O ADVOGADO DE INHASSUNGE*, em discurso directo (Parte 1)

MZENO WA MELEKWANE

Sem Ítaca não terias saído do caminho.
Mas já nada tem para te dar.

E se um tanto pobre a encontrares, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, com tanta experiência,
já consegues compreender o que significam Ítacas.
*Konstandinos Kavafis

A Luís Loforte e Dino Foi!

O repórter Carvão Arde Molhado divulga nesta edição uma entrevista concedida pelo famoso ADVOGADO DE INHASSUNGE. A esta personalidade, tão multifacetada que é assenta-lhe bem o cognome pau-para-toda-a-obra.

 Carvão Arde Molhado (C.A.M.) – Saudações, ilustre. O senhor é que é o Advogado de Inhassunge?

O Advogado de Inhassunge (O.A.I.) – Pois, claro. Sou o próprio. Outro é Dubai, digamos falso! Alguma dúvida?

CAM. – Não. Só queria ter certeza, meu senhor.

O.A.I. – Obrigado!

CAM. - O senhor sabia que há, precisamente 17 anos, a sua vida foi retratada e publicada em livro?

O.A.I. – O senhor está a insinuar que sou analfabeto? Pensa que não leio livros?

C.A.M. – Longe de mim pretender criar mau juízo sobre si, meu senhor.

Mas então se o senhor leu o livro tem uma opinião a respeito. Pode partilhar connosco?

O.A.I. - (Em silêncio, pensativo. O advogado não diz palavra)

C.A.M. -De que nos fala este seu texto, meu senhor?

O. A.I. – Como pode depreender, este texto só fala perante quem o lê.

CAM. - Leu ou não, senhor Advogado de Inhassunge?

O.A.I.- O que te parece? O senhor que não me falte ao respeito.

O senhor é jornalista, ou não é? Sabe quais são as suas obrigações neste contexto. Sabe dizer-me?

C.A.M. – Como é que o senhor se sente depois de a sua vida ter sido retratada em livro. E já foi lido quase em todo mundo?

O.A.I. –Muito feliz! Sou um advogado de sucesso. E como vocês jornalistas andam por aí a dizer, sou um verdadeiro empreendedor na minha área de trabalho.

C.A.M. – O senhor está orgulhoso de saber que despreza a sua mulher e filhos?

O.A.I. –(Mudo e calado, frio e quente. O Advogado não reage de imediato. Explode instantes mais tarde, escandalizado) – Onde você viu isso?

C.A.M. –No livro.

O.A.I. -(Envergonhado, mas não derrotado) – Bem. Aquilo não foi  propriamente o que pode afigurar-se como uma envolvente de destrato ou desprezo como senhor jornalista pensa e diz. Sucede, meu senhor que eu estava, por assim dizer com parceiros, investidores, confrades. Era uma oportunidade soberana minha para sair do chão e prosperar. E as minhas infantas, sem aviso prévio da minha senhora, não se fizeram ao banho atempadamente. Foi daí que aconteceu o imbróglio, o meu desagrado, a minha zanga perante, a figura da mãe das minhas filhas.

C.A.M. – E a propósito, o que é que o senhor faz por Inhassunge?

O.A.I. – Muita coisa, meu caro. Muita coisa. Estou agora envolvido em projectos e parcerias diversas. A breve trecho vou pronunciar-me.

C.A.M. – Não sei se o senhor Advogado sabe. Temos um antepassado comum. O meu avó manterno, o doutor Pescoço nasceu e cresceu em Inhassunge. Ele influenciou e muito a minha personalidade. Este meu espírito comunicador e entusiasta das coisas da nossa grande Zambézia, aquele terra maravilhosa deve-se muito ao que aprendi com aquela biblioteca.

O.A.I. – Muito gosto, muito feliz em saber-te meu conterrâneo e grande entusiasta das nossas gentes (O Advogado levanta-se e abraça o jornalista Carvão).

C.A.M – Tio, será que com a ponte Maputo–Catembe, já na fase final e, a ser inaugurada em breve já ocorreu ao senhor solicitar os serviços da transmarítima? Por exemplo transferindo um ferry-boat para Inhassunge?

O.A.I. – Como é que você leu os meus pensamentos, filho! Isso faz parte dos pilares que sustentam o meu projecto em vigor, o petróleo da minha motivação pessoal. Ora nem mais.

C. A. M. – Mas qual deles prefere, ilustre? O Bagamoyo ou Mpfumo?

O.A.I. – Isso é cá comigo, filho. Vou criar uma comissão mista de avaliação desta empreitada. Não tenhas dúvida.

C.A.M. – Voltando às minhas leituras. O livro, seu homónino constitue um marco na literatura moçambicana. Quer comentar.

O.A.I. – Oh, meu caro. Não quero puxar a brasa à minha sardinha. Devo salientar que uma vida exemplar ilumina grandes Homens. E esse escritor é um felizardo. Gostaria de dedicar –lhe uma canção da terra. Vou falar sobre esse propósito com os músicos que sabem do ofício. Não perca por esperar.

C.A.M. –Uma vez mais fica provado que o senhor é porta-voz da sua terra natal.

O.A.I. – Não vou concordar consigo, meu caro. Vocês é que são a vanguarda desta geração estão na linha da frente para receber de nós o testemunho. Aliás, já receberam. Divulguem a nossa literatura nos jornais, nas escolas e, por que não no campo, a toda hora e circunstância, meus senhores.

C.A.M. – Anotado, ilustre. Mas voltando ao livro. Só mais duas questões, para fechar a entrevista.

O.A.I. – Julgo que falamos o suficiente, amigo. Acabo de receber uma convocatória para uma reunião importante das águas grandes. Não me posso atrasar. Foi um prazer!

Caros leitores,

Ficou o essencial. Continuação de boas leituras!

Celso Muianga

* Texto inspirado na obra O ADVOGADO DE INHASSUNGE, Luís Loforte, Quetzal, Lisboa 2001

 

 

 

 


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