“Nova política de terra pode ajudar no empoderamento das mulheres”

“Nova política de terra pode ajudar no empoderamento das mulheres”

O acesso à terra continua um grande desafio em Moçambique, em particular para as mulheres que vivem nas zonas rurais. Sem este recurso, a participação feminina no agronegócio é ínfima.

É diante desta situação que as oradoras da segunda edição da MOZGROW debateram o empoderamento da mulher no agronegócio, tendo sido unânimes em apontar o acesso ao financiamento e falta de combinação das políticas de terra à educação, como os principais entraves para a sua maior participação.

Intervindo no debate a quatro, Florinda Isaías, do Movimento Moçambicano das Mulheres Rurais, entende que a nova política de terra, recentemente aprovada pelo Governo, pode mudar o paradigma.

“Neste momento, fala-se da auscultação para a revisão da política de terra, e uma das orientações do Presidente da República é que seja considerada a inclusão da mulher no espaço agrário. Ela (mulher) contribui com cerca de 24% do rendimento do país, pelo que é importante que ela seja empoderada para que contribua ainda mais”, defendeu Florinda Isaías.

A representante do Movimento Moçambicano das Mulheres Rurais indicou ainda que, há uma “cadeia de barreiras” que limitam o crescimento da mulher, em parte, devido o acesso à informação aos mecanismos de desenvolvimento.

“A mulher nem sabe como chegar aos bancos, as taxas aplicadas…ainda existe um trabalho muito grande no sentido de empoderar as mulheres”, realçou Florinda Isaías.

Para a presidente da Associação das Mulheres Empreendedoras e Empresárias de Moçambique (FEMME), Célia Ribeiro, há um baixo nível de literacia, pelo que é preciso contornar os tabus e dar poder de decisão às mulheres.

“É preciso passar muito conhecimento e informação para as zonas rurais, de modo a que as mulheres consigam ter a força de vontade. Elas têm vontade de abraçar as associações, mas porque a predominância é masculina nas zonas rurais, elas não conseguem progredir”, apontou a presidente da FEMME.

De acordo com Célia Ribeiro, “o factor indutor é a solidariedade”, uma vez que para atingir o sucesso é preciso alianças.

“Todos dias entramos numa guerra económica e queremos ter a nossa participação. Queremos que sintam que nós também temos o direito, temos que gastar muita energia para que nos oiçam”, referiu a presidente da Associação das Mulheres Empreendedoras e Empresárias de Moçambique.

Já Flaida Macheze, da União Nacional de Camponeses, indicou que a mulher é sempre relegada ao segundo plano, principalmente, no que toca ao acesso à terra.

“No campo, aquele que é o verdadeiro meio rural em Moçambique, a mulher não tem título (Direito de Uso e Aproveitamento de Terra, DUAT). Quem tem o título é o homem. A informação não chega ao meio rural, a mulher não conhece os seus direitos contemplados nas políticas e leis que temos em Moçambique. Há mulheres com posse, mas são ínfimas. Pelas práticas costumeiras, o próprio líder comunitário acredita que quem deve ter o DUAT é apenas o homem”, indicou.

De acordo ainda com a representante da União Nacional de Camponeses, “o cooperativismo está a falhar em Moçambique”, pois, falta articulação entre o produtor e comerciante.

Por sua vez, a intervenção de Margarida Lemos, uma produtora de hortícolas no distrito da Moamba, na província de Maputo, focou-se nas barreiras e altas taxas de juro nos bancos comerciais.

Margarida Lemos contou que há 12 anos, recorreu a um empréstimo bancário, mas foi preciso “coragem” para não desistir e honrar com as obrigações (reembolso do crédito).

A produtora defendeu a necessidade das instituições de crédito capacitarem as mulheres em matérias de gestão para melhor saberem articular os reembolsos dos empréstimos contraídos junta da banca.

“Nós não chegamos ao financiamento porque não conseguimos redigir um papel como deve ser (cupão de empréstimo, por exemplo). Nós não essa orientação de como fazer um cálculo para termos um cash-flow (fluxo de caixa), perceber as condições do mercado para avaliar se dá ou não suportar um empréstimo”, apontou Margarida Lemos.

Segundo as estatísticas oficiais, as mulheres constituem o maior número nas zonas rurais, cerca de 70%. Contudo, o seu envolvimento no agronegócio é ainda muito fraco.

 

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