Nos corações de Michel William e Deltino Guerreiro

O homem que no seu âmago não tenha música/

E que não se comova com a harmonia de sons melodiosos,/

Está pronto para traições, estratagemas e pilhagens.

William Shakespeare

 

No livro O mercador de Veneza, de William Shakespeare, a personagem Jéssica, filha de Shylock (um judeu), diz, a certa altura: “Não me sinto alegre quando ouço música sentimental”. Em resposta à sua noiva, Lourenço afirma austero: “O homem que no seu âmago não tenha música/ E que não se comova com a harmonia de sons melodiosos,/ Está pronto para traições, estratagemas e pilhagens,/ Os impulsos do seu espírito são escuros como a noite,/ E as suas afeições tenebrosas como Érebros/ Que não se confie em semelhante homem… Ouçamos a música”.

Como que a seguir a sugestão daquela personagem gerada nos finais do séc. XVI, de modo a estar-se bem longe de traições, estratagemas e pilhagens, ouvi música. Boa música! Feita por moçambicanos que acrescentam outros valores à arte nacional. No primeiro plano, “Madre Aya”, de Michel William, que vive e trabalha em Portugal. A música faz parte do álbum I’ve got a plan, constituído por 11 temas, entre os quais, por exemplo, “Don’t be blind”, “Obaia Mantra”, “Oh mama” ou “Ouve o grito”.

Em três minutos e quinze segundos, Michel William produz em “Madre Aya” qualquer coisa de penetrante, harmonizando, ao nível temático, traços típicos do sermão com uma visão vanguardista em relação à vida. Nisso a emoção, elemento chave em qualquer obra de arte, é essencial. Ou seja, almejando transmitir uma mensagem voltada para a purificação do coração do ser humano, o cantor e compositor constrói nas notas da sua guitarra, aparentemente acústica, o princípio de um diálogo entre um sujeito virtual e um receptor que se pretende bem real. “Madre Aya”, a partir de uma letra e execução instrumental simples, é uma música motivacional – sentimental, se quisermos parafrasear Jéssica –, que parte da experiência do “eu” para atingir as sociedades.   

“Madre Aya” deve ser a música mais bonita do I’ve got a plan, também pela particularidade de, num mundo com tanto caos, ainda conseguir iluminar a lâmpada da esperança, da determinação e do afecto. Ali a felicidade é uma finalidade, que, absolutamente, depende do indivíduo: “O paraíso na terra é se eu quiser”. A partir desse excerto, a música de Michel William pluraliza o discurso que se adivinha promissor para a Humanidade. Isto é, se cada indivíduo quiser fazer da terra um paraíso o mundo torna-se mais habitável e, eventualmente, menos aborrecido para a maioria.

O que se destaca em Michel William em termos de mensagem para um destinatário colectivo, observa-se igualmente em Deltino Guerreiro. Como calha em “Madre Aya”, no seu novo single, “Com amor se paga”, o autor do álbum Eparaka identifica no amor pelo próximo uma razão da vida. Fundamentalmente, a música condena o materialismo excêntrico, que põe em causa todos os valores atinentes ao altruísmo. No lugar do Metical, em Deltino Guerreiro o sorriso é mais relevante, daí quem nos canta nunca compreender a razão dos seus vizinhos e conhecidos quererem pagar por uma ajuda desinteressada: “Amor com amor se paga. Eu não quero mais nada. Se te dei amor, me paga com amor”.

Na música de Deltino Guerreiro são evidenciados os propósitos que movem a comunidade no sentido mais autêntico: a solidariedade, a partilha dos problemas e dos sucessos. Atento ao ritmo do mundo, “Com amor se paga” apresenta-se como uma proposta com essa pretensão de reaver a lógica da fraternidade a esfumar-se um pouco por todo lado. Quatro minutos e catorze segundos foram suficientes para Deltino Guerreiro opor o bem e o mal numa perspectiva correctiva.  

Quer em termos temáticos, quer em termos rítmicos, “Com amor se paga” é uma convocação para um espaço, no qual “o amor não deve ter câmbio”, está acima de todas as coisas efémeras e redundantes. Com efeito, os sons da percussão adiciona esse carácter afro alguma coisa que se funde perfeitamente com o RAP, na colaboração com Azagaia.

“Madre Aya” é uma música mais serena, para ouvir e desejar chorar na visualização de um lugar ideal, que pode ser onde se está: o paraíso. “Com amor se paga” não coloca possibilidades sobre – entenda-se a metáfora – o paraíso ser onde se está. O espaço é coisa acabada, o que não está é a(s) pessoa(s), que sempre pode(m) ser melhor(es) para habitar(em) o paraíso que tanto procura(m). Nos dois casos, claro está, a música é a letra com um propósito: colorir o mundo cinzento que há em nós.


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