No dia em que vi a Nicole Kidman arrebatadoramente nua

A Nicole Kidman estava devastadoramente bela! São incontáveis os meus idílios com actrizes. Nessa tarde, nem as minhas mais ingentes fantasias seriam capazes de estar à altura daquela vertiginosa imagem da musa australiana. Eu acabara de a ver nua em De olhos bem fechados, do mítico Stanley Kubrick, e estava ainda atordoado com o sublime enlevo daquela hierática silhueta. Estávamos no final do Verão de 1999 e fora a Braga participar numa feira do livro. Antes de começar a actividade literária que me levara àquela cidade, fora ao cinema. Essa película tinha sido a última obra do realizador de Spartacus e Laranja Mecânica. Kubrick morrera em Março desse ano, mal acabara de montar o filme. Nesse mesmo dia, conheci o escritor português José Manuel Mendes. Um texto dele (“Até amanhã”) havia empolgado a minha juventude. Era de uma beleza lancinante. Lera-o aos 17 anos, em 1984. Lembro-me ainda hoje de como começa: “Lembras-te, Cristina? Na Gandarela tudo foi verde.” Por alguma razão, durante anos, quando o recitava, em vez de “verde” dizia “azul”. Porque será? Não imagino. Deve estar no desígnio dos deuses.

Ontem, demorando-me entre os meus livros, A Semente nas Palavras, uma vetusta antologia que recolhia aquele texto, surgiu-me, de chofre, ressuscitando o jovem de 17 anos que a lera com fervor. Para além do José Manuel Mendes, havia ali textos e autores importantes: Alves Redol, Fernando Namora, José Cardoso Pires, José Gomes Ferreira, José Saramago, Maria Judite de Carvalho, Maria Ondina Braga, Santos Simões (que não conhecia e de quem nunca mais ouvi falar) e Urbano Tavares Rodrigues.

Eu lera pouquíssimo Alves Redol, conhecia sobretudo os livros de Fernando Namora. Havia lá em casa dos meus pais alguns dos seus livros: Retalhos da Vida de um Médico era um deles. Na época, José Saramago não escrevera nem publicara os seus mais importantes romances: Memorial de Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis ou História do Cerco de Lisboa, para referir aqueles que mais me arrebataram. Cardoso Pires já tinha publicado alguns livros importantes, como O Hóspede de Job ou O Delfim. Escusado será citar Os Caminheiros e outros contos, de estreia, de onde saíra o belo conto que consta na referida antologia: “Uma simples flor nos teus cabelos claros”. Mais tarde, veio a Balada na Praia dos Cães ou a Alexandra Alpha.

Conheci o Cardoso Pires e fui amigo dele. Vezes sem conta fui almoçar a sua casa em Alvalade e era fascinante ouvi-lo. Também conheci o Saramago. Não posso dizer que fui amigo do Nobel português, mas ele foi de uma grande e impagável generosidade para comigo. Outro escritor que estava na antologia e que eu lera e que cheguei a conhecer foi o Urbano Tavares Rodrigues, que já tinha uma obra significativa. Eu lera, naqueles anos de juventude, A Noite Roxa, e ficara com uma admiração sem tréguas pelo escritor. Emprestei este livro a uma das minhas irmãs e nunca mais o vi de volta. Ao emprestar livros corre-se sempre esse risco. Conheço gente que não empresta livros por isso. Eu já tive de comprar novas edições para repor livros desaparecidos. Mas não é a mesma coisa. Temos por vezes não só pelo conteúdo mas pelo objecto uma certa predilecção. O significado dessa alquimia é por vezes intransferível. É aquela edição e não a outra que tem determinado significado. Ainda hoje penso naquela edição de A Noite Roxa que se extraviou. Do José Gomes Ferreira lera a sua poesia, sobretudo.

Mas retornemos ao belíssimo texto de José Manuel Mendes, “Até amanhã”, um texto marcadamente político, uma escrita incondicionalmente engajada. Tanto o autor, como alguns outros, caso de José Saramago, eram membros do Partido Comunista Português. A minha edição data de 1977, tinha havido uma anterior, de 1973. O que me fascinou naquela escrita foi o cruzamento entre a luta e o amor, foi a poesia na textura da prosa, não obstante o seu tom algo panfletário, o que não me incomodava. Em 1984 vivíamos nós os anos da revolução, antes do refluxo ou do ocaso que acontecerá no final dessa década única da nossa história. Hoje trata-se de uma realidade e um contexto dissolutos. O texto, este texto do José Manuel Mendes, era construído a duas vozes, a do Paulo e a da Cristina, vou citá-los aqui, identificando-os, como personagens e suas falas.

Paulo: “Lembras-te, Cristina? Na Gandarela tudo foi verde. As árvores, copas resfolegando de vento, e os olhos dos amigos. A própria noite, Cristina, a pálida epiderme das luzes, as palavras do Octávio Pato, rijas e enternecidas, entre o cansaço e a coragem.”

Cristina: “Que feliz me sinto por voltar a ver-te. Deixa perder, de novo, um pouco, os meus olhos nos teus. A noite é de festa. E como desagua, Paulo, em delta, no meu peito.”

Paulo: “Nessa noite, Cristina, as estevas da memória rompem nas palavras, nessa noite decidimos viver juntos. Continuaremos o combate lado a lado, a tempestade solidária na cachoeira da ternura colectiva.  (Uma frase retórica – penso agora). Fixaste, por segundos, o relógio no meu pulso. Como quem pára a jangada do tempo. Relanceei, através do vidro, o borrão azul da madrugada. E a tua voz, amo a vida, Paulo. Tanto, despontava pequenas árvores brancas no anis da volúpia. Soube, então, que o teu corpo era um mapa e em tuas rotas me perdi.”

