“Nós não vendemos corona, vendemos bebidas”

“Nós não vendemos corona, vendemos bebidas”

Donos de barracas na cidade de Maputo foram impedidos de abrir seus estabelecimentos pela polícia no primeiro dia depois do fim do Estado de Emergência. Na quinta-feira, transportadores mantiveram o limite de passageiros e as lojas também encerraram mais cedo, tal como se fez nos últimos quatro meses.

O dia dava lugar a noite, e na “reestruturada” baixa da cidade de Maputo, as lojas encerraram à luz do horário imposto pelo cessado decreto que estabelecia o Estado de Emergência.

“Todo cuidado é pouco” alertava Furcana Tari, comerciante na baixa da cidade.

Os cuidados não se restringem a fechar a loja mais cedo. “O melhor é que os clientes que se fazem as lojas continuem a manter a higiene das mãos” defendeu Momade, outro comerciante na baixa da cidade.   

Ao mesmo tempo que “a baixa fechava as portas”, as pessoas também fecham seu ciclo diário. Eram 17 horas, por cá conhecida como a hora de ponta.

Consequência. Paragem lotada, o que significa, pelo menos por aqui, que é quase que impossível estabelecer o distanciamento social, um distanciamento físico de, no mínimo, um metro e meio.

Enfim, chega o transporte, um autocarro conhecido como “smart kika”, uma multidão segue-o, parecem estar numa pista de atletismo, mas diferente de Lurdes ou Bolt, estes atletas correm aflitos.

Na porta vive-se um verdadeiro gargalo. Arrisca quem pode. Os cotovelos arrojados fazem a diferença. A juventude empurra a “velhice” e deixa de fora quem por causa da idade não pode exibir a mesma pujança física de outros tempos e, no fim, passam os mais fortes.

Por escassos segundos, os utentes dos transportes esquecem-se do perigo que representa a COVID-19 e, mesmo sem esquecer, é inevitável. “o que podemos fazer? Queremos ira para casa” lamenta Lázaro que tentava tomar um autocarro.

Quando a rota não é por muitos concorrida, quando a viajem para casa parece que vai ser fácil, os cobradores complicam. Colocam o braço para barrar e limitar o número de passageiros, Stela Filipe, foi uma das “expurgadas” do autocarro.

“Disseram que o carro está cheio por isso não insisti” desabafou a senhora que pretendia viajar para Khobe.
O argumento de que o carro está cheio servia para o contexto do Estado de Emêrgencia que, segundo decreto presidencial, terminou na quarta-feira, mas seus efeitos parecem perdurar pelo tempo.

 

POLÍCIA IMPEDE ABERTURA DE BARRACAS NO MERCADO PULMÃO

No tempo, também perduraram as imposições de proibição de abertura das barracas. 

“Temos Estado de Emergência ora não temos. Ora continuam ora não continuam. Que medida são essas de nos prenderem aqui na rua? Como é que vamos viver? Queremos respostas? Que venham nos dizer” desabafou uma fonte que não quis ser identificada.

Este é o grito do pulmão, mercado que se vê sufocado pela implacável actuação da polícia.

“Todos os dias somos privados disto, privados daquilo, mas quando chega o final do mês temos contas por pagar, água, luz, rendas. Outros tem créditos por pagar aos bancos e eles estão a cobrar” recordou.

E para satisfazer as cobranças, a lufada de ar fresco podia ser o sistema take away, mas não é. “Não nos deixam fazer nada” atirou.

E sem fazer nada quem sofre é a família. “Nós não vendemos Corona, nós vendemos bebidas, vivemos disso de um a 30, não é de hoje” recordou a fonte.

Hoje os tempos são outros e até nos bairros, tal como quatro meses antes, disseram sim ao pedido de responsabilidade e recolheram mais cedo para os seus aconchegos.


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