Na onda de Mar me quer

O homem é sempre tímido perante a mulher que se deseja

João Salva-Rey

Mar me quer é o título do espectáculo teatral do grupo Girassol, em exibição no Teatro Avenida até 28 deste mês. A peça é adaptada (e encenada) do texto dramatúrgico de Mia Couto, por Joaquim Matavel, igualmente mentor do Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI), que se realiza anualmente em Maputo.

Nesta versão do Girassol, essencialmente, fazem Mar me quer três personagens: Zeca Perpétuo (Horácio Mazuze), Luarmina (Albertina Guilaze) e avô Celestiano (Rafael Vilanculos), uma entidade que aparece em momentos específicos pronto para ajudar o neto a avassalar a sua amada casmurra, a esmerar-se em não ceder o coração ao miúdo que afinal ama, do seu jeito, contra todas as expectativas.

Aí nas tentativas de Zeca armar-se de argumentos, actos e jogos de sedução amiúde direccionados à vivida Luarmina, na verdade, instaura-se na trama uma espécie de relação Édipo e Jocasta, em que um filho apaixona-se por uma mulher que foi do pai, antes dele partir. No entanto, ao contrário de Rei Édipo, de Sófocles, Mar me quer, de Girassol, não é uma história trágica, sangrenta ou de vinganças, é uma história de amor infinito, aparentemente genuíno, pueril às vezes, na qual, como nos sugere o narrador de Ku femba, um dos melhores romances da literatura moçambicana publicado no período colonial, da autoria de João Salva-Rey – falaremos mais deste grande autor e do património que deixou para Moçambique oportunamente –, o homem, de facto, é um ser tímido perante a mulher que deseja.

Ao mesmo tempo que Mar me quer explora a obsessão amorosa do imberbe Zeca Perpétuo por uma Luarmina idónea, alicerça-se no poder que os mais velhos insistem em ter na vida dos jovens em contextos rurais. Com isso, avô Celestiano ganha no enredo um protagonismo que faz dele um conselheiro e invocador das façanhas dos antepassados. Celestiano é a ponte dos afectos entre Zeca e Luarmina, mas também entre o amor e a tradição, sua matriz identitária e do seu querido neto céptico em relação ao conhecimento ancestral. Assim, o rapaz vai inventando subterfúgios para contrariar os conselhos do velhote, quiçá por isso condenar-se ao masoquismo que se robustecesse à medida que as suas investidas rumo ao coração de Luarmina fracassa. Desse amor indeciso, a fugir do efeito de lês-a-lês, à beira mar, emana obrigatoriamente um discurso poético e filosófico entre o casal imperfeito. No caso de Zeca, para persuadir e dissuadir simultaneamente; no caso de Luarmina, para resistir e sustentar a vaidade de ter o seu amado por perto, paradoxalmente. É nesse particular, aliás, que fica explícito ser este espectáculo com bom cenário uma adaptação de um texto de Mia Couto. O nível de conversa entre os “pombinhos”, a construção frásica, a reinvenção semântica com recurso a neologismos, claro está, devolvem o espectador ao poder criativo daquele autor, todavia sem o desprender da encenação – a peça peca por ter um fim demasiado brusco.  

Portanto, este Mar me quer do Girassol é uma peça de mistérios, em que o amor está lá para revelar a importância do passado no presente das personagens e, em última instância, das pessoas. O espectáculo, de forma recorrente, mostra como o passado pode ser um factor decisivo no futuro dos sentimentalistas e das relações. De igual modo, ao invocar o passado de Zeca e Luarmina, Mar me quer questiona-nos, colocando-nos a pensar sobre o certo e o errado, medindo o peso do amor, a sua capacidade de resistir ao preconceito.

 

Título: Mar me quer

Autor: Grupo Girassol

Teatro

Classificação: 14


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