“O basquetebol precisa de um objectivo comum, algo que também falta na sociedade”

“O basquetebol precisa de um objectivo comum, algo que também falta na sociedade”

O presidente da Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo, Rui Hélder Guilaze, diz que um dos problemas da modalidade da bola ao cesto é a existência de pessoas que pensam que são mais iluminadas que as outras. Guilaze diz ainda faltar, na capital do país, um objectivo comum para o desenvolvimento de basquetebol. Mesmo com estes aspectos, destaca sinais claros de melhorias no que diz respeito ao quadro competitivo com o aumento de número de jogos na Engen Maputo Basket, Campeonato da Cidade, mas diz

Quando tomou posse, havia falta de competições regulares dado o vazio directivo que se vivia na Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo. Comprometeu-se, entre outros propósitos, a melhorar o quadro competitivo com destaque para o Campeonato da Cidade, Engen Maputo Basket. Está satisfeito com o quadro competitivo na cidade de Maputo ao longo destes três anos?

Eu preferia que fossem os outros a fazer esta avaliação. Mas é natural que, quando nós olhámos para cada fim-de-semana do ano, vemos que as sextas, sábados e domingos há basquetebol. Portanto, significa que cumprimos com este quesito que era de trazer jogos para a cidade de Maputo. É natural que, ao longo deste processo, tivemos algumas dificuldades. Mas quando se faz um balanço geral, acho que conseguimos ou temos estado a atingir alguns dos principais desta que é a maior associação de basquetebol do país.

A Engen Maputo Basket, na edição 2018, teve em masculinos quatro voltas para além de play-offs nos quartos-de-final, meias-finais e final. Este é quadro competitivo ideal?

Quando a gente olha para aquilo que programa e o número de jogos que vamos programando, vê que as coisas chegam a bom porto. Portanto, quando percebemos que as equipas lutaram dentro das suas possibilidades para conseguir fazer o número de jogos e chegar a classificação que chegaram, é natural que estejamos satisfeitos. Podemos olhar para outros cenários como equilíbrio e público que são outras vertentes que podem ter, digamos, uma justificação para que isso aconteça no sentido de termos um quadro de equipas completamente equilibradas.

Falou, e bem, do equilíbrio que é uma componente que não se notou em alguns jogos. Vimos jogos em que os resultados foram desnivelados. Na óptica da Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo, o que esta a faltar para que haja um quadro competitivo equilibrado como seria de desejar?

O importante neste processo, e temos que perceber, é que existe uma série de intervenientes para a prática de basquetebol. Se olhar para os estatutos da Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo, ha-de perceber que nós temos a obrigação de organizar e movimentar, portanto, fazer tudo que é o movimento do basquetebol: competições. Agora, existem questões ligadas ao termo e forma de cada colectividade em que os clubes poderão ter ou não capacidade para reterem os seus maiores "acetps " para que estes continuem representando as suas cores.

Pelo que eu vejo, e  tenho a sensação de que não estou longe da verdade, o Ferroviário  de Maputo  e Costa do Sol têm melhores condições para atrair atletas. Eu tenho a sensação que, se a A Politécnica por exemplo mantivesse a equipa que teve há dois anos, nós teríamos um campeonato que estaria a ser disputado por três equipas.  Se, ainda estamos nos "ses", o Desportivo tem mantido a equipa que ganhou o Campeonato da Cidade há alguns anos, temos um campeonato bem mais equilibrado. Então, esse é que é o problema: o Desportivo tem problemas estruturais que está a tentar recuperar. A  Politécnica tem a sua visão de basquetebol que não são, propiamente, problemas estruturais em termos de  pagamento de salários tanto quanto me foi dado a conhecer.

O Maxaquene está num processo de reactivação, portanto, uma nova direcção e novas abordagens. Portanto, eu vejo o assunto como sendo um problema de incapacidade, potencialmente, de os outros clubes irem ao encontro das exigências que os atletas fazem. O Ferroviário de Maputo, a bem ou mal, aproveita-se destas fraquezas para conseguir tirar jogadores. Agora, se me perguntar se isso é bom, talvez como presidente da Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo não posso ter uma opinião formal sobre isso porque não fica bem.

Mas que é necessário que se revisitem estatutos e regulamentos para que, no fim do dia, que saia a ganhar seja o basquetebol no seu todo. Ano passado, o Ferroviário de Maputo fez uma boa campanha no Campeonato da Cidade mas chegou a Beira e não ganhou. Chegou a Liga dos Campeões e não passou para a fase seguinte. Poderemos, no meio disso, sermos digamos acusados de qualquer coisa que seja. Aliás, já somos. É preciso que, de facto, haja um movimento que comece na melhor restruturação dos regulamentos que dizem respeito as transferências e  na capacidade dos clubes poderem atrair ou pelo menos manter atletas, o que faz com que de facto as provas organizadas pela ABCM tenham o interesse de todos.

