Necessidade versus liberdade em África

                                      “Ó África, surge et ambula!”

                                        Rui de Noronha

Quão vil torna-se o homem quando consagra grande parte da sua existência à luta pela satisfação das necessidades biológicas. Um homem, quando forçado a prostrar a sua dignidade para apanhar o pão da vida, prova para consigo mesmo que o mais importante não é alimentar-se para viver, mas viver para alimentar-se, independentemente da cruel realidade que o obriga a portar-se desta maneira.

Isto porque a dignidade e a honra exigem uma constante louvação, não importando as circunstâncias adversas em que o homem se encontrar. E afigura-se-me que quanto mais desfavorável mostrar-se uma determinada circunstância para prática de um acto nobre, mais irradiante revela-se a dignidade humana quando preferida.

A dignidade, definida como amor-próprio ou sentimento que demarca o homem como fim do homem como objeto, mais se destaca em situações deploráveis onde parece mais fácil para um indivíduo salvar-se reduzindo o seu ser a um animal. Não há, portanto, desculpas perdoáveis quando um homem decide comprometer a sua dignidade, ainda que seja pelo amor à sua própria vida. A dignidade é uma substância inerente ao ser humano. Não há como feri-la sem ter de violar o valor de pertencer à espécie humana.

Nestes moldes, o ser escravo de um senhor ou de um vício qualquer constitui uma violação da dignidade humana, pois alguém nesta condição está condenado a ser tratado como um meio e não como fim. E é pela necessidade que o homem incorre no risco de reduzir-se a um ser desprezível. Por isso, nada é mais dignificante que a luta para ser um homem livre.

A liberdade como princípio interno de uma acção é o que melhor expressa a dignidade de um ser humano. Quanto mais livre é o homem, mais nobre ele se mostra. E quanto mais necessitado o homem se apresenta, mais ignóbil ele se comporta. Eis a última condição deplorável em que os povos africanos se encontram. Ainda com sérios desafios de satisfazer necessidades biológicas, os povos africanos têm ainda uma longa marcha para alcançar o estado de liberdade tanto material como espiritual.  A prova destas observações esta no facto de tratar-se de um continente com elevado índice de corrupção e baixo civismo.

Aqui não se trava a luta pela honra, mas a luta pela sobrevivência. E não há classes quando se trata de corrupção que acomete o pobre vendedor ambulante e o endinheirado político. A África ainda carece de um espírito de progresso colectivo. As nossas principais preocupações continuam a ser estomacais e os nossos sonhos ainda locais, sem uma educação certa para transgredir as barreiras socioculturais que, além de nos separar, nos rivaliza um contra outro.

A extrema pobreza e outras necessidades pesam tanto sobre os ombros dos povos africanos que mal se dão luxo para pensar a liberdade como uma ideia a ser concretizada ao nível colectivo. O diário de um homem africano é de uma escravidão estomacal que se resume em batalhar mais de oito horas por dia para conseguir o pão para si mesmo e à sua família, sem tempo para pensar a política e o dever de juntar-se ao outro para manifestar-se.

Com instituições frágeis e aglutinadas que servem a ordens superiores e não à lei, a ínfima luta pela liberdade é recorrentemente reprimida com brutalidade em África. Apesar da violação dos direitos humanos, toda e qualquer luta pela liberdade vale profundamente quando desperta consciência cívica ainda que seja na cabeça do indivíduo menos letrado da comunidade. O estágio final da evolução da humanidade é a liberdade plena que passa pelo desprendimento de necessidades na sua forma escravagista.

Há, portanto, maior necessidade de nunca se folgar nem tampouco quando se trata do combate pela ideia de liberdade. E nesta luta, somente é tenaz aquele indivíduo que atingiu uma concepção transcendental da ideia de liberdade ao ponto de não mais necessitar de motivações extrínsecas para aderir a uma causa social. O motivo que o leva a militar pela liberdade deve ser intrínseco à sua existência de tal forma que o seu compromisso com o mundo a ser reinventado seja inabalável.

Quando se milita pela liberdade ou por outro qualquer valor, numa circunstância em que a motivação advém de factores exógenos, toda a luta não tarda em mostrar-se pueril e viciada. Todo e qualquer indivíduo que sai à rua para protestar pelo aumento do preço do pão é mais fácil de ser silenciado que aquele indivíduo que protesta contra a disfunção de um todo sistema. Ao primeiro protestante é fácil de conter-se-lhe o grito, bastando baixar provisoriamente o preço do pão e elevando o de outro produto. Ou ainda, este protestante é passível de ser subornado, desde o momento que o dinheiro a ser usado lhe seja suficiente para comprar quantos pães ele quiser e ainda lhe sobrar. Ou seja, a sua luta contra injustiça termina quando o seu estômago é satisfeito. 

Ao contrário deste primeiro, o outro protestante tem em vista não a solução imediata do problema, mas uma solução duradoura – para não dizer definitiva – que parte da raiz do problema. Ele entende que a subida do preço do pão é o efeito de um sistema político-económico falhado, por isso, mais vale de uma vez por todas, lutar pela sua queda total ou parcial. De nada adianta o abrandamento do preço do pão, quando as políticas de emprego são inviáveis ou o salário mínimo continua insustentável. A luta não deve ser, por conseguinte, contra o preço de pão, mas pelas reformas políticas que proporcionam melhores condições de vida a longo prazo.

Quando as lutas sociais são direcionadas às causas primárias do problema, as mudanças que se operam são definitivamente substanciais. E, quando se atinge a causa primeira de um problema, a luta deixa de ser trivialmente empírica, passa a ser transcendental no sentido de estar a debater-se não mais com factos corriqueiros, mas com modelos defeituosos e reprodutores de acontecimentos nefastos.

A luta dos civis em África deve progredir até esse nível transcendental, quando se pretende um atalho para estado da liberdade em que os homens se tratam como fins e não meios. Enquanto não despertarmos o mais cedo possível esta consciência, estamos, como civilização, fadados a uma evolução lenta própria da natureza. Tocqueville dizia que as sociedades do mundo estão condenadas, consciente ou inconscientemente, a uma mudança progressiva. Marx também dizia o mesmo, porém, sem deixar de verificar que quanto mais se ganha a consciência da necessidade de mudar, mais rápido é a própria mudança.

Mais do que nunca, a África precisa potenciar o escasso conhecimento que tem em prole das massas. Os letrados devem sentir-se no dever de prestar o serviço público a comunidades e lutar pela expansão de espaços políticos, a todo custo.

A liberdade nas sociedades africanas depende muito do nível do compromisso que as pessoas têm com a democracia. E, no geral, este devia ser o comportamento universal de todas as sociedades que se querem livres, pois só num mundo onde as pessoas são livres de fazer o que lhes manda a vontade pode se presenciar o espírito pleno da felicidade.

Hélder Augusto

O Inconvencional

(tsembah@gmail.com)

 

 


 

 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique