Nas mãos de um ladrão!

Encontro-me sentada na sala de recepções da penitenciária industrial, frente ao Virgílio Calado, homem alto, bigodes grisalhos e cabelo de gato molhado. Os cinco anos passados naquele estabelecimento prisional, fizeram-no um homem imperturbado e atencioso.  

Virgílio Calado, alto funcionário público, viu-se envolvido num escândalo que custou-lhe àquela custódia prisional. No meio deste infortúnio, foi-lhe confiscado os seus bens: duas luxuosas mansões, três viaturas e uma quinta de criação de gado. 

A sua esposa, dona Amélia Macuácua, vista naquele desespero, amantizou-se e fugiu com o advogado deste e, para maior frustração do encarcerado, levou consigo os seus dois filhos.

A família do arrendador chegou-se a mim e propôs-me a compra da casa. A residência proposta para a compra, da qual eu era inquilina há três anos, safara-se por estar legalmente registada em nome do seu sobrinho, o Ernesto dos Reis Calado, um pilha-galinhas que ascendeu a líder nos meandros de crimes. Era uma esplêndida casa, sita numa pacata avenida de frondosos arvoredos, às vezes agredida pelo melódico silvo dos pássaros, com condições favoráveis para, eu, Catarina Mesa, continuar a levar, naquele equilíbrio, uma vida de nível depois de divorciada do Engenheiro João Lobato.  

Calado passava horas escrevendo e de noite, encomendada não sei de quem, lia a qualquer coisa que lhe embebedasse o sono.

Mas o que este escrevia?

Era lavrador de palavras.

Punha vida nas palavras, magnificamente!

Vi.

Com os meus próprios olhos.

Dava as palavras em casamento e, neste enlace com o belo, nasciam poemas, prosas, prosas poéticas. Inacreditáveis estórias. 

– Nesta prisão que para mim já não é prisão, descobri a verdadeira liberdade: a liberdade de libertar a alma e o espírito, escrevendo. – Confessou-me Virgílio, imperturbável, num timbre que marcava a sua voz, poderosa. – Pretendo vender a casa para ressarcir aos cofres do erário. – continuou, firme de corpo e alma.

– Fui notificada para isso. E estou disposta a compra-la. 

– Muito bem. Pelo menos não nos daremos ao trabalho de procurar clientes, já que temos a ti para o efeito.

– Começamos com o processo amanhã. 

– Certo. Trate disso só comigo. Traga amanhã os primeiros rabiscos do contrato de compra e venda. Subsequentemente teremos as versões finais das quais iremos rubricar e mandar ao cartório, para o devido reconhecimento.

– Senhor  Calado, o enfrentei, pelo que eu saiba a residência está registada em  nome do seu sobrinho.

– Ernesto dos Reis Calado, o sangue do meu sangue. – Apurou. – Mas a residência é minha.  

– Primeiro, o senhor Calado está legalmente interdito de executar qualquer transação jurídica ou económica, pela situação em que se encontra.

– Certo.

– Segundo. Por estar legalmente em nome do seu sobrinho, terei que proceder toda a  transação com ele.

Virgílio Calado amarrou as rugas e os seus olhos, pequenos e luzídios, mas de grandes dizeres,  arderam em chamas.

– Não confia no seu sobrinho? – Provoquei.

– Não confio naquele ladrão!

– Como, em não confiando, o senhor registou uma casa daquelas em nome dele? – Insisti a colocar-lhe o dedo na ferida.

Calado puxou a cadeira para mais próximo de mim, passeou nos meus olhos e, em voz baixa, serena, disse:

– Foi em não confiando que eu confiei nele.

– Como assim?

–  Os bens ficam mais seguros nas mãos de um ladrão.

– Ora essa!

– Acredite! 

 

 


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