“Um dos problemas do basquetebol é termos pessoas que acham que pensam melhor que todo mundo”

Qual a sua visão em relação ao regulamento de transferências? Há clubes que defendem que o actual regulamento não os favorece…

Eu posso responder-lhe em três versões: como presidente, como jornalista e como amante do basquetebol. Como presidente, que é na qualidade em que estou aqui, eu tenho que deixar os clubes revisitarem os regulamentos. Temos uma assembleia daqui a uma semana e um dos pontos da assembleia é a revisão dos regulamentos de transferência.

E, como estou como presidente da Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo, tenho que riscar as outras duas actividades porque sou suspeito de poder falar sobre isso. Nós somos votados para representar clubes e os clubes é que podem dizer quais as alterações que têm que ser feitas. Mas, naturalmente, que como amante do basquetebol e como jornalista tenha a minha opinião mas acho que infelizmente não serve.

Em algum momento, dada a necessidade de cumprimento do calendário devido a participação das seleçcões nacionais em provas internacionais e a realização da Liga Moçambicana de Basquetebol Mozal, os clubes viram-se obrigados a fazer muitos jogos num curto espaço de tempo. Estavam preparados para esta realidade?

Como é que eu lhe posso ser explícito sem olhar para aspectos sensíveis?

O basquetebol, em Maputo, precisa de uma coisa muito simples que também falta na nossa sociedade: um objectivo comum. Quando tens um objectivo comum, independentemente das diferenças que possam existir, nós estamos a pensar para o bem do basquetebol ou de outra coisa qualquer  que seja. Nós vimos o movimento que todos fizeram em torno da selecção nacional. Isso é muito bonito. Se fores a fazer esta pergunta a um dirigente, ele vai dizer que não concorda.

 Se fores a perguntar um treinador, ele vai dizer talvez sim, talvez não. Mas se fores perguntar a um atleta, ele vai dizer que esta feliz com constante número de jogos. Portanto, nestes três elementos tem que haver um objectivo comum porque treinar mais vezes do que jogar não sei se é propiamente adequado.

Mas se fores jogar com regularidade, também porque já fui jogador de basquetebol, dá-te uma série de automatismos porque há movimentos em que de olhos fechados acontecem. São reflexões que devem ser feitas num cenário de uma plateia para chegarmos a um objectivo comum. (…). Os americanos têm o saber que tem porque jogam mais vezes.

Ao longo da última temporada, a ABCM deparou-se com problemas de pavilhões para a realização de jogos. O que, de facto, terá acontecido para que o pavilhão do Maxaquene deixasse de acolher jogos e qual a solução para este problema na temporada que se aproxima?

Um dos problemas do basquetebol é termos pessoas que acham que são as mais iluminadas que as outras, pessoas que acham que pensam melhor que todo o mundo. Mas estas pessoas são livres de fazer isso e agir desta forma. Ninguém está contra isso. Agora, o feio, desagradável e pouco civilizado é alguém não cumprir com as suas obrigações e, para além de não cumprir com as suas obrigações, não ter respeito com os que cumprem.

Não faz sentido que um clube, porque estamos a falar da grandeza do Maxaquene e não vamos aqui rodear, estar numa situação de devedor e um clube sem expressão como Matolinhas sacrificar-se e eu sei o quão o Jorge sacrifica-se para pagar as suas dívidas e achar que isso é normal. Outra situação que aconteceu é que as pessoas que estavam lá, sobretudo, não foram capazes de chegar e fazer negócio com a Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo. Nos estávamos disponíveis. Aliás, a relação que tivemos ou estamos a ter com o Desportivo de Maputo é a prova inequívoca de que é possível sentar e falar. Ok? O Desportivo, ano passado, tinha uma dívida creio de 152 mil meticais e nós não tínhamos local para fazer os jogos dos “nacionais” e discutimos. Precisávamos do campo e pedimos para descontar.

Este ano, o Desportivo pediu 80 mil meticais e nós dissemos que não vamos dar 80 mil meticais porque vocês nos devem 36 mil meticais. Vamos abrir uma linha de crédito para vocês funcionarem. Isso chama-se negócio. Das vezes que sentámos com o Maxaquene, foi-nos dito que o problema com o Maxaquene não era dinheiro. Ok? Este é o problema, mas meia volta já não estavam no espírito da coisa.

Esse é um dos problemas e acabou, naturalmente, minando de certa forma relações pessoais porque algumas das pessoas trabalharam com o meu pai, inclusive. Quer dizer, ficou uma situação bastante desagradável porque acabou havendo uma tremenda decepção em termos de relações humanas. Eu nunca esperei que as coisas chegassem ao nível que chegaram.

E, para esta temporada, quais serão os procedimentos em relação à disponibilização dos pavilhões?

