O canto da liberdade em Paulina Chiziane

O canto da liberdade em Paulina Chiziane

Quem tem música e asa,/ não precisa de casa

Hélder Faife

“O canto dos escravos” é o título do novo livro de Paulina Chiziane. Escrito com essa sucessão de sílabas/ fonemas que formam unidade rítmica e melódica, isto é, o verso, a obra constrói-se com sentimentos impossíveis de conter na violência sentenciada pelo silêncio. Por essa razão, exprimir-se, aqui, é uma forma de se manter iluminado feito luz de uma mentalidade ainda por firmar.

Ao contrário dos versos líricos – que se esgotam na beleza da sugestão – estes de Chiziane têm num sonho ambicioso uma razão de existir: o sonho de ser ave e de transferir a metáfora do voo para toda a sua gente, do seu país, do seu continente na diáspora porque há toda uma África perdida algures no mundo. Por isso mesmo, a palavra dita objectivamente, sem rodeios e com tão poucos recursos estilísticos que tornam a mensagem ambígua ou algo polissémica, dilui-se com o canto para dar voz ao grito da liberdade.

Neste livro, Paulina Chiziane trava um combate exacerbado consigo mesma, pois nisso sobrevive a frontalidade com que encarra um explorador (in)visível, (in)temporal, além de um espaço. O tom da mensagem deste livro revela-nos um conjunto de entidades fartas da submissão e de todos os estereótipos à volta do Homem preto. Também por isso, a autora de “Niketche”, tal como nessa narrativa, abraça uma causa, não restrita à mulher, mas atinente a uma nação inteira, porque a dor desse chicote agora feito de paleio é sentida por todos. Não há dúvidas, nesta obra Chiziane apresenta-se com uma expressão muito coincidente com África surge et ambula, de Rui de Noronha, em termos de projecto do que este continente fragmentado por toda a parte, por gente imbecil, deve ser: sempre livre dos seus opressores, ainda que essa gente seja os ilustres libertadores da pátria.

Os cantos, de facto, são dos escravos, mas não se precisa recuar até ao séc. XIX para se perceber que os escravos, neste contexto literário, somos todos nós, excluídos/ extintos pelos nossos receios, silenciados pelas bocas que outrora nos deram voz. A esses, Paulina Chiziane, cada vez mais incisiva, algo que se confunde com amadurecimento (?), lembra: “Não é preciso matar gente para construir uma civilização” (p. 52). Outrossim, porque quer repartir com mais alguém as desventuras que não rendem manter trancadas no peito, a autora dá eco aos gritos dos seus sujeitos de enunciação, que nos dizem: “Em nome da salvação conheci os caminhos da perdição” (p. 70), verso melhor de entender quando se pensa no teor de um outro: “Os colonos já foram, mas deixaram capangas/ Fiéis guardiões dos fantasmas do passado” (p. 96).

A partir desta urdidura textual, fica-se mais claro em relação à sugestão deste livro. Paulina quer o mundo para sua gente – que por séculos viveu na sombra das suas cicatrizes – consciente de que só se pode conquistá-lo apropriando-se de território em território. Para o efeito, os sujeitos textuais cantam o canto dos escravos, transportando do passado a memória colectiva para suplantar o novo “Big Brother”. Portanto, nesta nova aparição literária – melhor quando se recita do que quando se lê em silêncio – Paulina Chiziane faz com que o canto seja um testemunho das crueldades antigas e actuais, força motriz para se arregaçar as mangas e partir à procura da liberdade, em qualquer lugar, porque um Homem livre não precisa de casa.

 

Título: O canto dos escravos

Autor: Paulina Chiziane

Editora: Matiko e Arte

Classificação: 13


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