No muro

Dezembro. Dia um.

A noite caíu. Com a escuridão húmida veio o burburinho inconfundível das noites sem vento nos bairros de lata: o silêncio do luar, a música distante das barracas, o grito inconformado dos grilos, o ronco dos carros lá na estrada... tudo abafado na poeira que aura o bairro.

Ruelas estreitas. Um muro de alvenaria inacabado. Dois corpos. Um encostado ao outro. Os dois encostados ao muro. Ela gazeteara as aulas no curso nocturno e ele, o turno de vendedor ambulante. Por entre a folhagem das árvores o luar espreita com feixes prateados. O calor húmido não dava tréguas mas os corpos relutavam em manter-se aquecidos um no outro para que nem o menor dos mosquitos  tivesse espaço entre eles. Abraçavam-se e beijavam-se, demarcando o espaço físico do seu Jardim de Eden, protegendo a soberania dos seus corações. 

No beijo os beiços selavam-se e os corpos fundiam-se. Eram cada vez mais o mesmo corpo, a mesma carne. Alimentavam-se de saliva como os pássaros que alimentam suas crias pelo bico.

E o amor cresceu na braguilha e tornou a mão mais atrevida. Ela assustou-se, púdica. Censurou a mão ousada, empurrando. Ele cedeu ao gesto.  Sabia que era um "nao" simbólico. Um "nao" no tom amolecido de um "sim". Beijaram-se.

Ela sentiu o vento a arrepiar-lhe até  as unhas, enfraquecer-lhe as pálpebras e derreter-lhe a voz, quando ele sussurrou em tom melado e falso de amantes:

-- Quero te lobolar.

Os olhos acenderam-se-lhe como duas luas e sorriu o marfim amarelado da dentadura. Até poderia ter-se socorrido dos conselhos infalíveis da mãe: "não aceita promessas dos homens, eles só querem a fruta", mas um frio quente com formigueiro à mistura trepou-lhe pelas pernas tornando-as bambas, suando-lhe as mãos, engasgando-lhe as palavras, esgazeando-lhe os olhos. Ele destrancou a capulana. 

Não conversaram para além dos sons da fricção dos lábios e dos corpos. Morderam lascivamente, na boca um do outro, a fruta que apetece por ser proibida. O tempo não existiu até um ronco no abdómen lhes despertar para o mundo:

-- Namorar dá fome né, mor?

-- Hmmm!

O ronco, não se soube de que barriga veio, mas foi suficiente para arrefecer as hormonas, descalçar os desejos, recomporem-se nas vestes e aprceberem-se da hora.

-- Já é  tarde. Tenho de ir.

-- Fica mais um pouco.

-- Hiii! Meu pai...

Ele acompanhou-a, abraçados, até ao canto discreto mais próximo de casa e a lua testemunhou a declaração de amor:

-- Tê manhã, mor.

-- Tê  manhã...

No beijo de despedida os olhos fecharam-se para que não houvesse interferências indiscretas. Os corpos viajaram para dentro um do outro. Pela boca trocaram de almas como quem troca fotografias e experimenta um jogo de identidades: toma, guarda-me dentro de ti e dá-me a tua.

Da sombra da enorme mafurreira ele viu a amante manipular, com gestos delicados, o portão de chapas. Dizer tá-tá com um sorriso. Beijar a palma da mão, assoprar um beijo e desaparecer quintal adentro.

Trocaram sentimentos, saliva, corpo, Almas e deixaram pedaços de um no outro. Seguiram cada um para o seu lado. Semana depois, o afeto desprotegido com que se amaram gerou um inesperado feto e a afeição foi tanta que resultou em infecção.

Era Dezembro. Dia um...

 


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