Eu estaria a abrir um bocado do véu em relação a isso. Mas há um posicionamento muito claro dos clubes detentores dos pavilhões sobre como é que será feito nas provas patrocinadas. Há abertura dos clubes para provas não patrocinadas. Portanto, existe um valor que os clubes fazem questão que seja pago e nós estamos a tratar do budget para o Campeonato da Cidade. Já está feito quase todo ele e está incluso. Então, é preciso que o patrocinador perceba. Devo dizer também de forma clara que, no dia em que a nova direcção do Maxaquene foi eleita, eu recebi uma chamada, houve abertura para que pudéssemos dialogar. Há um diálogo constante e permanente.

"É preciso que os árbitros olhem para formação"

Qual é o relacionamento entre a Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo e os árbitros?

Imagino que tenha filhos. Um dos seus filhos diz: pai, eu quero "play-station". Tu estás em condições de dar "play-station". Depois, ele diz: pai, eu quero “homeatre” e estás em condições de dar. Mas quando chegas e dizes: filho, vamos as notas da escola pois vejo que tu tiraste dez mais quero um quinze. Ele diz: não tenho tempo para estudar. Quando nós entrámos, propusemo-nos a trabalhar para que os problemas dos árbitros fossem resolvidos. Nós propusemo-nos a arranjar equipamento para os árbitros. Ainda não estavam fechados os negócios para os equipamentos. Eles, os árbitros, disseram: sem equipamentos não jogamos. Veja só que existia uma tabela e mandámos a tabela. Consultámos os clubes, estes ficaram relutantes mas dissemos que vamos resolver. Mas está bem. Nós dissemos: sejam uma cooperativa no sentido de que não conseguimos os valores e vocês podem nos ajudar a ir buscar patrocinadores. Eles disseram que eram profissionais. Testes? Há sempre uma justificação. Eu recuo à situação do objectivo comum: tal como o Maxaquene e Ferroviário de Maputo e outro elemento ligado ao basquetebol, o árbitro faz parte deste processo todo. Deve haver direitos e deveres. Eu sinto que, posso estar errado, há mais deveres nossos a serem cumpridos do que direitos nossos a serem adquiridos. Porque, se nós fossemos bastante rigorosos, provavelmente muitos árbitros que não estariam a apitar.

 Tu hoje atrasas uma semana com pagamentos, já estás a receber chamadas. Mas se recebes a reclamação de um pai que sacrifica uma manhã de domingo, antigo praticante, a dizer que os árbitros não estão a apitar como deve ser e abordas os mesmos, rebelam. Tivemos uma situação no torneio Engen Inter-escolar em que um árbitro faltou ao respeito uma senhora. Não há aqui palavras bonitas. A senhora, que era uma treinadora, reclamou algo. O árbitro disse a senhora para ir cozinhar. (…). Nós tivemos que pedir desculpas a senhora porque é um movimento de miúdos. Este presidente da Liga Moçambicana de Basquetebol foi árbitro. Ainda me lembro dele quando jogávamos e, quando não fazíamos bem as coisas, ele era didático. Eu não sei se são árbitros didáticos. (…)

No ano passado, houve também várias reclamações dos clubes em relação ao trabalho dos árbitros. Como é que a ABCM olha para este aspecto?

Aí está. Nós olhámos as preocupações dos treinadores, dos jogadores e até de pais. Mas qual é a resposta? Agora, é verdade que há uma necessidade de frequentes formações, etc, etc. Ainda há dias falei com o presidente da Federação Moçambicana de Basquetebol para cuidar disso. Creio que, até o final do ano, teremos uma formação. É preciso que haja algum abalar para que algumas coisas melhorem.


O que deve ser melhorado no relacionamento com os árbitros?

A Associação de Basquetebol da Cidade de Maputo não tem problemas com os árbitros. É muito importante, apesar de haver alguns focos. Nós não temos problemas com os árbitros. Quando os árbitros dizem que não querem apitar, nós humildemente respeitamos as suas decisões. Cumprimos com a nossa parte e exigimos que eles façam a sua parte. Nós percebemos, também, que potencialmente não seriamos bem vistos porque trazíamos uma nova dinâmica. Acontece. É importante, como disse e volto a questão do objectivo comum, que todos olhemos para o basquetebol como nosso bebé.

Porque se tu tens maus árbitros, quando vais jogar nas competições africanas, porque os árbitros daqui deixam ter muito contacto e os nossos jogadores vão ter muitas faltas, se tens maus árbitros não serão chamados começando pela Liga de Basquetebol como aconteceu este ano para não falar de competições internacionais.

É preciso que, mesmo os árbitros olhem para formação como um elemento que lhes ajude a fazer bem o seu trabalho para estarem expostos para convocatórias para grandes competições internacionais. Da mesma forma que os clubes têm que criar condições para reter os seus jogadores, é preciso que os árbitros façam o mesmo para que estejam aptos.


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