O alcance poético de DESdENHOS

A liberdade é alma de tudo porque, sem ela, tudo é vazio e desolação

Catarina, a Grande

Onde buscar a liberdade de ser íntegro, puro e genuíno? Haverá, neste mundo em que a vida é uma pista de atletismo movida pelas metas a alcançar, uma fonte na qual se pode embeber a rajada de ar fresco de que se necessita para ser gente? Há perguntas que a cada lusco-fusco deixam de ser feitas, como se as respostas representassem ameaças, chantagens ou extinção de quem as exige. Perguntas inadequadas? Provavelmente… Mas quais seriam as adequadas, susceptíveis de nos conduzir a uma meta sem fim, feita de princípios, diversos, em que a corrida na pista fosse apenas prazer e as vitórias daí resultantes colectivas? Subjectividades, de todo, provocadas por tão subentendidas leituras contidas na nova obra literária de Hélder Faife: DESdENHOS, que nos confronta com as ferramentas de que se tece a liberdade de ser íntegro, puro e genuíno. Uma dessas ferramentas é a infância sugerida nas imagens que as palavras geram, e outras são consequências da metaforização do que a fase infante da Humanidade significa.

Nestes DESdENHOS, a liberdade vive e floresce na meninice, porque nela se reúnem todos os elementos da abstração em relação a tudo de errado que o mundo e os desejos insensatos dão de graça, em detrimento daquele instante efémero em que uma brincadeira equivale a um urinol A fonte, de Marcel Duchamp. Aqui, como o francês, Faife faz do comum o muito que nos é exigido, resgatando a pureza dos desenhos, e, na mesma acção, desdenhando a borracha que os apaga.

Bem dito, o poeta reclama em verso o lado “A” da existência, por nela captar o plano infinito que o tempo destrói. Destarte, em DESdENHOS vê-se entidades a combaterem esse mesmo tempo, responsável por nos tornarmos presunçosos, casmurros e com pouca tolerância. “O tempo é o casulo/ que encarcera a infância” (p. 35). E, por assim ser, um alvo a abater ou, se isso for demasiado violento, um alvo a moldar. Por isso, na perspectiva de contornar o cenho configurado pelo crescimento, Hélder Faife faz outros planos, nos quais os trabalhos são substituídos por brincadeiras porque brincadeiras são trabalhos sérios também. Esta é a sua maneira de dar um título vitalício aos sonhos sonhados no papel, na tenra diversão, “Porque brincar é esculpir sentimentos” (p. 49) sinceros, pontos de partida para administração de um homem/mulher alheio às agendas sugeridas pelo O príncipe.

Mais do que um livro, este DESdENHOS é um manual que incorpora lições de vida que as crianças dão. É um caderno de apontamentos escrito a lápis, autêntico, no qual os adultos são tão bem convidados a eliminar o seu sentido de grandeza por isso tão exageradamente contribuir para a construção de um mundo feito de Berlim… sempre a dividir-nos.

Portanto, esta é uma obra para a reconciliação individual (escrita equilibrada, feita de momentos e ideais), convidando-nos constantemente à procura desse recurso caro que nos livra do vazio, da desolação: a liberdade, mas não aquela subalternizada nos discursos de alguns políticos, a liberdade de sermos nós por compreendermos que só seremos por vocês existirem.   

 

Título: DESdENHOS

Autor: Hélder Faife

Editora: Cavalo do Mar

Classificação: 14


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