O Cabeça de Lista

Nervosismo. Rangeu os dentes. Olhou, em quase desespero, para o papel com contas. Aritmética simples, simples, mas os cálculos estavam antipáticos. Torceu a boca. Suspirou.

Percebeu que estava nervosa quando a esferográfica estalou, com a força da mordida involuntária. A mando do pulso a caneta rasurou o papel com gestos largos e irritados. Emendou os rabiscos. Inspirou fundo, buscando novo alento para os difíceis cálculos fáceis e voltou a suspirar, agora com mais calma, técnica milenar para o auto-controlo

Fez, instintivamente, aquele gesto feminino de afastar os fios de cabelo postiço que costumam estorvar a visão. Percebeu que não tinha cabelo postiço: os cabeleireiros andam caros. Ia roer as unhas que já pediam uma demão. Não roeu, não fosse comprometer o que restava da manicure possível. Amarrotou o papel como se este fosse o culpado de toda a crise. O papel, na subserviência que se conhece, deixou-se amarrotar, calado, com estoicismo de um funcionário antigo em véspera de reforma. Recuperou, no papel amarfanhado, os dados dos cálculos e rectificou-os num papel novo, com teimosia de quem regateia o custo de vida. Atirou-se aos cálculos, agora com mais respeito pelos algarismos.

Estava deitada, posição de réptil, sobre a cama. Assim de capulana, era uma lagartixa em trajes caseiros. Os gestos ansiosos denunciavam a urgência das contas. Ergueu a cabeça. Os braços eram dois pilares aguentando o tronco. Os cotovelos afundaram no colchão. As tangerinas do peito esmagavam, na superfície do lençol, os papéis rabiscados. A cabeça afundada sobre os ombros. As omoplatas espreitava denunciando toda engenharia do esqueleto. As costas em arco desenhavam, numa hipérbole dramática, o gráfico da cadente economia nacional.

De nervosismo balançava os calcanhares de tornozelos entrecruzados e emprestava delicados abanões ao conteúdo da capulana. Riscou, escreveu, esquematizou, calculou, somou, somou, somou. Depois subtraiu...  Mas quando multiplicasse pelos dias do mês, ou dividisse pelas despesas fixas, não batia!! Suspirou. Chamou a calculadora do telemóvel para ajudar. Foi quando viu a mensagem “oi”, à qual respondeu, com expectativa de uma isca num anzol, outro “oi”. E foi trocando “ois” simpáticos, sabendo que a solução para a crise sempre foi fortalecer parcerias e amanteigar o relacionamento com os doadores.

Mais tarde:

- Amiga!

Bateu com a palma na mão da outra, ouviu-se um pah! de cumplicidade e ficaram de mãos dadas, as digitais coladas, confundindo o álcool dos vernizes das unhas e trocando, entre uma fofoca e outra, os códigos  da comunicação feminina.

-- Tens de me ajudar.

-- O que foi? --arregalou os olhos.

-- Vou sair com o “cabeça-de-pão”

-- E depois? Paga bem, esse.

-- É que também tenho encontro com o “cabeça-de-coco”.

-- Marca para mais tarde.

-- O problema é o “cabeça pequenina”, quer vir hoje.

-- Cancela esse... -- atirou os dedos em jeito de desprezo --, manda passear.

-- Não posso, ele é o meu cabeça-de-lista.

-- Cabeça-de-lista? -- Ajustou o nó da capulana --  Yuh! Já elegeste?

-- É que -- colou a mão ao peito e olhou para cima, para o nada -- gosto dele.

-- Não é altura para gostar -- franziu a testa -- Agora é tempo de democracia -- friccionou a ponta do polegar sobre o indicador.

-- Mas eu o amo. O amor é melhor que a democracia.

A amiga revirou os olhos, resignada a cegueira que o amor causa -- mas podes adiar. Diz-lhe que uma comissão familiar ainda estava avaliar as condições da candidatura...

Riram-se e no meio das gargalhadas ouviu-se o som da cumplicidade:

a mão duma a bater na doutra, pah!, enquanto o toque do telefone celular avisava outra mensagem: “oi”.


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