Isto é muito bonito: “o teu corpo era um mapa e em tuas rotas me perdi”. Ainda me lembro, muitos anos depois, do que esta frase, densamente poética, significou para as minhas aspirações literárias. Mas há mais. Como aquela dita pela Cristina algures no meio do texto: “O pássaro da tristeza trepando-te aos olhos.”

Paulo: “O teu rosto, Cristina. Um perfil de praias e solidão. As pestanas negras sobre os olhos inquietos. O teu rosto-cais, espumas e ventos, onde atraca a ternura de preencher-me de ti.”

Cristina: “Este poema, Paulo. Escreveste-o por uma daquelas madrugadas frescas, odorosas de orvalho, o marfim do sol dentro do quarto. Porque releio os teus papéis, uma ponte desde os momentos idos, atravessando-a lentamente, lá ao fundo as águas dos dias partilhados, porque te revejo de novo a meu lado? Sem o nó da saudade e em amor? 

Gosto do poema, Paulo. Não me canso de ler o que escreves.

os teus seios noite vegetal/ longas bagas de suor// os cabelos revoltos/ algas na areia quase líquida/ das mãos// apelo o concreto do teu sexo/ um mar desagua nos teus gritos/ tépidos// freme o ventre/ nos olhos mais límpidos/ que as manhãs// beijo repousado as salinas/ dos teus lábios.

Cristina: “Noite, areia, mãos, manhãs, salinas. Os pontos cardeais, as imagens predilectas. Mesmo na tua poesia de combate.”

Foi isto justamente o que me fascinou neste texto, o amor, o erotismo dissimulado – a poesia é a arte da dissimulação, ensinou-me o meu Mestre de sempre -, as imagens, as belas imagens poéticas, entrelaçadas, por entre mensagens e imagens de uma poesia de combate e de intervenção. Também me encantou a cadência do texto, a sua poesia, a voz do autor, que se ouvia, como se dissesse o texto, como se o declamasse. A tessitura dessa voz.

Passam 34 anos desde o ano em que li isto. Releio o texto esta tarde e sinto um arrepio. Sentado, na sala anoitecida, na companhia sucessiva de vozes esplêndidas: Ella Fitzegerald (“I love Paris”), Helen Merril (“All of you”), Louis Armstrong (“Let´s do it”), Tony Bennet (“Ça, C´est L´amour”), Frank Sinatra (“Anything goes”), Sarah Vaughan (“Ev´ry time we say goobye”), Abbey Licoln (“You do something to me”), Anita O´Day (“My heart belongs to dady”), Shirley Horn (“Love for sale”), Lena Horne (“What is this thing called love?”), Shirley Bassey (“I get a kick out of you”), Johnny Hartman (“I concentrate on you”), Peggy Lee (“Do I love you?”), Julie London (“I love you”), Nat King Cole (“Just one of those things”) Billy Eckstine (“In the still of the night”), Oscar Peterson (“From this moment one”), Rosemary Clooney e Frank Sinatra (“Cherry pies ought to be you”), Carmen McRae (“Easy to love”), Fran Sinatra (“Night and day”), Louis Armstrong (“Just one of this things”), Abbey Lincoln (“I concentrate on you”), Fred Astaire (“I´ve got my eyes on you”), Anita O´Day (“You´re  the top”) e Sarah Vaughan (“Easy to love”).

Oiço estas vozes que cantam, todas elas, Cole Porter. Gosto maningue do Cole Porter. Ele compôs muitos dos clássicos do jazz.  Oiço-o nas vozes que citei acima enquanto retorno aos meus 17 anos, aqui sentado, neste dia que finda absorto, imerso, melancólico, profundo, de domingo, como muitas vezes são os meus domingos nesta cidade, que parece desabitada da sua azáfama dos meios de semana, quando finalmente é possível transitar pelas ruas em paz, com a soberana tranquilidade que não se comercia em outros dias.

Curioso este meu retorno ao passado, no dia em que percorri algumas lúgubres ruas da cidade – depois da minha ronda pela casa dos pais no Infulene -, onde inclusive divisei a casa de madeira e zinco, na Malanga, que o Luís Bernardo Honwana fotografou e fez a capa do seu belo e instigante livro A Velha Casa de Madeira e Zinco. Isto, enquanto passeava entre a Malanga e o Alto-Maé, em busca de um ângulo, que me permitisse divisar o futuro: a hierática ponte entre Maputo e Catembe. Vi e fiquei instantaneamente enfeitiçado com aquela obra imponente e ocorreu-me pensar nesta contradição em que nos encontramos: termos diante de nós um prodígio que nos projecta para o outro século, mas em tudo permanecermos arreigados ao passado, sem imaginação, largueza de vista, inteligência, cultura e arrojo, ou incapazes de nos libertarmos desta paralisante realidade em que estamos verdadeiramente atolados.

Então, depois daquele passeio algo paradoxal, no qual me empolguei por alguns instantes com o incauto futuro, tendo-me precipitado de imediato para o fosso da dura realidade, que é este nosso inepto quotidiano, vim-me embora para casa, acendi as luzes – a minha sala é escura, mesmo à tarde precisa de luz -, e pus-me a reler este venturoso e antiquíssimo texto do José Manuel Mendes, que tem, aliás, um título que agora parece ser inquietante: “Até amanhã.” E lembrei-me de ter encontrado o autor, em Braga, naquele dia em que vi a Nicole Kidman arrebatadoramente nua, na tela do Stanley Kubrick, e não tive o atrevimento de confessar ao escritor português o entusiasmo do rapaz de 17 anos, que agora, com as mãos nos meus ombros, enquanto releio aquele belíssimo, debruça-se sobre mim e sobre os meus demónios. 

 

 


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