N'txuva

Madala estava irrequieto. De cócoras. Não tirava os olhos do chão, onde buracos disciplinados alinhavam-se e formavam o tabuleiro do n'txuva.

Madala levantou-se para esticar as pernas. Ouviu estalos ruidosos. Eram as engrenagens do corpo a reclamarem. Ficou de pé. Mãos na cintura. Depois cruzou os braços num gesto brusco, denunciado nervosismo. Testa franzida. Olhos no chão. Dobrou o tronco. Apoiou as mãos nas coxas. A cabeça afundou-se entre os ombros. Sempre atento ao chão.

O adversário, um mufana, terminou de distribuir os dados pelos buracos do n'txuva, suscitando murmúrios da assistência que os rodeava, e olhou para Madala, desafiadoramente, dizendo, com os olhos: é tua vez de jogar.

Madala agachou-se. Coçou a calvície grisalha. A cabeça parecia fumegar. Cotovelo no queixo, acariciou as barbichas brancas, ao jeito kasparov de rebuscar ideias. A assistência que os rodeava estava silenciosa. Comunicavam pelos cotovelos, segurando a gargalhada maldosa para o final do jogo, quando se confirmasse a inimaginável derrota de um madala diante de um mufana, contrariando os manuais orais da sabedoria popular que garantem que o n'txuva é um jogo de madodas. Nunca se vira antes um mufana derrotar um madala, até porque, regra geral, os mais novos jogam entre si e nunca com os mais velhos.

Estavam à sombra fresca de uma frondosa árvore. Pelas irrequietas folhas, minúsculas mas capazes de filtrar a luz do sol, adivinhava-se um canhoeiro. À mesma sombra alguns vendedores ambulantes repousavam, um cão dormitava e uma mamana que espantava insectos nos legumes que vendia, berrava insultos aos meninos que lhe atiravam poeiras com a traquinice dos futebóis.

Numa barraca com as cores berrantes  da telefonia móvel, um televisor falava sozinho.

Madala levou a mão calejada em décadas de n'txuva, a um dos buracos que parecia o encovado das suas bochechas desdentadas. Sentiu os calos rasparem os dados feitos de caroços de canhu, da safra de fevereiro último. Distribuiu os dados pelos buracos sem convicção. O derradeiro calhou numa casa que não lhe dava vantagem. O mufana, num salto fez-se ao jogo e gritou sem respeito: "pah!", quando lhe capturou alguns dados.

-- Eish! -- ouviu-se na plateia.
-- Schhh!!! -- mandaram-no calar para não interferir no jogo.
Uma gota de suor desceu pelo rosto do madala e pendurou-se na ponta do nariz. Pensava. Pensava. Pensava. Não sabia onde jogar.

-- Se fosse no xadrez -- ouviu-se baixinho em tom gabarolas -- se fosse no xadrez era só mover um peão. Um peão é  capaz de derrubar um rei.

Madala continuava por engendrar uma jogada. Não podia perder com um mufana.

-- Xadrez é  um jogo organizado -- continuou a voz gabarolas --, cada dado sabe a sua função e respeita a do outro. Agora, no n'txuva, os dados saltam desordenadamente, assaltam os buracos uns dos outros...

De cócoras, com experiência de décadas de n'txuva, o madala percebia, as conversas da assistência pelo movimento dos pés.

-- É por isso que as nossas instituições não funcionam como deveriam -- o gabarolas enrolava o sotaque e falava agora no tom sábio dos comentadores de TV --, vivemos como n'txuva, em buracos, no chão, em vez de nos civilizarmos num tabuleiro.

O jogo estancou. Madala hesitava a jogada. O mufana zombava com risinhos.
-- Se fosse no xadrez, era só mover um peão. No xadrez, um peão pode derrubar um rei.

Na barraca ao lado, a tv que falava sozinha anunciou o noticiário. Uma  fulana com a maquilhagem a pesar-lhe o rosto,  fez cara de contar novidades nos cabeleireiros e atirou a notícia. Alguém gritou "epa!" e tentou aumentar o volume. A fulana referia-se a um jornalista. Enfatizou as palavras "sequestrado" e "espancado" como se as pronunciasse em maiúsculas. Madala suspendeu o mão cheia de caroços de canhu e olhou para a televisão. As pessoas distraíram-se do jogo e viraram-se também, com as bocas a desenharem um "ooohhh" redondo. O fulano gabarolas, insistia:
 
-- Se fosse no xadrez, era só mover um peão. No xadrez, um peão pode derrubar um rei.

 


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