No cimo do SIMO há muito limo

Foi tudo rápido! As caixas automáticas decidiram tomar um sonífero e dormir no meio de ruas como mendigos. Dormem em todos cantos do país e os guardas são os únicos que vigiam seu sono. Pararam de cuspir nossas notas e as pequenas facturas que nos mostram o pouco que temos em nossas contas. E já nem arrotam e nem rugem como leões, Simbas bravos perdidos no meio da cidade. É a primeira vez que as máquinas decidiram entrar num sono profundo. Estão num sono tão profundo que nem roncam! Como roncariam sem o famoso SIMO? Coitado das nossas caixas.

Escrevo este texto pensando no que sonham as nossas caixas automáticas. Será que sonham com o nosso dinheiro que lhes embalam o sono e serve de almofada? Ou sonham com uma botija de SIMO reactivando-lhes a vida, fornecendo-lhes energia nos músculos para poderem acordar desse sono, ou sonham dizendo-nos as notas que estão disponíveis ou segredando-nos para não esquecer os nossos cartões.

Ou talvez sentem saudades das suas bocas abrindo-se, como hipopótamos eléctricos, a todo momento, para entornar um recibo enrolado ou notas bem lisas e velhas. As bocas das nossas ATM quando se abrem recordam-me as dos crocodilos, do jardim, pescando moscas nas ondas do ar.

Talvez as nossas caixas sentem saudade do homem que chega cantando com a guitarra do assobio, que pressiona em seus botões com raiva e tira-lhes, sem mínimo de cuidado, uma nota de cem meticais; talvez sintam falta do velho que lhes toca os botões com delicadeza e pede ajuda para tirar as notas velhas como ele. Ou da moça de unhas pintadas que carrega nos botões com cuidado para não manchar as paredes pintadas das suas unhas. A mesma moça que tem a conta nutrida mensalmente por contas alheias.

É tanta coisa que me ocorre sobre o sono das nossas caixas. Ou sentem falta da senhora que deposita vinte meticais e sai correndo do banco para verificar o seu saldo. Ou daqueles malandros que desviam cartões e fazem macacadas para sorver, como esponjas, o dinheiro alheio.

Viraram órfãs as nossas caixas; falta-lhes uma fita de luto na roupa que vestem. Ninguém se aproxima deles para lhes dar um abraço e pedir as suas notas. Suas bocas secaram e nem têm um pingo de saliva para fazer deslizar uma nota. Não há filas armadas de cartões em frente às nossas caixas e nem há aqueles homens rudes que espreitam um buraco na fila e logo metem suas barrigas.

Talvez as nossas pobres ATM sintam falta de nossas filas longas ao sol, da nossa impaciência para retirar o cartão, dos nossos suspiros carregados de bolhas de saliva sobre suas caras, dos nossos dedos, indicadores, carregadas de unhas sujas, das nossas manias em fazer-lhes engolir os nossos cartões mesmo informando-nos que não estão bem-dispostas, da nossa rudez em retirar o nosso papelinho de saldo e rasga-lo na hora, nas suas caras movidas por imagens publicitárias.

Dormem as nossas caixas. Descansam o sono acumulado das sextas-feiras, dos feriados nacionais; repousam as transferências cansativas em todo país e o cansaço de ficar de pé, distribuindo notas, aos finais do mês. Não há SIMO e as nossas caixas descansaram os nossos cartões sujos, partidos nos cantos, com rugas em toda parte e tatuados de assinaturas mal escritas nas costas. Quantas vezes foram insultadas as nossas caixas quando a febre do sistema ataca o seu funcionamento normal? Quantos pontapés e pancadas oferecemos às pequenas telas das nossas caixas quando decidem acelerar a digestão engolindo os nossos cartões?

Quando a botija de ar, cheia de SIMO, chegar ao cimo das nossas ATM, elas acordarão e, assim, voltarão a sua rotina normal de nos distribuir dinheiro como mendigos estatelados ao pé de uma mesquita. Estamos no cimo do SIMO e percebemos que há muito limo. Coitado das nossas caixas e de nós. Foi tudo rápido. As nossas caixas automáticas decidiram tomar um sonífero e dormir no meio de ruas como mendigos. Dormem em todos cantos do país e os guardas são os únicos que vigiam seu sono.

“Bons sonhos, queridas caixas. Espero que despertem logo, porque muita gente não apanha sono em seus lares”.


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