Nós, os da cidade, temos muita pressa

O caminho é para Tete, para o planalto do Songo. O autocarro, com sinais de amolgamento na varanda das rodas esquerdas, tem preguiça de abandonar a planície da Beira. Demora-se mais de uma hora a recolher os seus ocupantes à porta das respectivas casas. A casa do último ocupante, imitando a vida de muitas pessoas daquele lugar, está num impasse. A rua não autoriza que os carros passem para o outro lado da rua, para a famosa rua 6 da Manga.

O motorista obedece e verga-se perante o impasse. Recolhe o último passageiro e inverte a marcha num chão riscado com valetas, as quais não só drenam águas pluviais. Drenam também o lixo que não cabe nas covas privadas dos moradores e que nunca foi recolhido pelos catadores.

O último passageiro traz uma pasta pequena. Minto. É grande, mas fica pequena em seu corpo, que é grande, avolumado, recheado de polpas. Traz, preso no ângulo do sovaco esquerdo, um livro para ler na viagem. Mas eu duvido que ele vá conseguir ler. Aliás, nós todos temos livros que queremos ler. Levamo-los com a certeza de que os conseguiremos ler. Cada um de nós está à espera da antipatia dos colegas para os conseguir ler. Mas o grupo é tão íntimo que dispensa a intimidade dos livros. Afinal o que está nos livros? São conversas de pessoas que solicitam a nossa afinidade e intimidade.

No novo pavimento da auto-estrada, o autocarro lembra-se que é automóvel, espreguiça-se e põe-se a mover com mais rapidez. Mas não pode muito. A multidão do bazar Filipe impõe-lhe cautela. A população corta a estrada com a imprevisibilidade e a vaidade dos bois. Detemo-nos a olhá-la e os nossos olhos desaguam no infinito dos postes magros e metálicos de iluminação, os quais suportam, nos seus pescoços, bandeiras de partidos políticos que se digladiam para mandar na população da nossa província.

Nos primeiros duzentos quilómetros, ninguém se dá conta de que o carro está em movimento. O pavimento de alcatrão ainda está jovem, sem cicatrizes. E só não tem o corpo recto porque as montanhas não autorizam. A estrada serpenteia por entre as pernas das montanhas como se estivesse a fugir de algum perigo. Talvez esteja mesmo a fugir do mar, que ameaça engolir a Beira.

Mas, nesta viagem, quem foge somos nós. Nós é que estamos a andar sem viajar. Entramos no caminho, mas não queremos ali ficar. Fingimos que queremos ir, mas o que gostamos mesmo é de chegar. A nós os verbos que nos animam é partir, chegar e regressar. O que nos anima não é o verbo viajar.  

Então, a estrada não tem pressa. As pessoas do interior, que nos vêem a passar, não têm pressa. Confirmamos isso na vila de Catandica. No restaurante em que entramos para recarregar o estômago, a garçonete não tem pressa, soneca com o rosto sobre o cimo da encosta da cadeira castanha. Mantém-se sentada enquanto regista os nossos pedidos no papel da memória. Todos pedimos galinha cafreal, o que nos faria arrepender. Demorou muito para sair, tanto que pensamos que as galinhas tivessem fugido da capoeira. Não são só os nossos pratos que demoram. As mesas vizinhas, o cenário, como se fosse história, se repete. Um vizinho, já cansado e dispensando intermediários, dirige-se para a cozinha. Ia reclamar, mas voltou a exclamar. “Não pode ser”, dizia vezes sem conta até lhe trazerem o prato. Quisemos seguir o exemplo, mas a garçonete nos disparou um sorriso, do qual nasceu palavra. “Vocês da cidade têm muita pressa”, disse.

Demorar é verbo que não encontra lugar naquele espaço. As pessoas estão ali numa eterna espera. Os agentes da polícia esperam, sentados e serenos, por um crime qualquer para se lembrarem que são agentes da lei e ordem. Em todos os lugares, a vida é assim. No “Botequim Artur Faz-se Comida”, a vida é assim”. No “Guest House Quartos de Dormir”, a vida é assim. Quem vive com pressa, chega cedo à morte: esta é a inconfessável sentença que paira no coração dos nativos.       

Partimos, depois da pausa prolongada. A partir dali, o tempo está quente e seco. O frio ficou para trás. Árvores que fazem fronteira com a estrada não nos podem saudar condignamente. Estão sem os dedos das mãos, as folhas sucumbiram por falta de chuva. As que se mantêm presas aos ramos enxutos o fazem por um amor quase religioso. Mesmo descaracterizadas, preferem tombar juntos com os ramos.

Quem parece não mesmo aceitar folhas é imbondeiro. Vemos isso quando o relevo se eleva. Sereno, o embondeiro não se importa que a seca lhe sacuda as folhas, o peso que carrega é demasiado pesado. Agora confirmo: o imbondeiro tem mais braços que dedos.

Em seus caules, divisam-se cicatrizes de feridas impostas pelo homem. Naquelas cicatrizes, o homem extraiu-lhes forças, em modo de casca. Daquelas cicatrizes, o homem transferiu forças para as estacas entrelaçadas das suas palhotas. Afinal, o que do imbondeiro sai dura para sempre.

Enquanto o homem carcome o imbondeiro, a natureza está esforça-se para emagrecer o leito da estrada, comendo-lhe as margens. Mas no centro do asfalto brilham uns buracos isolados.

Mais à frente, os buracos se multiplicam e vemos miúdos que parecem políticos em formação: atiram-nos areia aos olhos, como se estivessem a tapar buracos, e a seguir esfregam o dedo polegar e o médio em pedido, exigindo tributo pelo trabalho desfeito.

Os miúdos estão sem muitas alternativas. Não chove. O Zambeze está com pouca água, pelo que não pode partilhar com nenhum afluente. Mesmo aos influentes, o Zambeze não dá ouvidos. As hortaliças que as populações plantaram no leito das afluentes murcharam e só se alimentam de areia. É na areia que as mulheres se agacham, em serviço semelhante ao da reza. Ao seu lado, montes de roupa querem voltar a ser roupa. Na mesma areia, manadas de boi pastoreiam. Diz-se por falta de verbo. Os seus pastores tentam retirá-los do leito, mas os bovinos não arredam a pata. É ali que a água vivia. Com o focinho preso em inúmeros poços secos dos afluentes, os bois perguntam: quando é que começa a campanha chuvosa?  


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