Não me viste? É mentira tua!

Cobarde, o mundo é cobarde! Ele viu, vê e verá. Mas nunca intervém.

Minha mãe, a senhora Fátima Mendes, morreu vítima duma destas doenças chiques e modernas. Não sei bem se é ABC, AVC ou ADC, mas é por aí que ouvi meu tio José Oliveira falar para a tia Sandra.

Em casa eu vivia com Tio José e meu pai, o senhor Alfredo Afonso. Na verdade eu tomava a ambos como meus pais, é assim que eu era tratada. A princesa da casa. Meus dois pais eram uns amores inimagináveis.

Meu pai era médico no Hospital Central de Maputo, escassos metros de casa. Meu tio José era gerente duma pastelaria também perto de casa e é lá onde eu almoçava sempre que a dona Anastâcia, a secretária, não viesse.

Acordar encontrar a casa cheia de solidão. Limpar-me e tomar o pequeno-almoço acompanhada pelo Mickey Mouse. Esta era a minha rotina, pois mesmo vindo, a secretária chegava às nove, depois do pequeno-almoço.

Uma menina de quatro anos como eu era e com um pai que não me queria misturada com outras na creche só podia ser abalizada no que respeita aos bonecos animados. E eu era de facto.

Com volume do televisor alto, super alto. Neste dia eu só queria ver videoclips na GloomChannel. Passava naquele momento o vídeo dum cantor moçambicano que canta em Changana e apesar de não entender eu gostava das suas músicas, tal de Bawito.

Então ouvi um barulho desusado nas músicas daquele ídolo. Mas pouco me importei. Além de ser criança para me preocupar, eram naturais as surpresas quando o assunto fosse música daquele senhor. Outra vez o som.

Como nunca tinha sentido em minha casa, eu estava em pânico e angustiada. Quem seria se eu tinha feito a ronda habitual para me assegurar que apenas a solidão e eu estávamos ali.

Um senhor branco, cabelo longo (parecido com Jesus), mal vestido e com dentes podres estava na minha frente. A janela estava arrombada. Meu medo estava estoirado. Orei Pai Nosso, Ave Maria e todas outras aves possíveis.

Sarcasticamente ele sorriu expondo a podridão dentária. Fiquei enjoada. Levantou a mão e fez um movimento alternado com os dedos como quem estava a saudar-me. Correspondi exactamente do mesmo jeito, como via meninas portuguesas a fazer na TV.

Com lágrimas no rosto, eu pedi àquele senhor que deixasse a casa senão eu gritava. Um pedido que ele anuiu sem pensar duas vezes... Quem imaginaria que ele seria tão compreensivo quanto à saída de casa? Mas de seguida formulou-me um convite, queria sair junto comigo.

Até achei “fixe” a ideia. Eu nunca saía e ele queria me levar para ver o sol. O problema é que eu queria ver Gomby na JimJam às nove. Ele garantiu-me que veria noutra ocasião. Mas recusei porque ele assustava. Aí ele fez o que lhe competia, carregou-me.  

Com pessoas passeando normalmente na rua. Soltando gargalhadas e carros aos roncos. Tudo estava em 360º para mim. Girava no colo mal cheiroso daquele tio. Eu gritava chorando. Pedia socorro. Todos ouviam e viam-me aos gemidos, mas olhavam e apenas continuavam a “exaltar a pátria”.

Houve até quem se aproximou, depois disse que pensou que estivesse sozinha, mas como eu estava com um adulto branco então estava tudo bem. Eu estava aos gemidos, aos gemidos! Por que mais uma criança gemeria senão de dor? Por que aquela senhora não se preocupou? E se fosse filha dela?

Já tinha ouvido que andavam uns senhores que raptavam crianças para retirar órgãos para fins tão ilógicos como tirar vida de alguém para salvar outra. Isso assustava muito.

O senhor que me carregava deixou-me num carro com vidros transparentes. Como se eu fosse sua filha. Eu chorava desesperadamente. Todos viam, mas ninguém dizia nada. Pedi ajuda como nunca. Num instante o senhor ficou mais chateado e eu fiquei mais apavorada. Pavor que crescia proporcionalmente aos gritos.

Agora éramos dois aos gritos. Ele gritava para que eu parasse de chorar porque queria ouvir música. Eu decidi que iria calar, mas o choro estava mais forte que a minha decisão. O senhor dos dentes podres decidiu ser generoso e ajudar-me a calar. Calou para sempre com uma chapada na cara. Tão dolorosa que não resisti e fui embora. Matou-me na rua. Todos viram, mas ninguém vai assumir. Cobardes!


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