Na Bulgária não fomos... bulgaridade!

Junho de 1980. A Selecção Nacional de Moçambique viajou para a Bulgária para um estágio em pleno período de carências no país. O vôo era Maputo-Roma-Sófia. A partir daí, um estágio na pequena cidade de Sliven, com jogos em Plovdiv e Burgas. Ficaram espantados os anfitriões com o nosso nível e uma grande parte dos nossos jogadores foram “namorados” para ficar. Porém, as normas rígidas e as relações com aquele país socialista, não permitiam nem pensar em “saltar o arame”...

Em tempo de Olimpíada em Moscovo, a palavra solidariedade era dominante no nosso vocabulário. Um estágio na Bulgária, permitiria dar rodagem à nossa então fortíssima representação, num país em que eles pensavam que nós jogávamos com um bola quadrada. Enganaram-se.

Alguns episódios, que relembram aquela histórica deslocação, em tempo de três dólares/dia, dão uma ideia do potencial que tínhamos e que nem nós, possivelmente, sabíamos.

 

POR TERRAS ONDE POUCOS PRETOS TINHAM SIDO VISTOS...

Sófia é a capital da Bulgária. Na altura, com uns desbotados fatos de treinos, a Seleccão Nacional do nosso país, teve uma paragem de dois dias em Roma, contemplando um mundo de sonho, com tudo à disposição, porém inacessível devido aos exíguos três dólares/dia que nos eram concedidos. Vivíamos o tempo das carências, do carapau, como se dizia. Ninguém fazia ideia do que nos esperava. Eu era o único representante da Comunicação Social moçambicana e, simultâneamente, vice-presidente da CNAF.

Em Roma, muitos de nós optou pela “quarentena”, pelo simples facto de não interessar ver nas montras, coisas que tanto gostariam de ter, mas que os bolsos não permitiam adquirir. Tudo era lindo, mas inacessível.
Chegámos a Sófia, mas destino para o estágio, era Sliven, uma cidadezinha situada a mais de 600 quilómetros. Tudo novidade, para nós, mas também para eles...

O primeiro choque foi na primeira paragem, para nos refrescarmos. Aconteceu que os velhotes, espalhados um pouco por todo o lado, ficaram surpresos! E as reacções eram as mais díspares: uns queriam ouvir-nos, apreciar-nos e tocar-nos. Outros, fugiam a sete pés. Razão? Nunca tinham visto um preto nas suas vidas e, de repente, saíam do autocarro, duas dezenas deles. Houve ajuntamentos, com pessoas a quererem ter o privilégio de tocar nos estranhos visitantes.

Mais tarde, quando estagiávamos em Sliven, se algum de nós quisesse aparar a carapinha, isso transformava-se em algo inédito, só comparável com a visualização dos quadros de Malangatana.


SURPRESA NO PRIMEIRO JOGO

Mário Coluna, o Monstro Sagrado, era o cabeça de cartaz. Pela Selecção portuguesa, ele tinha, anos atrás, marcado e desfeiteado a maior glória do futebol búlgaro de todos os tempos, chamado Asparakov. Agora quem nós éramos, de onde vínhamos, que nível tínhamos, tudo era uma incógnita.

Fomos ao primeiro teste. Uma surpresa, para nós e para eles. Chegámos a uma vitória por 3-1, sem colocar “o pé no acelerador”.  A partir daí...

Tínhamos um tradutor, um jovem que aprendera português no Brasil, adepto/admirador confesso do Monstro Sagrado. Foi-nos dando as dicas. Afinal antes eles pensavam que éramos “moleza”!

O teste a seguir seria para valer. Aconteceu no Estádio principal de Sliven, cheio como um ovo. Antes do início da partida, os microfones anunciaram a presença de Mário Coluna, a estrela que “desgraçou” a Bulgária no Campeonato do Mundo de 66.

O Monstro Sagrado levantou-se perante forte ovação e muito ao seu jeito, fez o seguinte comentário para o seu adjunto, Cremildo Loforte:
Ó Minhoca, levanta-te, aproveita a minha boleia, para seres também aplaudido!
É claro que o “mister” em alusão, não fez mais do que sorrir e limitar-se à sua – na circunstância – insignificância.

A partir daí, o nosso prestígio cresceu. Ninguém, na Bulgária, imaginava que uma ex colónia de Portugal, tivesse um plantel com tantas estrelas. Provavelmente, nem nós.

Quem eram os craques? Isaías e José Luís, na baliza; Defesas: Joaquim João, Artur Meque, Aurélio, Chinguia, Mandito e Frederico; médios: Artur Semedo, Dover, Rui Marcos e Carlitos; avançados: Lucas Barrarrijo, Chababe, Calton, Gil, Miguel e Cossa.
É preciso dizer mais?
Fizemos mais três jogos, perante super-reforçadas equipas. Mais a verdade é que deixámos, em terras búlgaras, o perfume do futebol moçambicano. Por eles, metade da nossa equipa ficaria por lá, bastando assinar os papelinhos do contratos que chegaram a ser propostos.

 

GIL MILANDO CHEIO DE “LETBAS”

Apesar da minha condição (sempre) de jornalista, pertenci à primeira Comissão Nacional de Árbitros. Foi também por isso que viajei. Comigo, o antigo juiz, Gil Milando. Grande árbitro, grande homem. Falecido há uns anos... que Deus o tenha!

Pois o nosso árbitro não deixou os créditos em mãos alheias. Apitou vários jogos, deu palestras, brilhou! O tempo era o de “troca de experiências” e ninguém pensava em remunerações.

Daí, a surpresa:
Uma tarde, o nosso intérprete do búlgaro-português, veio chamá-lo, para receber o pagamento das arbitragens que fizera. O Gil, tendo em conta o contexto, não quis aceitar os valores, em “letbas” (moeda local), dizendo que apenas tinha vindo para “ganhar experiência”. Fui chamado a intervir. Coloquei depois a questão ao chefe da delegação, Mário Coluna. A sua resposta:
Diz lá ao Gil Milando que se não quer o dinheiro, eu vou receber por ele!

O Gil acabou recebendo a “montanha” de dinheiro que estava à sua frente. O que fazer dele? Decidiu que iríamos desfrutar em conjunto. A partir daí, um agradável problema. Não tínhamos a noção exacta dos valores. Daí que gastássemos o dinheiro a comprar coisas básicas, que eram baratas e por isso, recebíamos trocos e mais trocos. Um problemão gastar de imediato tanto dinheiro que não valia noutro sítio.

No fim, lá conseguimos “livrar-nos” da mola, trazendo para o país, qualquer coisa como quarenta e tal caixas de....fósforos!


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