No movimento dos “Objectos em trânsito”

Guarda o que não presta e encontrarás o que é preciso

José Saramago

Há quem diga que o Homem, na terra, é efémero e que um dia irá transcender para uma outra dimensão. E o que dizer dos objectos? Bem, se colocássemos a pergunta a João Roxo, a resposta seria, eventualmente, estão em trânsito. E logo se percebe, afinal “Objectos em trânsito” é o título da exposição do artista visual moçambicano, patente no Centro Cultural Português, em Maputo, até próximo mês. Nessa obra, feita de batik, instalação, som e vídeo, Roxo resume o que expõe ao conceito que persegue, o qual alicerça-se à promoção de uma reflexão sobre fenómenos que envolvem a humanidade e a sua presunção.

À partida, “Objectos em trânsito” parece algo difuso, vazio e de um suspense inquietante. Precisa-se estar conectado ao espírito do criador, tentando sê-lo, para que se enxergue a profundidade das coisas que são ditas, com e sem palavras. É uma exposição multidisciplinar, na qual o artista esgota-se na exploração dos espaços no lugar onde a obra está patente. Em alguns casos, há peças da obra penduradas; outras encontram-se nas paredes e ainda outras no chão. Isso provoca e desafia-nos à medida que naqueles artefactos procuramos ouvir o que o silêncio não diz, porque não quer ou porque não pode. Sei lá… a verdade, ou pelo menos o que parece ser, é que o vazio e o difuso desvanece num zás, e, num rompante, começa-se a visualizar trechos, atalhos e o horizonte para onde se move tudo aquilo.

A propósito de movimento, isto é o que a exposição de Roxo sugere nessa projecção por vezes fílmica em que determinadas partículas partem de um lado para o outro ou transportam algo de concreto ou intangível. Por exemplo, sob os “post fear” colocados à parede do Camões, papeis transportam informação, conhecimento como princípio de tudo cuja meta é uma partilha contínua. De igual modo, o som da rádio ou das telas apresentam nas suas ondas sugerem realidades, transferindo-as de um lugar para mente. São essas ondas repetitivas que quebram o silêncio, no entanto sem o anular. É como se o som e o silêncio fossem duas faces complementares de uma moeda ideal, cheia de mensagens: “como os objectos, estamos todos em trânsito”. A este nível, a outra questão é: para onde? Nem Roxo e tão-pouco a exposição devem ter a resposta. E se tiverem, nada explícito.

Na parede do Camões há ainda traçados a cor que nos devolvem ao raciocínio as imagens dos plásticos, esses como que veículos que transportam variados produtos. À frente dos plásticos, os fardos, também esses transportadores de roupas, calçados, etc. Portanto, de forma recorrente, os fragmentos que constituem a exposição de João Roxo revelam como o autor está preocupado com o movimento dos objectos, poluentes, “benevolentes” e informativos. Para onde isso vai? E depois, qual o problema a advir desse movimento?

Retratando os objectos, como efeito ou mesmo como causa, Roxo questiona o materialismo e dependência que isso cria em nós. Vendo a exposição nesta perspectiva, na essência, não é de artefactos que se trata a obra do artista visual. É mais ousada ao criar daí um paralelismo com que hoje define a condição humana, apegada às coisas palpáveis, se calhar, por resolverem problemas pontuais, todavia reféns a algum cronótopo. Se os objectos estão num trânsito banal e previsível, e então, o que dizer dos homens que se apegam aos mesmos? Enfim, Roxo conduz-nos a esse movimento espiral para fomentar uma introspecção em nós, quiçá para aprendermos a guardar o que não presta, de modo a encontrarmos o que é preciso.

 

Título: Objectos em trânsito

Autor: João Roxo

Exposição

Classificação: 13

 


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