar a sua imaculabilidade.

“Tudo bem, comandante. Mas por que razão iríamos mobilizar os serviços de veterinária para uma necropsia de um animal que, sublinho, ainda está vivo, e só vai morrer porque nós vamos neutralizá-lo. De tudo quanto eu sei, o hipopótamo está em perfeitas condições de sanidade animal”. Se o sarcasmo era o forte do polícia, o representante da RFB ensaiou reciprocidade. “Bem, faço ressalva à saúde mental. Talvez se lhe regulasse o juízo teria mesmo permanecido na relativa segurança das fronteiras da Reserva”.

“Quem falou em Veterinária? Isto é um assunto de lei e ordem”. Não foi o escárnio que chamou a atenção do polícia, mas a mera sugestão de que havia domínios que ultrapassavam a sua autoridade.

“Não percebo, então, Sr. Comandante como pretende proceder?” O conservacionista devolveu a iniciativa ao líder supremo.

“Esta conversa já vai longa e não gosto de discutir assuntos de sensibilidade operativa pelo telefone. Encontramo-nos em Mapombwe dentro de uma hora para resolvermos esta questão de ameaça à tranquilidade e ordem públicas.


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